Mobilize Europa

21
fevereiro
Publicado por admin no dia 21 de fevereiro de 2017

lavapies

 

Serendipidade. Ouvi essa palavra pela primeira vez em 2014, em uma aula de urbanismo na Universidade de São Paulo. Significa uma descoberta que acontece por acaso, de modo imprevisto, inesperado. Muitas descobertas científicas acontecem assim. Dizem que a penicilina, por exemplo, foi descoberta acidentalmente por Alexander Fleming.

 

 

Depois da aula de urbanismo, em uma noite fria de agosto, peguei um ônibus na cidade universitária e desci na esquina da Paulista com a Consolação, muitos pontos antes do meu prédio no centro. Queria descer a rua Augusta a pé. “Encontrar aquilo que não estava procurando”.

 

 

Gosto das cidades. Não me contento em observá-las de longe, da janela de um prédio alto (não me venham com skylines) ou por detrás de um vidro de carro. Preciso me misturar com elas, e o único jeito de se misturar com as cidades é experimentar as cidades no corpo.

 

 

Cá estou eu agora, em Madri, com uma bolsa de doutorado sanduíche que me permite fazer o que eu mais gosto: estudar e explorar as cidades.

 

 

Escolhi para viver o bairro de Lavapiés. Um bairro bastante central, que há poucos anos tinha má fama por ser associado à vinda de imigrantes pobres. Quando eu cheguei muita gente me advertiu:

 

– Cuidado, é perigoso.

– Perigoso por quê?

– Porque há muitos migrantes.

– É mesmo? (E eu sou o quê, cara pálida?)

 

 

Eles de fato estão lá. Árabes, africanos, sulamericanos, franceses, alemães, gente de todo o canto. Uns mais ricos, outros mais pobres, uns muito velhos, outros muito jovens. Agora também é disputado entre estudantes Erasmus (como eu) e jovens profissionais, o que já aponta para um futuro incerto, rumo à famigerada gentrificação.

 

LavapiesGrafite em Lavapiés, Madri. Foto: Mariana Falcone Guerra

 

O que faz de Lavapiés um lugar especial é um ingrediente raro nas cidades hoje: a diversidade, que é prima-irmã da criatividade. Não é à toa que o bairro agora borbulha com novos teatros, bares, coletivos de artistas e grupos como o “Ésta es una Plaza”, que dão novos usos  a espaços ociosos e promovem a substituição do cinza pelo verde.

 

MuralGrafite em Lavapiés, Madri. Foto: Mariana Falcone Guerra

 

A maior parte das ruas é de paralelepípedo. Aqui até os carros andam devagar. A prioridade é o pedestre e o ciclista, e por isso (claro!) o comércio é uma festa. As vitrines são coloridas e cheias de detalhes. O convite para entrar é irresistível, e se você entra, você aprende.

 

 

Aprendi palavras em árabe com um vendedor de doces da Síria que sempre me oferece uma cadeira e um chá (desde que eu o saúde com a palavra “benvindo”, que ele me ensinou). Aprendi como se faz sabão em barra na loja de um italiano. Aprendi a fazer paella em um bar valenciano perto de casa, e sigo aprendendo…

 

lojaLojas com vitrines coloridas em Lavapiés. Dá pra resistir?  Foto: Mariana Falcone Guerra

 

Andando por aqui eu experimento um jeito de conhecer Madri que agora levo para outras cidades quando eu viajo. Esqueço o guia. Vou sendo levada pela tortuosidade das ruas e me deixo cativar pelo comércio e pelas pessoas que eu vejo. Não tenho um roteiro pré-definido, e se chego em um monumento ou lugar específico, é como se fosse um presente, ou uma descoberta.

 

 

Em toda a esquina olho dos dois lados e escolho o mais interessante. E normalmente sou surpreendida com detalhes e experiências que valem a viagem.

 

 

Tenho pensado que a precisão não é amiga das cidades. Para conhecê-las é preciso conversar com as pedras;  ou com a pessoa que está ao seu lado no café, no ponto de ônibus ou debruçada na janela.

 

 

E praticando esse meu novo esporte de me perder e me achar pelas ruas das cidades, eis que me deparo esses dias com um coworking de nome curioso em uma esquina de Salamanca: Serendipity.

 

 

Serendipidade. Essa palavra, que o corretor do Word insiste em não reconhecer, não me sai da cabeça desde que cheguei a Madri.

 

 



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Sobre o Blog
Especialistas, colaboradores e parceiros do Mobilize escrevem suas impressões sobre a mobilidade urbana nas cidades europeias, de bicicleta, sobre skates, em cadeiras de rodas, correndo ou andando, no metrô, VLT, ônibus, barcos, funiculares, riquixás e outras modalidades de transporte urbano.
Com a palavra...
Mariana Falcone Mariana Falcone Guerra é arquiteta graduada e com mestrado pela FAU-USP. Atualmente está na Espanha, realizando doutorado no Centro de Inovação em Tecnologia para o Desenvolvimento Humano da Universidade Politécnica de Madri. Há mais de dez anos dedica-se à área urbanística, desenvolvendo projetos e consultorias voltadas ao desenho urbano inclusivo, e ao reforço da métrica pedestre. Acredita que a apropriação do espaço público pelas pessoas é a melhor estratégia para reforçar a segurança e a vitalidade das cidades.
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