Genebra, com destino a Paris: de bike pelo continente sem fronteiras – Mobilize Europa
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24
julho
Publicado por admin no dia 24 de julho de 2013

Depois de pedalar pela Holanda, norte da Alemanha, República Tcheca, Áustria, sul da Alemanha, Suíça (a parte alemã e italiana) e Itália, meu objetivo agora era entrar na França, passando pela parte francesa da Suíça, de onde seguiria até Paris.

 

Para cumprir meu trajeto, segui até o Lago Léman, ainda na Suíça, e o contornei pela margem sul, que já faz parte do território francês. Cheguei do outro lado do lago, que pertence à Suíça, o que me possibilitaria conhecer Genebra e dali acessar definitivamente a França.

 

Todas estas passagens de um território para outro me fizeram refletir muito sobre nosso famoso direito constitucional de “ir e vir”. Nesses 3 meses e meio de viagem atravessei as divisas sem o menor problema, por fronteiras que tinham pouco ou nenhum controle e eram por muitas vezes quase imperceptíveis. Um dos motivos para esta facilidade era sem dúvida nenhuma porque eu viajava de bicicleta, mas esta não é a única explicação.

 

A Alemanha e a Áustria falam a mesma língua (alemão), assim como a região norte da Suíça. Na parte sul da Suíça, pouco antes de chegar na Itália, se fala italiano e na parte oeste, o francês. Nestas regiões de diferentes países, os costumes são semelhantes e em diversos casos, como em Genebra, muitas pessoas que trabalham na cidade suíça optaram por morar na França, onde tudo é mais barato. Há também aqueles que moram na Suíça e fazem suas compras do outro lado da fronteira, com pequenas restrições, como na quantidade de alimentos (carnes, por exemplo), e outros produtos, mas esta é uma prática tão comum que o controle é quase simbólico.

 

Esses pontos me fizeram enxergar a Europa como um grande território sem fronteiras, cujas únicas barreiras pareciam ser a língua, alguns costumes e poucas vezes a moeda (a República Tcheca e a Suíça não utilizam o Euro, mas em Praga e nas cidades fronteiriças da Suíça é muito fácil fazer o câmbio). No sul da Alemanha, por exemplo, é comum pegar trens que tem como destino as cidades austríacas, o mesmo acontece da França para a Inglaterra, e assim por diante. Apesar de não ter feições arianas (tenho a pele morena, olhos e cabelos castanhos), não sofri qualquer preconceito em nenhum dos lugares por onde passei. Na Alemanha por exemplo, cheguei a conversar com uma moradora de Hamburg, que se sentia muito envergonhada pelo passado do seu povo, e num determinado momento da conversa seus olhos se encheram de lágrimas. Hoje boa parte dos alemães, principalmente os mais velhos, vive com um sentimento que mistura culpa com vergonha.

 

As facilidades de transpor fronteiras se somavam à infraestrutura cicloviária e na maioria dos casos a um profundo respeito ao ciclista. Se no começo da viagem minha barriga gelava cada vez que me aproximava de um novo país, com o tempo essa angústia se transformou em uma ansiedade muito boa.

 

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Ciclovia

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Bike Box

 

Chegando em Genebra encontrei uma cidade ótima para se pedalar, além disso, os VLTs, veículos pelos quais me apaixonei, estão por toda parte, da periferia ao centro. As ciclovias são quase sempre compartilhadas com as ruas onde se deslocam os carros, e consistem basicamente na marcação de uma faixa exclusiva no canto da pista. Ao contrário do que dizem muitos especialistas, é muito seguro pedalar nesse tipo de vias, pelo menos por aqui. Bike boxes (aqueles espaços na frente dos carros para as bicicletas aguardarem o sinal de trânsito), sistemas de aluguel de bicicletas e paraciclos estão em toda parte.

 

0524 - Na região do Jura, um evento dominical chamado "Slow Up" fecha as ruas para o trânsito de veiculos automotores;

Na região do Jura, um evento dominical chamado “Slow Up” fecha as ruas para o trânsito de veiculos automotores;

De Genebra atravessei as montanhas do Jura para chegar definitivamente na França. Esta região é famosa pela sua inclinação anarquista, sendo berço de vários ícones deste sistema. Ainda hoje são realizados encontros políticos desta vertente por ali. As montanhas do Jura foram o primeiro lugar onde vi a prática do camping ao ar livre (fora dos campings) ser liberada, ou seja, não era necessário pagar e acampar na floresta era permitido. Dali segui pelas margens de rios e canais, passando pela Borgonha até chegar em Ile de France, onde fica Paris.

 

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Canais navegáveis na Borgonha, eclusa e ciclovia paralela

 

A França não tem tantos rios como o Brasil, por exemplo, mas eles são muito bem aproveitados para o transporte. Seguindo e preservando seu leito há sempre um canal paralelo, com um complexo sistema de eclusas que o torna plenamente navegável. Por estes canais circulam barcos de passeio e de carga, dos mais diversos produtos.

 

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Ponto de ônibus na Borgonha

 

Muitas pequenas cidades se desenvolveram em virtude de portos localizados à beira destes canais e sua economia depende deles. Pedalar ao lado dos canais é ótimo pois é uma região extremamente arborizada, com caminhos exclusivos para ciclistas e pedestres, onde a circulação de automóveis é restrita. Além disso, há quase sempre uma linha de trem paralela aos canais. Ainda hoje fico impressionado cada vez que vejo um TGV (Trem de Grande Velocidade) passar ao meu lado, já que estes trens desenvolvem uma velocidade incrível, e por maior que seja a composição, desaparecem no horizonte em questão de segundos.

 

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Navio cargueiro no Sena, próximo à Paris

 

Só nos últimos quilômetros antes de chegar a Paris foi que encontrei alguma complicação no meu deslocamento. Os portos e indústrias instalados às margens do rio Sena me obrigaram por diversas vezes a desviar da minha rota, e se o rio era minha referência, eu sempre buscava voltar para perto dele, o que às vezes me tomava um certo tempo. Com alguma dificuldade (nada que tornasse o caminho inviável) cheguei à capital francesa. Confesso que antes de chegar ao centro me lembrei muito de São Paulo, com o rio todo canalizado, as marginais abarrotadas de carros, um barulho e trânsito infernais. A sorte é que neste trecho existe uma boa ciclovia, que me conduziu rapidamente para a cidade.

 

Não quero ser partidarista, mas cada vez mais estou seguro de que a bicicleta é o melhor veículo para o deslocamento urbano. No caso de um turista então, multiplica-se esta relação por 10. É verão na Europa e Paris é a cidade mais visitada do mundo. A quantidade de carros e pessoas tende ao infinito, o que pode deixar qualquer motorista louco; além disso nem os ciclistas ou os pedestres respeitam muito as leis de trânsito, salvo algumas exceções. A cidade não possui sistema de VLTs, mas uma rede metroviária incrível parece compensar esta deficiência. Só que nesta época do ano, pegar o metrô em Paris não é muito mais fácil do que enfrentar a estação da Sé, em São Paulo, em horário de pico. Outro fator que pesa a favor das bicicletas é que a velocidade dos carros é reduzida, e seu controle extremo. Ao conversar com um brasileiro que mora na cidade há 8 anos, ele me disse que se ultrapassar os limites de velocidade, é multado.

 

As grandes avenidas da cidade possuem marcação de faixas para bicicletas; existem sinais de trânsito para os ciclistas; bike boxes, mas curiosamente encontrei poucos paraciclos. Em algumas regiões mais frequentadas por ciclistas, pedalar nas ciclovias no sentido contrário pode ser muito perigoso, e vale a bronca dos parisienses mais apressadinhos. Não demorou muito para que eu “pegasse o jeito”, mas todo cuidado é pouco. Pedalar em Paris requer muita atenção e cuidado, o que na minha opinião deveria valer menos para ciclistas e pedestres do que para condutores de veículos motorizados, em qualquer cidade do mundo.

 

 

 



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Especialistas, colaboradores e parceiros do Mobilize escrevem suas impressões sobre a mobilidade urbana nas cidades europeias, de bicicleta, sobre skates, em cadeiras de rodas, correndo ou andando, no metrô, VLT, ônibus, barcos, funiculares, riquixás e outras modalidades de transporte urbano.
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Mariana Falcone Mariana Falcone Guerra é arquiteta graduada e com mestrado pela FAU-USP. Atualmente está na Espanha, realizando doutorado no Centro de Inovação em Tecnologia para o Desenvolvimento Humano da Universidade Politécnica de Madri. Há mais de dez anos dedica-se à área urbanística, desenvolvendo projetos e consultorias voltadas ao desenho urbano inclusivo, e ao reforço da métrica pedestre. Acredita que a apropriação do espaço público pelas pessoas é a melhor estratégia para reforçar a segurança e a vitalidade das cidades.
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