O Caminho Português, de Santiago de Compostela a Lisboa – Mobilize Europa
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09
dezembro
Publicado por admin no dia 09 de dezembro de 2013

Após sete meses utilizando praticamente só a bicicleta para me locomover por boa parte da Europa Ocidental (Holanda, Alemanha, República Checa, Áustria, Suíça, Itália, França e Espanha) era chegada a hora de atravessar a última fronteira desta cicloviagem, da Espanha até Portugal.

 

O percurso que escolhi seguia o chamado “Caminho Português”, uma vertente do Caminho de Santiago que sai do Porto em direção à cidade sagrada espanhola, no meu caso, em sentido contrário: de Santiago ao Porto. O caminho é todo indicado por setas azuis, que passam pelo Porto e conduzem até outro importante polo de peregrinação, o Santuário de Fátima. De lá faltariam poucos quilômetros para chegar a Lisboa.

 

Via rápida e pedagiada e uma alternativa de velocidade reduzida levam ao mesmo destino (Porto)

Via rápida e pedagiada e uma alternativa de velocidade reduzida levam ao mesmo destino (Porto)

Saindo de Santiago em direção ao sul, ainda não via as setas azuis, indicando o caminho de Fátima, e era um pouco difícil seguir a direção contrária àquela indicada pelas setas amarelas. Por algumas vezes tive que pedir informações, já que pedalava por uma movimentada estrada, compartilhada com os automóveis e não estava seguro de que poderia continuar por ali.

 

Os caminhos, como em boa parte da rota de peregrinação, são pensados para os pedestres: em Santiago de Compostela, que recebe mais de 200 mil peregrinos por ano (números de 2010), alguns sinais de trânsito, por exemplo, têm caixas de som com gravações que avisam aos transeuntes quando podem ou não atravessar. Para quem pedala, no entanto, o caminho pode ser um pouco desconfortável e até confuso, mesmo seguindo por estradas que evitam as autopistas, pois há um intenso fluxo de automóveis.

 

Vias estreitas de paralelepípedo, no mesmo nível das calçadas e com velocidade reduzida caracterizam o centro das cidades portuguesas

Vias estreitas de paralelepípedo, no mesmo nível das calçadas e com velocidade reduzida caracterizam o centro das cidades portuguesas

Ao atravessar a fronteira da Espanha para Portugal, deixei a pequena cidade de Tuy e entrei em Valença, onde tive uma ótima impressão do novo país, que se confirmou à medida em que eu me dirigia a Lisboa – ruas de paralelepípedo com restrições ao tráfego de automóveis nas regiões centrais, prédios antigos bem preservados, um custo de vida muito mais baixo que em outras regiões da Europa além de um povo simpático e gentil.

 

Infelizmente a magia portuguesa que me contagiou tão rapidamente não se estendia às estradas. Apesar de haver uma boa malha ferroviária, o transporte no país é essencialmente rodoviário e os motoristas desenvolvem grande velocidade, sem respeitar muito os ciclistas. Quem caminha nas estradas, seja um peregrino ou morador local, deve utilizar coletes refletivos, que também são peças obrigatórias para os motoristas, quando descem dos automóveis para trocar pneus, por exemplo. A medida visa a diminuir os altos índices de acidentes envolvendo pedestres nas estradas, mais ou menos na linha em que o culpado é o atropelado e não o atropelador.

Pista compartilhada no norte de Portugal - sem acostamento

Pista compartilhada no norte de Portugal – sem acostamento

 

Algo que me chamou atenção é que quase sempre há mais de uma opção de estrada para um mesmo destino: uma autopista, ou pista de alta velocidade, sinalizada por placas azuis e pedagiada, além de uma pista de velocidade reduzida, normalmente com placas verdes ou brancas, onde é permitido o tráfego de pedestres, ciclistas, cavalos, carroças e tratores. O problema é que é preciso ter muita cautela, mesmo nas pistas de velocidade reduzida, já que a cultura ciclística é novidade em solo lusitano, e o respeito às leis de trânsito não é o forte do motorista português. Era a primeira vez, desde que deixei a Itália (onde sofri igualmente com a imprudência dos motoristas), que eu tinha a sensação de perigo real ao viajar. E senti falta do meu capacete.

 

Embora não tenha visto canais ao longo da costa portuguesa, por onde segui boa parte do trajeto, nas cidades costeiras e em outras que cresceram às margens de rios (como Coimbra ou Porto) o transporte fluvial não só é comum como também é muito importante. Além de servir como opção aos sistemas rodoviário e ferroviário, a atenção que se dá aos rios também ajuda a mantê-los limpos e gera benefícios imensuráveis para toda a sociedade.

 

Calçada larga e ciclovia acompanham a rua de paralelepípedo em Fátima

Calçada larga e ciclovia acompanham a rua de paralelepípedo em Fátima

Uma boa exceção no país é o santuário de Fátima, uma das cidades portuguesas mais visitadas por turistas do mundo todo. Ali amplas calçadas com boas ciclovias aparecem em boa parte da região central, onde o tráfego de automóveis tem limitação de velocidade e o estacionamento também é controlado. Também vi ciclovias nas cidades de Santarém e Lisboa, que embora um pouco dispersas e ainda subutilizadas, mostram uma preocupação nova e crescente com um modal que pode gerar enormes transformações na dinâmica das cidades.

 

Os trens e trams (VLT’s) são muito mais comuns em Portugal do que os metrôs subterrâneos. Talvez seja presunçoso afirmar que isso se deve aos altos custos financeiros e ambientais de construir linhas de trem por baixo de ruas de paralelepípedo tão antigas, mas assim mesmo a hipótese é plausível. Os grandes centros portugueses têm linhas de trem que se estendem para toda a região metropolitana e, em geral, os tíquetes são cobrados proporcionalmente à distância percorrida, como na maioria dos países europeus.

 

Ciclista se aventura nas ruas de Coimbra, entre a guia, uma tampa de bueiro e os carros

Ciclista se aventura nas ruas de Coimbra, entre a guia, uma tampa de bueiro e os carros

Boa parte das cidades portuguesas tem relevo bastante acidentado, o que poderia justificar, pelo menos em parte, a ausência de uma quantidade significativa de ciclistas. A quantidade e a qualidade dos ônibus, por outro lado, é grande, mas outra vez, o comportamento dos motoristas não ajuda, e às vezes o que se vê são veículos parados em filas duplas ou até triplas, principalmente nas imediações dos pontos de parada.

 
Depois de atravessar Portugal ficou fácil perceber que para pedalar nas cidades e estradas a infraestrutura é mesmo importante, mas é a educação que faz a diferença.



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