Mobilize Europa

29
agosto
Publicado por admin no dia 29 de agosto de 2013

Acabo de completar 7 mil km viajados de bicicleta pelo continente europeu. Apesar das diferenças culturais entre Holanda, Itália, França, Suíça, Alemanha, Áustria e República Tcheca, todos estes países têm pontos em comum, principalmente quando o assunto é mobilidade e qualidade de vida.

 

No começo da viagem, quando ainda pedalava pela Holanda, fiquei extremamente surpreso ao ver uma quantidade enorme de indivíduos com mobilidade reduzida em cadeiras de rodas elétricas, indo e vindo sozinhos para todo e qualquer lugar. Minha surpresa se dissolveu conforme mudava de cidade ou país, porque o que era novidade para mim parece ser lugar comum aqui na Europa. Que eu me lembre, não se vê muitos cadeirantes pelas ruas das grandes cidades brasileiras, muito menos circulando sem alguma ajuda. Onde eles estarão?

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O número de pessoas idosas circulando pelas cidades europeias é certamente maior que o de cadeirantes, mas igualmente encantador. Além da alta expectativa de vida em grande parte do continente, a infraestrutura das ruas e calçadas em praticamente todas cidades por onde passei nos últimos cinco meses, mais o transporte público de qualidade, permitem que senhores e senhoras com mais de 70 anos ocupem praças, parques e o comércio, com uma naturalidade óbvia, mas surpreendente para um paulistano de 30 e poucos anos.

 

Igualmente surpreso fico quase todos os dias, ao ver crianças pequenas indo sozinhas ou em pequenos grupos para a escola, a pé ou de bicicleta. Claro que estas questões não se referem exclusivamente à mobilidade urbana, mas também transitam pela segurança, educação e saúde, só para citar alguns benefícios de se viver em uma cidade feita para pessoas. Crianças e idosos ocupando livremente o passeio público pode ser um indicador de segurança e por que não, de uma cidade saudável.

 

Em oposição ao modelo adotado pelas cidades européias, parece extremamente cruel o caminho que trilhamos no Brasil. A infraestrutura (ou a falta dela) e a cultura do medo que imperam nas metrópoles brasileiras funcionam como correntes físicas e psicológicas que aprisionam crianças, pessoas limítrofes e idosos. Explico: nas localidades onde esta parcela da população não pode fazer pequenos passeios ou grandes deslocamentos sem depender de alguém, o que finalmente acontece é o enclausuramento em seus próprios lares.

 

bicycle-rider-and-dog_21256_600x450Obrigar crianças e jovens, que em geral não são a parcela economicamente ativa da população, a usar um sistema público de transporte decadente, lotado e incompatível com sua renda familiar gera um enorme ônus financeiro para a parcela da população de baixa renda e também para o estado. Como consequência natural deste cenário, as pessoas ficam presas em suas casas, pois não tem idade nem condição financeira para ter um carro e dirigir; não tem renda própria suficiente para entrar no sistema público de transporte e tampouco podem se locomover sozinhas a pé ou de bicicleta, entre outros motivos por questões de segurança. A impossibilidade das crianças ocuparem as ruas e a consequente privação do contato social, certamente gera barreiras psicológicas que serão sentidas por muitos anos de suas vidas.

 

No caso das crianças de classe média e alta, a prisão se estende para as ruas de outra maneira, pois se locomovem em automóveis com vidros escuros sempre fechados, quase como jaulas particulares, onde lhes é proibido o contato com gente “estranha”. Certamente eu não fui o único que cresceu ouvindo a máxima: “nunca fale com estranhos”. Em decorrência disso, como se comportará o adulto que desde pequeno foi privado do contato social e da ocupação do espaço público? A resposta mais provável é que, finalmente, quando chegar à “senhoridade”, volte ao mesmo cárcere, talvez com a sensação de jamais ter saído dele.



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1 Comentário

Enviado 9 de setembro de 2013 às 15:52 | Permalink

Olá,
moro em são Paulo há 30 anos e venho observando como nossa cidade (e praticamente todas as grandes cidades brasileiras) é inimiga de quem gostar de andar, por prazer, necessidade ou para exercitar-se. Há mais de 15 asno venho tentando chamar a atenção de alguns políticos sôbre um projeto que fiz, chamado “São Paulo à pé”, mas ninguém se interessa porque não envolve dinheiro público no meu projeto, e isso faz com que os políticos fujam porque o objetivo deles é outro.
No meu site (endereço acima), na aba Projetos, tem informações a respeito, caso alguém queira apreciar. Nesse projeto chamo a atenção aos benefícios para toda a população, principalmente das pessoas idosas, que como voce diz, estão aprisionadas. Isso é péssimo, principalmente para a saúde delas e para a saúde pública. Para qualquer informação estou à disposição.
Abraço
Alvaro Magri

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Especialistas, colaboradores e parceiros do Mobilize escrevem suas impressões sobre a mobilidade urbana nas cidades europeias, de bicicleta, sobre skates, em cadeiras de rodas, correndo ou andando, no metrô, VLT, ônibus, barcos, funiculares, riquixás e outras modalidades de transporte urbano.
Com a palavra...
Mariana Falcone Mariana Falcone Guerra é arquiteta graduada e com mestrado pela FAU-USP. Atualmente está na Espanha, realizando doutorado no Centro de Inovação em Tecnologia para o Desenvolvimento Humano da Universidade Politécnica de Madri. Há mais de dez anos dedica-se à área urbanística, desenvolvendo projetos e consultorias voltadas ao desenho urbano inclusivo, e ao reforço da métrica pedestre. Acredita que a apropriação do espaço público pelas pessoas é a melhor estratégia para reforçar a segurança e a vitalidade das cidades.
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