Passos e Espaços

13
outubro
Publicado por Irene Quintáns no dia 13 de outubro de 2016

Tentativa de esgotamento de um local parisiense (1) é uma coleta de mil detalhes pequenos e imperceptíveis que compõem a vida de uma grande cidade, de um bairro determinado de uma grande cidade: as incontáveis e sutis variações do clima atmosférico, da luz, dos cenários de tudo o que está vivo.

Georges Perec, escritor francês, descreve “aquilo que em geral não se nota, o que não tem importância: o que acontece quando nada acontece, a não ser o tempo, as pessoas, os carros e as nuvens”.

Fico fascinada com os limites, os entornos, os espaços urbanos e como se delimitam ou se diluem. Como cada pessoa sente o que acontece ao seu redor, como transpira seu olhar, como os lugares a acolhem como ela interage com eles. E aí, no meu olhar de urbanista, aparece a palavra “mágica”, BAIRRO, a unidade mínima de apropriação da cidade.

Diagramas ambitos_Irene Quintans
Ao longo do século XX, vários teóricos quiseram definir o que que é, a sua forma, seu tamanho. Christopher Alexander o define como “comunidade autônoma”;  Giorgio Rigotti, “célula urbana”;  Clarence Perry “unidade de vizinhança”: todos eles concordam que o bairro é uma entidade  com um raio de 400 metros – cinco  minutos a pé. Eles,  urbanistas,  usam essas medidas para poder medir e estruturar as partes da cidade(2).
NeighbourhoodsP

Mas Perec não. Como falei, ele gosta de aquilo que em geral não se nota. Eu também. É por isso que amei a definição que ele dá para o bairro: “Bairro é a parte da cidade à que não há que se transladar, pois já estamos nela” (3). E essa definição não entende de medidas, entende de sentimentos. Sentimentos de pertencimento!
MeuLugar_IreneQ

O bairro acontece em qualquer lugar da cidade. Não só nas áreas nobres, não só nas áreas periféricas. Jan Gehl (4) explica de uma forma muito simples o que é preciso para um espaço urbano ser, de fato, um espaço urbano (e não uma “terra de ninguém”): espaços para caminhar, lugares para estar, para poder ficar em pé, para poder sentar, para poder ver- escutar-falar. Essas são as coisas necessárias para sentir-se acolhido em um espaço da cidade. Sem isso, não existe bairro, não nos sentimos dentro dele, parte dele.
Imagem6

Imagem7

 

E as crianças, elas constroem na sua relação com a cidade esse conceito. Sabe, depende. Depende se nós, adultos, deixamos ou não.

Veja dois desenhos onde uma criança vai até a escola em transporte escolar e outra caminha.

 

Bloomberg WRI Sao Miguel Paulista_Irene Quintans

 

Faz uns dias fui convidada para ministrar uma aula no Instituto Singularidades sobre a relação da criança com a cidade. Lá, antes de refletir sobre o olhar da criança, os alunos (adultos) trouxeram algumas descrições muito lindas.
 

“Bairro é a área geográfica que fica onde  estão comportados os moradores que você pode chamar de vizinhos”

 

“Bairro é um pedaço de cidade onde vivemos histórias, guardamos memórias”

 

“Pedacinho de cidade no que a minha mãe mora e eu morei por muito tempo”

 

Irene Quintans_Bairro

 

Caminhar livremente pela cidade, ter lugares onde estar. Passos e espaços.

E os bairros surgem, nascem, mudam. Precisamos o sentimento de pertencimento desde sempre.
 
DSC_0392

Na foto, crianças desenham o seu bairro e, espontaneamente, caminham os lugares.

 
 
_________________________________________________________
 
REFERÊNCIAS
 

(1) PEREC, Georges. Tentativa de esgotamento de um local parisiense. Edição original de 1975. Reedição de Gustavo Gili, Barcelona, 2016. Tradução ao português de Ivo Barroso
Imagem 1_ Diagrama âmbitos_Irene Quintáns
(2) http://evstudio.com/the-neighborhood-unit-how-does-perrys-concept-apply-to-modern-day-planning/

http://evstudio.com/the-five-minute-walk-calibrated-to-the-pedestrian/

(3) PEREC, Georges. Espéces d’espaces
Imagem 2_autor desconhecido
(4) GEHL, Jan. Life between buildings:using public space.2006
Foto 1_Higienópolis, São Paulo. Irene Quintáns
Foto 2_Jardim Ângela, São Paulo. Irene Quintáns
Imagem 3_Pesquisa Mobilidade nas escolas de São Miguel Paulista, São Paulo. Consultores Irene Quintáns e Alexandre Pelegi para WRI – Bloomberg Philantropies no projeto Global Road Safety.
Imagem 4_ Desenhos de Flying Tiger. Depoimentos dos alunos da aula Criança e a cidade do Instituto Singularidades.



Compartilhe

Comente

Seu e-mail nunca é exibido. Campos obrigatórios são marcados *

*
*



Busca no Blog
Com a palavra...
Irene Irene Quintáns é arquiteta urbanista com pós-graduação em Estudos Territoriais, Políticas Sociais, Mobilidade, Habitação e Gestão Urbanística. Trabalhou nas Prefeituras de Barcelona e São Paulo (SEHAB, Obra de Urbanização de Paraisópolis). Fundadora e diretora da Rede OCARA (www.redocara.com), rede latino-americana de experiências e projetos sobre cidade, arte, arquitetura, mobilidade urbana e espaço público nos quais participam crianças. Através da Rede amplifica experiências, articula projetos em rede e organiza oficinas e palestras para dinamizar o pensamento crítico infantil e adulto sobre temas urbanos. Afiliada a IPA Brasil, Associação Brasileira pelo Direito de Brincar e à Cultura (ipabrasil.org).
Posts mais lidos
Categorias
Arquivo
Realização
Associação Abaporu
Desenvolvimento
MSZ Solutions
Comunicação
Mandarim Comunicação
Patrocínio
Itau Allianz
Apoio
Ernst & Young
Prêmio
Empreendedor Social
Prêmio Empreendedor Social