Passos e Espaços

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Publicado por Irene Quintáns no dia 06 de abril de 2017

Nós que trabalhamos com desenho urbano e mobilidade urbana sabemos que a Colômbia é uma referência. Bogotá (8 milhões de habitantes) não é tão grande como São Paulo (12 milhões), mas compartilha muitos desafios semelhantes, assim como outras cidades latino-americanas.
Al Colegio en Bici 06_Irene Quintans

Al Colegio en Bici 01_Irene Quintans

 

Nem todas as cidades (só algumas) podem mostrar um projeto de mobilidade escolar (incentivo da mobilidade ativa no trajeto casa-escola) de tanto sucesso como o “Al colegio en bici” de Bogotá. Neste post queremos destacar como a qualidade e comprometimento de todos conseguiram que o programa ganhasse continuidade em duas gestões municipais.

 

Se fizermos um histórico prévio, o programa pioneiro de bicicletas para escolares na América latina foi o “Bicicole”, desde a Municipalidade de Lima (Peru), a primeira iniciativa a incluir  temáticas de mobilidade urbana sustentável em escolas e que promove desde cedo o uso da bicicleta como meio habitual de transporte. As idealizadoras foram Jessica Tantalean e Analí Ochoa. O objetivo principal era formar escolares em uma nova cultura de mobilidade, na qual  o caminhar e o deslocamento de veículos não motorizados tornavam-se práticas saudáveis para melhorar sua qualidade de vida.

(Foto: Bicicole, Lima -Perú-)
Programa Al Cole en Bici Lima

 

A palavra “integral”, de acordo com os dicionários, significa “que não falta nenhum elemento; completo; inteiro”. O projeto Bicicole buscava isso, através da inserção de temas de mobilidade sustentável no curriculum escolar; capacitação de docentes; atividades e eventos, publicação e difusão de Guias Pedagógicos Escolares de Mobilidade Sustentável; trabalho coordenado com instituições públicas e privadas relacionadas com a área; gestão para a inclusão da mobilidade sustentável em diferentes âmbitos e setores. Na imagem acima, foto de uma das linhas do programa, o incentivo do uso da bicicleta no caminho à escola.

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No entanto, não são integrais propostas como fomentar a compra de bicicletas escolares sem o comprometimento da administração municipal, sem a infraestrutura cicloviária mínima, sem limitação de velocidade nas vias, sem a parte pedagógica ou sem o engajamento da comunidade. O FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) promove desde o ano 2011 a compra de bicicletas escolares pelos órgãos administrativos do Brasil (municípios, estados, DF) através do programa Caminho da Escola.

 

Basta aderir ao registro de preços promovido pelo FNDE para a compra de bicicletas escolares de aros 20 e 26. O programa informa que é “para melhorar a vida de muitos alunos brasileiros que precisam acordar muito cedo para percorrer quilômetros a pé”, pois  muitos caminhos nas áreas rurais e até mesmo urbanas são intransitáveis para veículos automotores. A justificativa, por mais que seja um problema real, não atende a uma solução integral. Ainda que em cidades menores ela ajuda aos escolares, em cidades de outro porte que não tenham um programa estruturado isso pode ser perigoso, e não apenas “moderno”.

(Na imagem, escolares da Prefeitura de Bicas, MG – Brasil-)

 

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Já no ano de 2012 um projeto novo aparece na cidade de São Paulo. O Programa Escolas de Bicicleta é uma iniciativa da Secretaria Municipal de Educação (através do Secretário Alexandre Schneider e do assessor Daniel Guth) e aconteceu ao longo daquele ano com estudantes dos 45 Centros Educacionais Unificados – CEUs, distribuídos em distintas regiões da Cidade de São Paulo. O objetivo do programa era chegar a 4.500 alunos capacitados nas rotas, dentro das comunidades daqueles entornos, proporcionando conscientização sobre sustentabilidade por meio de educação ambiental, estimulando o surgimento de novas relações com a comunidade e o meio urbano, possibilitando a utilização de bicicletas de bambu.

 

Aparece, agora sim, o conceito integral: sensibilizar os estudantes para o uso da bicicleta não apenas como forma de lazer e esporte, mas também como uma opção de transporte; educar para a preocupação com o meio ambiente e com a saúde; criar novas perspectivas, senso de cidadania e um novo relacionamento com a comunidade; estimular um novo olhar sobre seu espaço e o entorno da comunidade. O programa não teve continuação, mas deixou sementes…. Ah! A comunidade! E o que tem a ver uma criança de bicicleta com a comunidade?

(Foto: Escolas de Bicicleta, São Paulo – Brasil-)

Escolas de Bicicleta SP

 

Voltamos à Colômbia: após o projeto paulistano, o projeto colombiano Al colegio en bici começa no ano de 2013 em Bogotá, cidade onde há 171 bicicletas por cada 1.000 habitantes, sendo 98 carros por cada 1.000 habitantes (1).

Previamente, no ano de 2012, a Secretaria de Planejamento da cidade localizara 50.000 estudantes morando a uma distância entre 1 e 3 km das suas escolas, porém as estratégias de mobilidade para escolares não estavam funcionando corretamente (2).

A prefeitura calculava que as crianças e jovens caminhavam até sua escola quando a distância é no máximo de 1 Km. No entanto é fornecido subsídio para quem mora a partir de 2 Km de distância da escola, e transporte de ônibus (“Ruta escolar”) para quem mora a mais de 3 Km. Infelizmente nem sempre as ajudas são usadas para tal fim e muitas crianças caminham longas distâncias para estudar. Nem sempre podem caminhar sozinhas e nem sempre os pais e mães trabalhadores podem acompanhá-las no percurso.

(Nas imagens a seguir as familias e crianças que usam regularmente a bicicleta para ir até a escola)

 

Familia bike Bogota_Irene Quintans
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Al Colegio en Bici começa a ser planejado no ano de 2012 pela Secretaria municipal de Educação (SED) e é lançado em setembro de 2013. Entre finais de 2012 e começo de 2013 é criada uma Mesa Técnica Interinstitucional (Mobilidade, Planejamento e Educação) para promover a integração dos temas que afetam ao bem-estar infantil, como saúde e meio-ambiente.

 

Uma resolução do ano de 2014 consolida o programa como uma outra estratégia de mobilidade: as famílias cujos filhos moram a uma distância de mais de 2 km podem escolher e quem opta pela bicicleta abre mão das outras opções. Através do programa Mobilidade escolar a SED passa a ofertar Ruta escolar, Subsídio ao Transporte e Bicicletas. Além da sustentabilidade ambiental, educativa e emocional, o programa com bicicletas tem um custo menor (450-600 US$ por ano de subsidio ao transporte e só 380 US$ para cada bicicleta cuja vida útil é de 3 anos).

 

Mas… e a comunidade? Qual é seu papel? A comunidade é fortalecida?

 

O projeto teve seu primeiro piloto na localidade municipal de Bosa (equivalente a “distrito municipal” no Brasil) em seis escolas. Continuou, incorporando avaliações e modificações curriculares, em Kennedy, SubaEngativá, localidades  cuja população em idade escolar é 10% ou mais, frente ao 1% a 1,5% de outras áreas com poder adquisitivo maior. Atualmente são, no total, essas 4 localidades mais Tunjuelito e Rafael Uribe Uribe, onde 86 escolas participam do programa.

No programa piloto as idades dos alunos eram de 12 anos até 16 anos, mas a demanda e ilusão dos mais pequenos fez com que o acesso ao programa fosse ampliado até o 4º ano da rede primária (aproximadamente 9 anos de idade). A residência dos alunos deve estar numa distância entre 1 Km e 3 Km da escola, mas esta distância estava estudada para chegar a 750 metros no mínimo e a um máximo de 4 Km. Às vezes os pais acompanham seus filhos até os pontos de encontro das rotas, que podem estar até aproximadamente 400 metros distantes das casas dos alunos.
Os alunos que participam do programa têm uma capacitação através de várias aulas, com número variável em função da escola que recebe o programa (variam entre 10 e 16 aulas). Eles recebem um kit com colete, capacete e bicicleta, desenhada especialmente para o programa (o raio traseiro é menor para que a bike não possa alcançar velocidades altas, em prol da segurança). Para poder integrar os comboios de bicicletas, além da assistência às aulas, as crianças precisavam participar de, no mínimo, 3 saídas guiadas. As famílias também têm 1 dia de capacitação dentro das escolas,  para depois assinar a ata de compromisso (como explicamos previamente, optar por este programa de mobilidade municipal implica direitos e deveres, assim como recusar a outros tipos de subsídios de mobilidade).

(Nas imagens a seguir uma imagem da capacitação dos alunos -Twitter Al colegio en bici-, as saídas à cidade e a infraestrutura escolar)
Twitter Al Colegio en Bici

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Dados oficiais do ano 2015 apontam a 10.243 estudantes treinados, 86 escolas afiliadas ao programa com 3.161 bicicletas utilizadas (*). No total, foram compradas 4.443 bicicletas. Cada rota tem um máximo de 50-70 alunos, acompanhados por dois guias. Os guias também acompanham as crianças e jovens nas atividades pedagógicas. A escola recebe as bicicletas como material pedagógico e paraciclos dentro das suas instalações. Como curiosidade, apontar que, como bikes são consideradas material escolar e fazem parte do inventário escolar, e se a escola não as usa, ela pode ser objeto de uma vistoria externa. A bike é da escola, emprestada pela Secretaria e usada pelas crianças como material pedagógico, através de um contrato com os pais que decidem que esse será seu subsídio municipal de mobilidade.

 

Em junho do ano 2015 fiz uma visita técnica, sendo parte dos trabalhos desenvolvidos como Red OCARA. Visitei  a Secretaria de Educação de Bogotá e em campo, Bosa, um dos bairros que acolhem o programa, para conhecer esta experiência. Lá fui recebida pela equipe comandada por Leonel Miranda, coordenador geral e Carlos Mario Restrepo, coordenador técnico (cargos até o ano de 2016); também conversei com a antropóloga Juliana Rios, membro da equipe.
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Duas propostas muito interessantes nascem do projeto, além das citadas.

 

(Gráfico: Secretaria  de Educación de Bogotá)
Componentes Al Colegio en Bici

Em primeiro lugar, os CLUBES (já são 86 funcionando). Os alunos capacitados podem fazer parte do Clube SIKLAS de cada escola. Esses “clusters” consolidam pactos e redes que ajudam à sustentabilidade do projeto. Há tomada de decisões, participação e cidadania. Os alunos reconhecem a própria cidade, desenham as rotas de confiança, fazem atividades através de ciclo-expedições, através das quais trabalham o pertencimento (há um exemplo no fim do post).

 

Em segundo lugar, as ROTAS DE CONFIANÇA. As rotas casa-escola são definidas nos Clubes, pelos alunos da escola. Uma vez desenhada e georreferenciada, há um processo de validação: Secretaria de mobilidade, Secretaria de Governo, Área de Entornos Seguros e Secretaria de Segurança Pública. Por último, o Comité de controle e vigilância faz suas recomendações. No ano de 2016, de acordo com o coordenador geral Leonel Miranda, 240Km de rotas de confiança foram desenhadas e validadas.

O processo de cada rota (desenho pelos alunos, validação, ativação, estabilização e consolidação) garante muitas coisas! Autonomia, segurança, confiança, pertencimento e principalmente, direito à cidade desde cedo. Adoro essa proposta.
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RutaDeConfianzaRafaelUribeLaCaracasNovamente visitei o projeto em outubro 2016, desta vez acompanhada pela geógrafa Marta Román (GEA 21, Madrid). Tivemos a sorte de acompanhar, junto a David Riaño, aos Colégios Bravo Páez e Liceo Femenino Mercedes Mariño em uma ciclo-expedição até a Praça Bolívar, quando houve as manifestações a favor do processo de paz do país. Além de 3.500 crianças que percorrem diariamente as rotas casa-escola do programa, algumas saídas “extra”, em grupos, podem ter até 700 crianças e jovens de cada vez! A que acompanhamos era menor, mas o desafio era entrar no centro histórico de Bogotá, com a quantidade de bicicletas que mostro nas imagens. “Recorre tu ciudad en bici!”:
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Na foto abaixo, entrevista em Bogotá, março de 2017, com Carlos Mario Restrepo (esquerda), ex-coordenador técnico do programa, junto ao arquiteto colombiano Felipe Sierra do Coletivo Verde.

Carlos aponta um dado surpreendente: durante três anos de programa e quase dois de operação, foram realizadas quase 1.000.000 de viagens na cidade de Bogotá com zero acidentes. A gestão municipal 2012-2015 finalizou com 162 guias e 135 escolas participando do programa. Tendo em conta a hostilidade e densidade do trânsito urbano, é de se admirar!
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Desde aqui quero dar meus sinceros parabéns a Leonel, Carlos e toda a equipe, responsáveis  por esses dados, e desejo todo o sucesso para a nova equipe das Secretarias de Educação e Mobilidade que estão assumindo o programa na nova gestão do Prefeito Enrique Peñalosa: o objetivo é ampliar até atingir cobertura de 80% da cidade. Para isso há 23.000.000 milhões de pesos colombianos firmados (quase 8 milhões de US$). Os novos gerentes terão um grande desafio pela frente: além de administrar e ampliar o projeto, garantir a segurança de milhares de crianças bogotanas.

__________________________

REFERÊNCIAS

(1) http://www.educacionbogota.edu.co/es/?option=com_content&view=article&id=2815:movilidad-escolar&Itemid=354

(2) Bogotá, D.C. Caracterización del Sector Educativo Año 2015. Oficina Asesora de Planeación. Disponível em: http://www.educacionbogota.edu.co/archivos/SECTOR_EDUCATIVO/ESTADISTICAS_EDUCATIVAS/2015/Caracterizacion_Sector_Educativo_De_Bogota_2015.pdf

(3) HIDALGO, Darío; MIRANDA, Leonel; LLERAS, Natalia; RÍOS, Juliana. “Al Colegio en Bici”. ArticleinTransportation Research Record Journal of the Transportation Research Board 2581(2581):66-70 · January 2016. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/299546159_Al_Colegio_en_Bici

 

 



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Irene Irene Quintáns é arquiteta urbanista com pós-graduação em Estudos Territoriais, Políticas Sociais, Mobilidade, Habitação e Gestão Urbanística. Trabalhou nas Prefeituras de Barcelona e São Paulo (SEHAB, Obra de Urbanização de Paraisópolis). Fundadora e diretora da Rede OCARA (www.redocara.com), rede latino-americana de experiências e projetos sobre cidade, arte, arquitetura, mobilidade urbana e espaço público nos quais participam crianças. Através da Rede amplifica experiências, articula projetos em rede e organiza oficinas e palestras para dinamizar o pensamento crítico infantil e adulto sobre temas urbanos. Vice-presidenta da IPA Brasil, Associação Brasileira pelo Direito de Brincar e à Cultura (ipabrasil.org).
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