Passos e Espaços

16
dezembro
Publicado por Irene Quintáns no dia 16 de dezembro de 2015

As crianças são fofas, muitas pessoas acham. Político gosta de tirar foto fofa com criança, famosos se envolvem em causas para favorecer crianças, em fim… quem não falou nunca “que fofo!!!”
Bom, o tema é que além de fofas, as crianças são umas pessoas bem analíticas, sensíveis e precisas nas suas avaliações. Os adultos, muitas vezes, não levamos a sério a opinião delas, pois não achamos que tenham tal coisa (opinião) ou porque não levamos muito a sério (porque criança é fofa e só). Tal vez você, eu, todos, não tenhamos a coragem suficiente para perguntar algo diretamente a uma criança, a resposta acostuma ser direta, papo reto. Você gosta de mim? Se prepare para um “não” se for o caso. Do que você não gosta da sua cidade? Criança apontará os temas críticos, às vezes com mais precisão que um consultor.
 
“Mãe, os carros são muito mal-educados, não deixam atravessar às pessoas”, fala meu filho de 5 anos. Diga-me se você nunca foi mal-educado com um pedestre estando no papel de motorista. Se nunca, parabéns! Se já, repense, por favor.
 
Em estudo que realizei para o projeto Passagens Jardim Ângela (IVM, Instituto Cidade em Movimento), um dado me surpreendeu muito. Foi como uma tapa na cara. Jardim Ângela foi considerado no ano 1996, pela ONU, o bairro mais perigoso do mundo. Sabe do que as crianças tem medo? Assalto? Drogas? Brigas? Não. O maior medo delas seria resolvido com políticas de engenharia civil, com soluções técnicas (traffic calming, tempos semafóricos, desenho e localização de faixas de pedestres) e com educação no trânsito (educação para os adultos).
 
Irene Quintans_Passagens J Angela
Então acontece que nos processos urbanos ou outros projetos, às vezes, é dito que as crianças são escutadas, mas na verdade o resultado dessa escuta fica em um cartaz colorido (fofo) e ai acaba, pois já foi feito o “grande favor” de fazer elas se sentirem escutadas. Também podemos cair no assistencialismo disfarçado de outras coisas mais chiques. Mas escutar a criança é usar sua fala, efetivar ela, usa-la para a construção coletiva da cidade.
 
Referente à participação cidadã, o tema é complexo com crianças e com adultos. Como ajuda na nossa reflexão, trago uma matéria deste mês de novembro (2015). A Frente Mobiliza Curitiba organizou um bate-papo sobre a participação da sociedade civil no processo de planejamento urbano da capital paranaense e lançamento do livro ‘O mito do planejamento urbano democrático: reflexões a partir de Curitiba’(2)
“Ficou evidenciado que há diferentes prismas ao entender o que é participação. É importante a gente identificar qual a forma que queremos e qual não nos representa.”
 
Esta crítica poderia ser aplicada a muitos processos participativos. Com os adultos e em praticamente todos nos que envolvemos as crianças. Alguns projetos no Brasil estão incorporando trabalhos interessantes no processo de escuta.
 
O projeto Cidade das Crianças do pedagogo italiano Francesco Tonucci é o único grande projeto internacional que cria conselhos de participação infantil em diálogo com as prefeituras que assumem o compromisso de escutar sua fala e executar algumas das ideias. Começou com a prefeitura de Roma e hoje tem uma grande rede internacional na Itália, Espanha e Latino América.
Tonucci explica nos seus livros e palestras: “O objetivo é poder criar um espaço novo que está desaparecendo, entre a casa e a escola: a cidade. Um lugar que na atualidade não é usado, porque a criança vai da casa à escola, ou para outras escolas: de dança, de natação, o inglês, para voltar para casa para ver a televisão.
Podemos considerar as crianças como um “Indicador ambiental”. Um indicador ambiental é o que os ecologistas procuram como índice de saúde, de bem-estar ou de intranquilidade de uma atmosfera. Por exemplo, os vaga-lumes são considerados indicadores ambientais, quantas vezes dizemos “aqui eu via eles e agora não vejo eles mais”, por causa de uma contaminação maior. Eu acredito que nós temos que considerar as crianças como os vaga-lumes. “Quando nós nunca achamos as crianças caminhando ou brincando nos espaços públicos, significa que a cidade está doente.”(3)
 
Armadinho_vendo sol
Em Santo André, atual cidade coordenadora da Rede brasileira de Cidades Educadoras, foram criados os “conselhos mirims”(4), na linha de trabalho do Tonucci. O que está sendo desenvolvido em Santo André poderia ser aplicado em qualquer cidade do Brasil. “As crianças ficaram muito preocupadas com o planeta e têm cobrado respostas para os problemas que viram”, relata Vilma, que considera importante esse aprendizado democrático desde cedo. “Nós vivemos numa democracia e é bonito ver que as crianças muitas vezes têm a cabeça mais aberta para pensar soluções que muitos adultos, que ficam desenganados e céticos. As crianças acreditam, participam e querem ver resultados, saber a devolutiva das coisas e demonstram uma articulação e uma consciência surpreendentes.”(5)
 
Conselhos mirims_Sto Andre“Senhor Prefeito, Acho importante saber seus planos, saber se vai fazer melhorias para a cidade e se está cumprindo o que prometeu”. “É a Prefeitura que paga a construção dos prédios públicos?”
 
A criança às vezes mostrará sentido crítico e uma generosidade que deixará você se sentindo muita pouca coisa… Vamos nos comprometer com elas? Espero que as propostas mostradas sejam honestas com as crianças da cidade.
Armadinho_acredito nas pessoas

Pela primeira vez no Brasil a pauta “Cidade e infância” entrou na grade de um Seminário técnico de mobilidade, o Seminário Internacional Cidades a pé, organizado pela ANTP (Associação Nacional dos Transportes Públicos) e financiado pelo Banco Mundial.
 
A curadoria da red OCARA (rede latino-americana de experiências e projetos sobre cidade, arte, arquitetura e espaço público nos quais participam crianças) não quis buscar um projeto fofo, mas sim de qualidade e valorizando o papel cidadão das crianças.
 
David Cortés, da Fundación Nueva Ciudad, na sua apresentação das políticas municipais de mobilidade envolvendo crianças na Colômbia, encarava os projetos como “parte do sistema de mobilidade da cidade”. Efetivando o direito à cidade, a vivenciar ela com segurança, com detalhes, com surpresa, com aprendizagem.
 
Além da palestra do David, as crianças tiveram seu lugar em duas apresentações “Pontapé”, com o Carona a pé (Colégio Equipe, São Paulo) e com as caminhadas e descobertas em Brasília (Uirá Lourenço). Ainda, sem pedir licença, pois desta vez não precisava, tiveram espaço físico na exposição da Red OCARA e IPA Brasil, “Brincar de cidade é coisa séria”.
Porque esse título? No ano 2014, no Dia Mundial sem Carro foi realizada uma bela caminhada com alunos da Escola Estadual Rodrigues Alves, localizada na Avenida Paulista. Um espaço urbano tão próximo e tão desconhecido! Escola-equipamentos-parques-ruas-amigos. Quantas aprendizagens sobre o coletivo! O pequeno Weslen resumiu o dia com um “brincamos de cidade!”
 
Cidades a pe_Crianca e cidade
Sabem uma coisa? Brincar de cidade é coisa séria. É mesmo. E não é brincadeira. É caprichar na educação do olhar cidadão. Começa ai.
 
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REFERÊNCIAS
Foto 1_Pesquisa Caminho Escolar Jardim Ângela_Autora Irene Quintáns
Referência 2_ ‘O mito do planejamento urbano democrático: reflexões a partir de Curitiba’ http://www.cresspr.org.br/site/lancamento-de-livro-revela-processo-nada-democratico-na-revisao-do-plano-diretor-de-curitiba/
Referência 3_TONUCCI, Francesco. Cuando los niños dicen BASTA! e Con ojos de Maestro
Referência 4_ Conselhos Mirim – Santo André
http://www2.santoandre.sp.gov.br/index.php/component/k2/item/9650-prefeito-esclarece-duvidas-dos-conselheiros-mirins
Referência 5_ Conselhos Mirim – Santo André
http://portal.aprendiz.uol.com.br/2014/06/27/em-santo-andre-criancas-ajudam-a-definir-politicas-publicas-e-orcamento/
Foto 6_Tirinha Armandinho http://tirasbeck.blogspot.com.br/
Foto 7_ Conselhos Mirim – Santo André. Matéria de Diego Barros
Foto 8_Tirinha Armandinho http://tirasbeck.blogspot.com.br/
Foto montagem 9_
Identidade visual Seminário Internacional Cidades a pé
Apresentação Pedibús (Colômbia) com David Cortés. Na foto Pedibus na periferia de Bogotá (2010-11)
Apresentação Carona a pé (Colégio Equipe, São Paulo)
Ação Multa cidadã (Brasília)
Fotos “Exposição Brincar de cidade é coisa séria”_Red OCARA e IPA Brasil_Fotos Irene Quintáns



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Irene Irene Quintáns é arquiteta urbanista com pós-graduação em Estudos Territoriais, Políticas Sociais, Mobilidade, Habitação e Gestão Urbanística. Trabalhou nas Prefeituras de Barcelona e São Paulo (SEHAB, Obra de Urbanização de Paraisópolis). Fundadora e diretora da Rede OCARA (www.redocara.com), rede latino-americana de experiências e projetos sobre cidade, arte, arquitetura, mobilidade urbana e espaço público nos quais participam crianças. Através da Rede amplifica experiências, articula projetos em rede e organiza oficinas e palestras para dinamizar o pensamento crítico infantil e adulto sobre temas urbanos. Vice-presidenta da IPA Brasil, Associação Brasileira pelo Direito de Brincar e à Cultura (ipabrasil.org).
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