Pé de Igualdade

27
September
Publicado por admin no dia 27 de September de 2017

Desculpem meu pessimismo e mau humor por ocasião de mais um mês de setembro repleto de eventos e inaugurações para lembrar como é importante investir na mudança de paradigmas… Mas penso que está mais do que na hora de fazer algo se quisermos reverter o cenário de guerra representado pelas mortes no trânsito, mortes que atingem sobretudo o usuário mais vulnerável do espaço público da mobilidade, o pedestre.

 

Em cidades como São Paulo, a distribuição do espaço é extremamente injusta: destina-se somente 20% dele para acomodar 2/3 das viagens cotidianas que envolvem deslocamentos a pé (1/3 totalmente a pé, mais 1/3 a pé para complementar as viagens de transporte coletivo). E os  80% restantes são ocupados pelos 1/3 que circulam em veículos.

 

O resultado disso é o nocivo e perigoso senso de que ruas foram feitas para os condutores dos automóveis. Potencializando esta injustiça, há ainda o desenho urbano aplicado a nossas vias que deixam claro aos condutores dos veículos motorizados que eles podem trafegar com a velocidade que desejarem – nem que seja para irem de uma parada no semáforo a outra. Assim, não dá para esperar outro resultado que não a  alta ocorrência de atropelamentos, que matam mais de uma pessoa por dia, tal como a situação de conflito armado.

 

Até terroristas já descobriram o poder letal do atropelamento. Elegeram como arma para os últimos atentados jogar veículos em alta velocidade sobre pedestres circulando em calçadas e praças, simulando o comportamento de um veículo desgovernado e em alta velocidade.  E, infelizmente, funcionou perfeitamente.

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Van utilizada para o atentado terrorista em Barcelona neste ano | Foto: G1 (Globo)



E o registro sistemático destes atropelamentos gera dados estatísticos constantes em bancos como o Infosiga, que fornece, para a maioria deles,  local, dia e hora, gênero e faixa etária da vítima. Ao consultá-lo,  confrontamos a fria descrição destas tragédias com o sentimento de impotência e indignação. Ao nos colocarmos no lugar dos familiares e amigos das vítimas, fica difícil imaginar como prossegue o cotidiano de quem passou e continua convivendo com estas devastadoras experiências.

 

Como estarão as pessoas próximas à menina entre 0 e 17 anos, e a moça, entre 17 e 24 anos, ambas mortas atropeladas no mesmo local, a avenida Utaro Kanai, em frente a uma escola e a um ponto de ônibus na Zona Leste paulistana? As duas ocorrências foram à noite e em outubro de 2016.  Será que estavam juntas? Ou foram dias e horários noturnos diferentes? Estavam atravessando a via ou estavam na calçada, quem sabe aguardando a chegada do ônibus? O banco de dados não fornece mais detalhes, mas mesmo assim permanece a indignação de vidas perdidas de modo estúpido e evitável.

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Mapa Infosiga com os atropelamentos de 2016

 

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Detalhe do banco de dados do mapa do Infosiga com informações das vítimas

 

 

Algumas medidas para reverter a situação de predomínio do espaço público da mobilidade para o automóvel já têm sido tomadas. Uma delas é a reprodução do modelo novaiorquino de ampliação de calçadas em pintura verde, em locais onde a largura das calçadas não é suficiente para acomodar o fluxo a pé. Mas ainda é só o início, e ainda há muito a ser feito para esvaziar este trágico banco de dados do Infosiga.

 

 

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Rua Joel Carlos Borges, em SP: Antes e depois da ampliação de calçada | Fotos: Urb-i e Meli Malatesta

E dá para acreditar que isso é possível, ao vermos como era Amsterdã em meados dos anos 1970 e como é hoje, após a tomada de consciência da sociedade que exigiu do poder público que a cidade fosse redesenhada para as pessoas e para a vida.

 

Assim, torço para que nas próximas Semanas da Mobilidade e Dias Mundiais sem Carro tenhamos realmente o que comemorar, com alívio e alegria.

 

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Amsterdã nos anos 1970 e hoje Fotos: NL Ciclism

 

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Protestos realizados na Holanda nos anos 1970, após aumento do atropelamento de crianças  Foto: NL Ciclism                                                                                     

 



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Pe-de-igualdade Meli Malatesta (Maria Ermelina Brosch Malatesta), arquiteta e urbanista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e com mestrado e doutorado pela FAU USP. Com 35 anos de serviços prestados à CET – Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo, sua atividade profissional foi totalmente dedicada à mobilidade não motorizada, a pé e de bicicleta. Atualmente, ministra palestras e cursos de especialização em Mobilidade Não Motorizada além de atuar como consultora em políticas, planos e projetos voltados a pedestres e ciclistas.
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