SampaPé

15
agosto
Publicado por leticia no dia 15 de agosto de 2017


 Matéria originalmente publicada pelo Como Anda no Medium – disponível aqui 

 

 

Caminhos Cruzados é uma experiência de debate virtual com o objetivo de discutir um mesmo tema a partir de visões e abordagens distintas. Além de responderem cada uma das três perguntas elaboradas pelo Como Anda, cada convidado deve comentar a resposta do outro. Trata-se de um esforço para revelar as divergências, singularidades e, também, as semelhanças entre as perspectivas de cada um sobre a mobilidade a pé no Brasil.

 

 

Celebremos a mobilidade ativa e sustentável

Com Leticia Sabino, diretora do SampaPé!, e Juan Caballero, coordenador da EuroCities.

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1. Quais foram as motivações para promover as datas comemorativas da mobilidade ativa? Qual era o contexto?

Leticia Sabino: A motivação principal para criar uma Semana dedicada à celebração do caminhar nas cidades foi perceber que após 5 anos de atuação com o tema ele continua invisibilizado. Continua existindo apenas pela repetição da máxima “todos somos pedestres”, que ao ser todos não é ninguém, e ao ser pedestre ninguém se identifica. Assim, ficou claro que o caminhar precisa ser tratado com muito cuidado e sensibilidade para conseguir mostrar a importância de algo que é tão simples e delicado ao mesmo tempo que é complexo e potente.
A escolha da data em si foi inspirado pelo Dia Mundial do Pedestre, data comemorativa não oficial celebrada no dia 8 de agosto, dia em que foi tirada a fotos dos Beatles atravessando a Abbey Road em 1969. Esta foto se tornou um símbolo do caminhar nas cidades como modo de transporte porque o elemento principal da foto é, a então recém criada, faixa de pedestres, sinalização de trânsito urbana ordenando quem caminha na cidade. Esta é a data que posiciona a Semana do Caminhar no tempo, que vai acontecer neste ano entre os dias 7 e 13 de agosto.

 

JC: Iniciativas como a que realiza o SampaPé! são muito necessárias. É importante promover o caminhar nas cidades como um meio de transporte. Já que ser pedestre é uma escolha, mais além do que a princípio poderia ser visto como uma renúncia à impossibilidade de ter um carro particular ou usar o transporte público. 
Mais e mais cidades dão poder ao pedestre que apertando um botão pode fazer parar a circulação e atravessar a rua com segurança. Isto dá ao pedestre a sensação de liberdade que pode fazê-lo desfrutar de seu trajeto diário. Não podemos nos esquecer dos benefícios econômicos, para a saúde e o meio ambiente que temos ao caminhar. O fato de se comemorar o Dia Mundial do Pedestre no aniversário de quando se tirou a famosa foto dos Beatles através da Abbey Road é uma boa ideia para captar o interesse dos meios de comunicação que buscam notícias durante o verão.

Caminhos Cruzados (1)

 

 

Juan Caballero: A SEMANAEUROPEIADAMOBILIDADE é uma iniciativa da Comissão Europeia, que incentiva e apoia cidades na Europa e em outros lugares, a celebrar sete dias de atividades para promover a mobilidade sustentável. O objetivo final é conscientizar todos os cidadãos que o futuro também envolve formas de mobilidade alternativa à utilização do automóvel privado. A campanha é comemorada desde 2002 e sempre nas mesmas datas (de 16 a 22 de setembro), a razão é simples: 22 de setembro é “Dia Mundial Sem Carro”, que serve como o ápice da semana.
Mas não se trata apenas de enviar uma mensagem aos cidadãos, mas também de mostrar e convencer as cidades que é necessário o seu compromisso com a mobilidade sustentável. Portanto, um dos critérios para participar da SEMANAEUROPEIADAMOBILIDADE é implementar novas medidas permanentes, tais como melhoria da infra-estrutura, extensão de linhas de transportes públicos e a implantação de sistemas de transporte inteligentes. A ideia é apresentar essas medidas durante a semana para que os moradores de cada cidade estejam cientes das diferentes alternativas à sua disposição.
A cada ano, a SEMANAEUROPEIADAMOBILIDADE está centrada em um tema concreto. Em 2017, cidades em toda a Europa e no resto do mundo compartilham a mesma mensagem: “Compartilhar te leva mais longe”, para promover a mobilidade limpa, compartilhada e inteligente.

 

LS: O 22 de setembro é celebrado em todo mundo com uma mensagem muito clara: carro não é solução. Me parece interessante a abordagem do evento que o Juan coordena por cobrar um compromisso dos municípios participantes. Estendendo o evento de uma semana a impactos e mudanças a mais longo prazo. Outro ponto relevante que ele menciona é dar opções de deslocamento para os cidadãos, caminhar por opção e de forma segura e agradável é o melhor cenário possível para uma cidade, e quando há opções há intermodalidade e por isso acho importante que eles consigam cada vez mais mostrar que o elo conector entre as opções e que a melhor opção que mede o sucesso de uma cidade é quando os cidadãos ESCOLHEM caminhar.

 

2. Qual a importância de se ter essas datas comemorativas para o fortalecimento da pauta da mobilidade ativa?

 

Leticia Sabino: Comemorar é uma forma de chamar atenção para um tema de uma forma completa e diversa. No caso do caminhar isso é extremamente importante também para valorizar não só quem caminha mas também as iniciativas que contribuem com a qualidade da experiência do caminhar nas cidades. Além disso, como estamos de alguma forma embatendo e contestando uma cultura já estabelecida, a cultura do automóvel, é preciso atuar de forma interdisciplinar e cultural, abrangendo o tema a diversas formas de comunicação e de manifestação social e artística.
Este ano o mote da semana é “Caminhar dá liga” e através dessa mensagem queremos reforçar que o caminhar não só conecta todos os modais, como também pela sua característica de velocidade e interação com o espaço é o ato que nos liga com outras pessoas, com a paisagem, com as mensagens e com a cidade. Assim, diversas atividades, desde uma caminhada de 10 horas cruzando a cidade até uma exposição de desenho de ruas mais humanas compõem a programação, como forma de alcançar o significado e significância do caminhar nas cidades.

 

JC: Eu não poderia concordar mais ainda com o ponto de vista de Leticia: celebrar é uma maneira de chamar a atenção. Embora a caminhada seja o modo de transporte mais independente que possa existir, não deixa de ser uma tema que interessa a todos. De fato, a qualidade da experiência de caminhar nas cidades depende de todo o conjunto, passando desde o planejamento urbano ao respeito pelos outros usuários do espaço público.
O aspecto cultural e de entretenimento é essencial para qualquer campanha de sensibilização. Não se trata somente de lançar uma mensagem e fazê-lo de forma eficaz, mas também em premiar quem decide deslocar-se de modo sustentável com eventos culturais ou de outro tipo (por exemplo, em algumas cidades durante a SEMANAEUROPEIADAMOBILIDADE os cidadãos que decidem ir ao trabalho de bicicleta recebem café gratuito, e em alguns países os trabalhadores recebem uma pequena compensação econômica ou dias de férias adicionais se eles vão ao escritório de bicicleta, algo semelhante pode ser feito com campanhas que promovam a mobilidade a pé).

 

Caminhos Cruzados (2)

 

 

Juan Caballero: A SEMANAEUROPEIADAMOBILIDADE é vista, em muitas cidades, como um evento festivo, mais que reivindicativo, embora os dois aspectos estejam presentes. Muitos cidadãos abrem suas mentes para formas ativas de mobilidade e ter uma semana por ano ajuda que mais e mais pessoas decidam colocar seus tênis para caminhar ou pedalar para irem ao trabalho. Apesar de muitas cidades já terem uma alta porcentagem [de cidadãos] que prefere a mobilidade ativa (a pé ou de bicicleta), há sempre espaço para convencer mais pessoas, e por que não, para celebrarmos juntos essa forma de mobilidade.
Não há um único grupo de habitantes que não se veja afetado pela mobilidade urbana. Quando falamos de campanhas de sensibilização sobre tabaquismo, prevenção da saúde sexual ou responsabilidades civis, estamos pensando às vezes em grupos específicos. No entanto, a mobilidade urbana diz respeito a todo mundo, independentemente da idade, do trabalho ou condição. Não se pode esquecer do aspecto humano da mobilidade urbana quando se organizam esses tipos de campanhas.
Em EUROCITIES, nossas cidades estão preocupadas com fomentar a mobilidade ativa e segura e, por isso, criou recentemente um grupo de trabalho sob esse título e liderado por Lisboa.

 

LS: Fico muito feliz que há um grupo de trabalho focado na mobilidade ativa na EUROCITIES. Aproveitando que o Juan falou sobre as cidades europeias já terem altas porcentagens de deslocamentos ativos, vale lembrar que o que diferencia é justamente o contexto que oferece opções, já que aqui também a porcentagem de deslocamentos ativos é muito alta, muitas vezes maior que na Europa, mas que acontecem majoritariamente por falta de opção e infraestrutura, e por isso aqui temos um desafio maior.
Porém fica uma provocação, será que não chegou o momento desses eventos nas cidades europeias terem um grande foco em soluções e inclusão de transporte de cargas mais sustentável e ativos? Pois os deslocamentos nas cidades não são apenas de circulação de pessoas e a circulação de bens têm um impacto enorme na vida nas cidades. Quando uma cidade já está mais bem resolvida estruturalmente, em termos de ser compacta, oferecer opções de deslocamento dos cidadãos, precisa também criar soluções humanizadas de deslocamento de cargas, gostaria muito de ver este tema sendo altamente discutido na SEMANAEUROPEIADAMOBILIDADE.

 

Caminhos Cruzados

 

 

3. Vocês enxergam impactos claros da promoção dessas datas nas políticas públicas em prol da mobilidade ativa? Que expectativas vocês têm quanto à evolução desses marcos comemorativos?

 

Leticia Sabino: O maior impacto e objetivo está em fortalecer e consolidar a cultura do caminhar nas cidades. A cultura como elemento essencial de desenvolvimento humano e como sociedade que impacta desde a escolha das pessoas até as decisões políticas.
Como ainda é uma data recém criada a evolução esperada é primeiramente o crescimento no sentido de pessoas alcançadas pela programação e comunicação da Semana, como também de adesões oficiais, ou seja, organizações, governo etc, que de alguma forma acreditam na importância de se envolver e promover o caminhar como atividade oficial de suas organizações.
E como formato espera-se que o modelo, debate, temas e a abordagem também possam evoluir de acordo com a evolução do tema nas cidades. Em outras palavras que em alguns anos já não precisemos estar reforçando o básico de que o caminhar é a atividade com maior capacidade de conexão nas cidades e por isso sim é um tema de todos e de todas as áreas e possamos estar avançando nas reflexões.

 

JC: O objetivo da campanha lançada pelo SampaPé! é realista e seu impacto será benéfico para as cidades do futuro. Ainda assim, creio que é importante definir metas mais concretas que possam ser medidas com mais facilidade. Às vezes, nos preocupamos muito com as cifras, e dispor de números potentes reforçaria a mensagem da campanha.
Cooperação com outras organizações e o apoio dos governos e instituições é essencial para o sucesso da campanha. Acredito que SampaPé! vai “passo a passo” na direção certa.

 

Juan Caballero: A Comissão Europeia tem objetivos muito ambiciosos para reduzir suas emissões e o setor de transportes está especialmente envolvido neles. Dois desses objetivos são o desaparecimento de veículos movidos por energias não limpas para o ano de 2050 e transporte de mercadorias com emissão zero nos grandes centros urbanos para 2030. As cidades têm muito a contribuir nestes objetivos e, a cada ano, a SEMANAEUROPEIADAMOBILIDADE mostra que estamos mais perto deles.
Desde que a Comissão Europeia lançou esta campanha em 2002, o número de cidades que se inscreveram vem crescendo, atingindo um total de 2.427 cidades em setembro de 2016, a taxa de participação mais elevada nunca antes vista.

 

LS: Ao invés de reduzir as emissões que acaba fortalecendo carros elétricos, será que não seria mais legal ter metas sobre desaparecimento de veículos motorizados individuais? Ou aumento de ruas de circulação exclusiva de pessoas em modos ativos?
Espero que cada vez mais eventos deste porte tenham como objetivo dar espaço à pluralidade de iniciativas nas cidades, independente de seu tamanho, afinal as cidades são feitas pelas pessoas.
Espero que cada vez mais estes eventos sirvam para transformar as pessoas e que se transformem com o tempo.
Foi um prazer esta conversa e espero que possamos intercambiar mais ideias, reflexões e aprendizados entre países e organizações.

 

Leticia Sabino é idealizadora e diretora do SampaPé!. Mestre em Design Urbano e Planejamento de Cidades pela UCL, em Londres. Graduada em Administração de Empresas pela EAESP-FGV. Caminhante e observadora dos detalhes nas ruas e nas calçadas.

Juan Caballero é coordenador de projetos europeus relacionados com mobilidade sustentável em EUROCITIES, a rede que representa as 140 maiores cidades e mais povoadas da Europa. Dada sua experiência anterior como jornalista, desde 2015 é responsável pela coordenação do secretariado europeu da campanha SEMANAEUROPEIADAMOBILIDADE.

 

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Leticia Leticia Leda Sabino, 28 anos, é administra-
dora de empresas e idealizadora do SampaPé!. Depois de uma temporada na Cidade do México, percebeu que não só era possível viver sem carro, como somente se deslocando a pé podia experimentar realmente a cidade. Decidiu então partilhar sua descoberta, e criou o projeto de mobilidade urbana com foco no pedestre, para levar as pessoas a refletir sobre modos mais conscientes de locomoção.
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