Uma pedestre a favor das ciclovias – SampaPé
SampaPé

26
março
Publicado por leticia no dia 26 de março de 2015

Ainda que, acima de tudo, não há dúvidas que os modais ativos foram por muitos anos negligenciados na estruturação da cidade e que precisamos correr atrás deste prejuízo rápido, foi apenas na semana passada em meio a tantas discussões sobre as ciclovias de São Paulo que resolvi usá-las para ter mais propriedade de causa para defender.

 

Afinal, eu como pedestre, vi elas chegando aos poucos nas ruas em que passava, vermelhas, vivas e humanas. Muitos pensamentos e opiniões passavam pela minha cabeça enquanto cruzava por elas dependendo da experiência que vivia: apoiava veemente a sua implementação ao sentir a humanização das ruas, pelo simples fato de que conseguia cumprimentar ciclistas enquanto pedalavam pois  já não estavam com aquela expressão de  preocupação por suas vidas agora que tinham espaço garantido; já ao ver a ciclovia na calçada da Av. São Luís, senti a falta de dignidade habitual e repugnante que se sente ao ser um caminhante em muitos lugares da cidade, minha decepção foi tremenda principalmente porque a Av. São Luís tem, nada mais, nada menos, que CINCO faixas de rolamento para motorizados, ou seja não está acontecendo uma democratização e redistribuição do espaço público; em outras ocasiões, infelizmente frequentes, vi muitos ciclistas passarem no vermelho, o que me fez refletir sobre a falta de educação de todas as pessoas, independente do modal, sobre a priorização dos que estão se deslocando a pé.

 

Foto do Google Maps da Av. São Luís. Ciclovia na calçada e 5 pistas para motorizados.

Foto do Google Maps da Av. São Luís. Ciclovia na calçada e 5 pistas para motorizados.

 

Finalmente decidi que queria ter uma experiência, ainda que muito breve e curta, como ciclista urbana usando a nova infraestrutura disponível na cidade para ter uma visão de usuária para além da minha visão de passeante e defensora de cidades mais humanas.

 

Surgiu a oportunidade pois tinha uma reunião na Vila Mariana e sabia que havia ciclovia em todo o trajeto que eu teria que fazer, decidi então não ir a pé e tentar ir pedalando.

 

Peguei a bicicleta do sistema de bike sharing  do Itaú na estação 10, na Rua Eça de Queiroz e meu destino final era a rua Pedro de Toledo, onde ao pesquisar descobri que a estação mais próxima seria a 82. O total do trajeto era de aproximadamente 3 km.

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O trajeto

 

Iniciei a rota desmontada até chegar na Vergueiro, chegando lá peguei a ciclovia na pista central – aquela que em breve se conectará com a ciclovia da Paulista. Por este trajeto a ciclovia é bem larga e confortável, inclusive fui ultrapassada por um ciclista mais rápido e experiente, e ela está muito beneficiada pela sombra das árvores do canteiro central (coisa que não acontece quando caminho pelas calçadas da Vergueiro tendo que encarar o sol).

 

Foto do Google Maps da ciclovia na Vergueiro pertinho das árvores, enquanto a calçada é pelada.

Foto do Google Maps da ciclovia na Vergueiro pertinho das árvores, enquanto a calçada é pelada.

Estava tudo muito bem e prazeroso, até que de repente, parada em um farol, eu percebi que a ciclovia simplesmente terminava e eu não sabia para onde seguir. Eu, meio distraída com o prazer do vento na cara, quase continuei pedalando na avenida devido a pintura vermelha na borda da faixa em frente, que funciona como sinalização apenas para os domingos.

Fim da ciclovia da Vergueiro sem sinalização de continuidade.

Fim da ciclovia da Vergueiro sem sinalização de continuidade.

 

Mas logo que percebi que havia acabado o meu espaço exclusivo, decidi sair dali para procurar a continuidade da ciclovia. Desmontei da bicicleta, atravessei na faixa para a calçada e fui em direção da ciclovia da rua Madre Cabrini (qualquer um envolvido com mobilidade e a cidade descobriu que essa rua tem ciclovia graças ao escândalo do colégio Madre Cabrini quanto a essa faixa vermelha em sua porta, o que cada dia me parece mais absurdo pois eu costumo ver muitas crianças indo a pé – vou lá fazer uma contagem um dia destes).

 

Ciclovia em frente ao colégio madre Cabrini

Ciclovia em frente ao colégio madre Cabrini

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Enfim, continuei por ali, passando em frente ao colégio pedalando, e já então um pouco decepcionada. Neste trajeto a ciclovia muda completamente, vira bidirecional, e pela direção que eu estava o meu espaço era colado à guia. Porém não foi possível seguir a sinalização, a área destinada é a área de escoamento de água, bueiros, inclinação íngreme e árvores de porte pequeno plantadas na calçada que impedem a passagem, e eu tive que ir na contra-mão. Um carro no meio do caminho, no pisca alerta como se estivesse tudo bem.

 

Carro parado com pisca alerta na ciclovia.

Carro parado com pisca alerta na ciclovia.

Ciclovia bidirecional da Madre Cabrini.

Ciclovia bidirecional da Madre Cabrini.

E então cheguei em mais dois pontos de conflito: ao entrar a esquerda na rua Coronel Lisboa e em seguida ao cruzar a Sena Madureira. Na primeira situação é preciso olhar para as duas direções para ver quando vêm carros e eles vêm com tudo, e mesmo quando me viram esperando para “atravessar” não me deram passagem, tive que esperar o esvaziamento da rua para continuar.

Logo que entre na Coronel Lisboa tinha visão do cruzamento da Sena Madureira e via que todos os carros faziam a curva fechada invadindo sem se importar a ciclovia. Fui até o ponto de espera, desci da bicicleta e deixei ela em frente ao meu corpo para me proteger, não me senti segura.

 

Entrada na Rua Coronel Lisboa.

Entrada na Rua Coronel Lisboa.

 

Cruzamento com a Sena Madureira

Cruzamento com a Sena Madureira

 

Desmontei pois é preciso passar por uma rampa de pedestres para acessar o outro lado da avenida e por fim voltei para uma ciclovia larga e em boas condições, alívio. Nesta parte, o trajeto têm algumas subidas e descidas, o que começa a cansar, uma asmática como eu.

E então vi uma coisa que mexeu com a minha alma caminhante: a retirada das extensões de calçada nas esquinas, medida excelente que a Vila Clementino implementou para garantir a segurança dos pedestre, diminuindo a travessia na via e restringindo o formato da curva dos carros nas esquinas.

Retirada de travessia mais segura.

Retirada de travessia mais segura.

 

Cheguei na Pedro de Toledo, desmontei e fui pela calçada duas quadras para cima e uma para direita para poder devolver a bike na estação 82 e ir para a minha reunião.

 

Este é o mapa do meu trajeto:

Mapa personalizado no Google Maps

Mapa personalizado no Google Maps

Quem quiser ver em detalhes, link para o mapa: https://www.google.com/maps/d/edit?mid=zpHy7_xz_8_A.ktkf9M3zFNrk

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Conclusões, impressões e opiniões

 

Apesar de ter achado muitos problemas no trajeto percorrido eu sou totalmente a favor da implementação das ciclovias. Ser a favor não implica não poder criticar algumas coisas, da mesma forma que criticar não significa ser contrária as ciclovias.Ao meu ver:

1) É impossível implementar um sistema que NUNCA existiu na cidade de forma perfeita e totalmente satisfatória. Até hoje não temos calçadas e travessias seguras e decentes para quem anda a pé, e estamos muito longe de ter, mas já temos uma infraestrutura que utilizamos diariamente em massa e que podemos criticar, discutir e reclamar mudanças. Nenhuma obra, sistema, mudança, pintura e/ou projeto na cidade é definitivo. A cidade é viva e mutante e deve corresponder aos seus habitantes de forma a promover justiça e bem estar. É urgente ter infraestrutura ou pinturas cicloviária em São Paulo, para por fim podermos discutir em cima do que temos e conseguir encontrar a nossa vocação e modelo adequado para a cidade. Aproveito aqui para citar um trecho do texto acertadíssimo na Natália Garcia em que ela conta:

  • “Há uma série de cidades reconhecidas mundialmente pela boa experiência dos ciclistas que trafegam por suas ruas todos os dias, como Copenhague, Amsterdam, Londres, Paris, Portland, São Francisco, Barcelona e Bogotá. Cada uma dessas cidades tem seu próprio sistema cicloviário. Em Barcelona, uma série de ciclovias na calçada criou uma cultura de convivência entre pedestres e bicicletas. Algo inadmissível em Copenhague, onde as vias cicláveis são quase sempre segregadas e tão rígidas que pedalar na contramão é crime. O que por sua vez é visto com naturalidade em Paris, onde há várias vias de mão única para carros onde bicicletas podem andar nos dois sentidos. Já São Francisco conquistou sua malha cicloviária na marra, graças ao maior movimento cicloativista do mundo, o Critical Mass. Cada uma dessas cidades achou um sistema que coubesse em suas características políticas, econômicas, topográficas, climáticas e culturais. São Paulo está buscando o seu sistema. E o melhor jeito de encontrá-lo é experimentando. Que bom que estamos pintando algumas ruas de vermelho na cidade para observar e medir cientificamente como as pessoas se comportam com essa mudança funcional das vias da cidade. É assim que começaremos a construir um bom sistema cicloviário, o que leva tempo. Levou pelo menos dez anos até que a bicicleta se consolidasse como um modal seguro e viável nas cidades citadas acima.”

No caso de São Paulo fomos inspirados diretamente por Nova York, que começou as pedestrianizações e ciclovias por lá de forma experimental e hoje têm uma nova Times Square e é uma cidade ciclável.

 

2) É urgente também criar espaços e oportunidades de diálogos com a prefeitura sobre as ciclovias e sobre a cidade. Já foi criada a Câmara Temática da Bicicleta dentro do Conselho Municipal de Transporte e Trânsito- CMTT, que é uma iniciativa muito positiva porém limitada ao ser integrada exclusivamente por ciclistas, garantindo apenas a participação de quem utiliza as ciclovias, sem incluir quem interage com elas.

Cabendo ainda a todos nós cobrar espaços para gerar melhorias no sistema cicloviário na cidade. Que canais de contato haverão? Qual o papel das subprefeituras? Haverá uma plataforma online? Como as pessoas poderão contar suas experiências e influenciar nas mudanças?

Estes mesmos mesmos espaços e perguntas que surgem agora graças a polêmica da ciclovia é o que estamos procurando e questionando há anos como pedestres, cidadãos e usuários da cidade como um todo, visto que denúncias no SAC da prefeitura não geram respostas eficientes.

Acredito então, que agora é o momento de reinventar a relação entre usuários da cidade – cidadãos – e gestores para desenvolver São Paulo de forma coletiva e justa. E que este empurrãozinho vem acompanhado de cicloativistas sempre muito bem articulados e mobilizadores.

 

Câmara Temática de Bicicleta no CMTT -Publicado no Diário Oficial

Câmara Temática de Bicicleta no CMTT -Publicado no Diário Oficial

 

3) Eu sempre tive medo de andar de bicicleta em São Paulo, e agora finalmente me sinto segura e apta, em alguns trajetos, para praticar minha intermodalidade incluindo a bicicleta. Isso me deixa muito feliz e acredito que muitos outros, não ciclistas, poderão começar a incluir a bicicleta no seu dia a dia na cidade e experimentar a cidade de uma forma completamente nova.

VÁ DE BIKE

 

Foto: Aline Os Publicada no FB do Pequeno Cidadão

Foto: Aline Os
Publicada no FB do Pequeno Cidadão

 

 

E apenas uma observação muito importante: parem de dizer que a maioria das pessoas se deslocam de carro na cidade, é feio falar algo tão distante da realidade. Certamente o automóvel é o modal que ocupa mais espaço, mas para transportar o menor número de pessoas. Sendo assim é o mais ineficiente, além de ser perigoso e poluente. Pense 2 vezes antes de ir de carro e antes de defender o uso indiscriminado do carro.

 

Link para o texto da Natália Garcia: http://cidadesparapessoas.com/2015/03/25/o-acerto-e-o-erro-da-acao-do-mpe-que-paralisou-as-obras-das-ciclovias-de-sao-paulo/

 

 

 



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Leticia Leticia Leda Sabino, 29 anos, é administra-
dora de empresas e idealizadora do SampaPé!. Depois de uma temporada na Cidade do México, percebeu que não só era possível viver sem carro, como somente se deslocando a pé podia experimentar realmente a cidade. Decidiu então partilhar sua descoberta, e criou o projeto de mobilidade urbana com foco no pedestre, para levar as pessoas a refletir sobre modos mais conscientes de locomoção.
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