Brasília não é óbvia quando percorrida a pé  – SampaPé
SampaPé

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Publicado por leticia no dia 05 de maio de 2020

“…Se eu dissesse que Brasília é bonita, veriam imediatamente que gostei da cidade. Mas se digo que Brasília é a imagem de minha insônia, vêem nisso uma acusação; mas a minha insônia não é bonita nem feia – minha insônia sou eu, é vivida, é o meu espanto…” (Clarice Lispector*)

No dia 21 de abril, Brasília fez 60 anos. O aniversário quase me escapou, mas em tempos de isolamento, lembrei-me das caminhadas que tive oportunidade de fazer por lá no ano passado e que me despertaram para o belo, o não belo, e também para o “não óbvio” da famosa cidade modernista. Dito isso, compartilho aqui o meu espanto ao percorrer a pé a cidade-máquina:

Clique ao caminhar por Brasília

Brasília é muito conhecida por seu eixo monumental, obras arquitetônicas de Niemeyer, suas rodovias urbanas e os poderes afastados da população. Ao partir dessa ideia, fui surpreendida positiva e negativamente quando caminhava pelo Plano Piloto, pois, além de tudo isso e de todo imaginário construído, há muitas coisas de Brasília que não são contadas, talvez porque pouco se percorra a pé.

Caminhar em Brasília 

Toda e todo urbanista, amante de cidades, pessoa interessada em práticas urbanas deve (re)conhecer Brasília a pé. Não devem fazê-lo com a ideia já formatada de que a cidade modernista sonhada por Le Corbusier* e realizada por Lúcio Costa não funciona. Sim, ela exclui, segrega e idolatra os carros. Porém, é preciso se propor a caminhar por ela de forma atenta, curiosa e sem preconceitos para entender o que oferece, além do óbvio. 

“Mas, é possível caminhar em Brasília?”, você pode estar se perguntando. Minha resposta é: em muitos lugares sim, totalmente, e ao fazê-lo só consegue pensar “por quê não há mais pessoas caminhando?”, enquanto em outros como, por exemplo, na árdua tarefa de atravessar os eixos e “vias” (que percorrem as asas de norte a sul) só com muita raiva da barreira que elas são e tendo que se expor a diversos riscos. No eixo monumental há momentos de felicidade com as mangueiras seguidas de muita indignação com as ideias Niemeyerianas sob o sol do cerrado. 

Calçada ampla mas sem nenhuma possibilidade de sombra ao lado de edifícios públicos desenhados por Niemeyer

Concluindo, sim, é possível caminhar, mas com ressalvas. Para deslocamentos do dia a dia,  para “casa-trabalho” ou “casa-estudo”, a setorização da cidade não permite e as dimensões e plano macro de rodovias dificultam bastante essa prática. O sentimento é que muita coisa precisa ser reconfigurada para que o caminhar possa ser incorporado e funcionar como deslocamento na cidade. Mas para explorar, conhecer, observar e acessar alguns serviços e comércio não só é possível como é convidativo.  

 

Decepções monumentais 

Caminhando, toda a “beleza” proposta por Niemeyer para a zona política da cidade é completamente anulada pelos imensos bolsões de estacionamento e ruas rápidas. Se por um lado, o arquiteto dizia que suas praças não tem árvores para manter a paisagem focada em suas obras (sem obstáculos visuais) o mesmo não acontece com o mar de carros que sempre estão ali para atrapalhar a vista, as fotos e o acesso.

Isso, diminui a grandeza das curvas, dos pilotis com formas, da suspensão dos prédios e espelhos d’água, que só de bem perto retomam seu valor e apreciação. Atualmente, há uma nova barreira na frente dos prédios que também atrapalha estética e conceitualmente as obras além do acesso, é o medo materializado em grades. Os prédios dos três poderes magistralmente pensados para terem acesso por rampas pelo “povo” agora estão bloqueados por essas estruturas, o que faz parecer que o “povo”, que pouco passa por ali, é a ameaça e não quem está cercado dentro dos edifícios. 

 

Superquadras surpreendentemente caminháveis

Enquanto isso, a caminhada pelas superquadras surpreende pelas possibilidades, dinâmicas e diversidade. As superquadras propostas pelo plano piloto são quadras quadradas de 280×280 metros com aproximadamente 11 edifícios com pilotis livres no térreo e 6 andares residenciais que juntos “protegem” o meio de quadra que é a área comum a todos com verde e outros equipamentos escolhidos por quem mora como parquinho, quadras, bancos para sentar entre outros. A realidade é muito mais diversa que isso, variam a quantidade de prédios, os tamanhos, os térreos e a área comum. O que é comum a maioria é contar com caminho a pé no entorno com bastante verde, ter permeabilidade no meio das quadras – o que significa que pode circular a pé por dentro das quadras e não apenas contornando – e ter ruas comerciais nas entrequadras a cada duas superquadras – de forma intercalada.

Conhecida por setorizar tudo, a cidade tem zona de hotel, zona de farmácia, zona de shopping, mas essas entrequadras comerciais são a oposição a isso e o convite ao acesso a pé. Essa disposição faz com que os prédios residenciais  das superquadras tenham acesso a 3 destas ruas em até aproximadamente 500 metros a pé, o que representa em média 7 min caminhando. 

Para chegar nessas ruas a partir das superquadras residenciais não é preciso dar a volta na quadra, há normalmente dois acessos no meio da linha de edifício que aumentam a permeabilidade. Estes acesso são pequenos corredores de comércio, e alguns mantém a continuidade para a faixa de pedestres e a área comercial do outro lado da rua, quando isso acontece a via com veículos motorizadas é sentida como intrusa. 

Rua de pedestres de acesso entre as ruas comerciais das entrequadras e os miolos residenciais das superquadras com faixa de pedestres na linha contínua

Algumas ideias de caminhabilidade

Nesse sentido, vale a pena destacar alguns conceitos e definições de caminhabilidade. Em um dos livros atuais (de 2013) mais difundidos sobre o tema – Cidade Caminhável do estadunidense Jeff Speck – destaca-se que os quatro elementos essenciais de avaliação da caminhabilidade são: utilidade – no sentido de ter equipamentos, comércio e outras facilidades possíveis de acessar a distâncias a pé; segurança – que haja a garantia de caminhar sem risco de quedas, atropelamentos e até mesmo assaltos e assédio; conforto – que os caminhos tenham espaços de parada, de sombra, entre outros elementos que garantem uma experiência cômoda; e interesse – que o trajeto proporcione às pessoas o que ver, interagir e se conectar.

Vinte anos antes, em 1993, quando o termo foi usado pelo canadense Chris Bradshaw, considerado uma das apresentações pioneiras sobre o conceito e medida, as quatro características básicas para definir caminhabilidade formuladas por ele foram: ambiente construído com características boas para caminhar – incluindo qualidade das calçadas, da iluminação, dimensão das ruas e não ter obstruções; acesso a atividades úteis a distância caminhável – equipamentos, comércios e facilidades próximos que se possa acessar a pé; presença ambiente natural – no sentido da natureza regulando as características do espaço como vento, clima, ruídos, entre outros; e cultura local social e diversa – o que resulta em encontros e favorece o comércio local. 

Outro ponto importante da caminhabilidade é que ela pode ser avaliada e observada em diversas escalas: das ruas, dos bairros, das regiões e das cidades. Bairros caminháveis não necessariamente vão garantir caminhabilidade na escala da cidade, pois depende se a conexão e qualidade se mantém na escala mais ampla. Da mesma forma que ter algumas ruas caminháveis não garantem a caminhabilidade do bairro. Mas o inverso é impossível, não há bairros caminháveis se as ruas não forem caminháveis, e nem cidade caminháveis se os bairros não forem caminháveis, então a caminhabilidade necessariamente tem que ser feita a partir da escala das ruas tendo as dinâmicas das pessoas no centro dessa construção.

Caminhos a pé nas superquadras: muito verde pouca gente

Valendo-se das características apontadas pelos autores e da escala das superquadras é possível identificar alguns elementos de caminhabilidade. Como descrito, há equipamentos e comércios a distâncias para se acessar a pé, os caminhos são bastante seguros (do ponto de vista de segurança viária e pública), há conforto, tanto através de oportunidades de parar, sentar, quanto pela presença de ambiente natural, que ajuda a regular temperatura, ruído além de oportunidade de ver aves e árvores. Porém, dois elementos mencionados pelos autores não são evidentes na escala das superquadras. Esses são o interesse, ter o que ver se conectar e interagir no caminho e ter uma cultura local social e diversa que resulta em encontros. A ausência desses elementos se dá pois os caminhos podem ser muito estáticos, padronizados, sem identidade local, com excesso de espaços vazios, pouca diversidade socioeconômica e pouco movimento de pessoas nas ruas. Mas se centramos esse olhar na escala das ruas das entrequadras de comércio local e em períodos com mais dinâmica, a noite, isso pode mudar.  

 

Usos e permanência 

Os edifícios de comércio local nas entrequadras tem uma face para a rua onde passam veículos e outra face para as superquadras, ou seja, onde estão os trajeto de percorrer a pé e de bicicleta e com a paisagem de árvores e gramado. Essas duas faces leva a um uso diferente da maior parte das cidade, ao contrário das mesas nas calçadas, as mesas podem ser posicionadas para as  “praças”, fazendo melhor uso da face que dá para as quadras, pois proporcionam áreas externas e tranquilas para sentar e estar.

Mesas do bar  no espaço público do entorno, e sinalização da quadra

Os lotes situados nas esquinas tem área ainda mais ampliada, podendo ter uma extensão para a área verde das quadras que faz com que sejam uma mistura de espaço público e privado, misturando assim também os usos. Ou seja, em um mesmo espaço em que as pessoas estão desfrutando de uma música ao vivo e bebendo, passam crianças jogando bola, alguém passeando com seu cachorro, criando assim uma atmosfera única pela característica da cidade. 

Estas ruas comerciais tem farmácia, mercado, bar, restaurantes, lojas. Mas para além desse uso planejado, com funções e distribuições bem definidas, caminhando nas superquadras é possível ver também vários usos “espontâneos” fazendo uso do excesso de estacionamentos. E de espaço. Estes usos acontecem principalmente com trailers e tendas de comida. 

 

Outras zonas e quadras brasilienses caminháveis 

Saindo da dicotomia, lugar de morar e lugar de trabalhar, e da máxima Brasília é para carros, há outras formatações de quadras que surpreendem. Um dos exemplos que pelo uso misto são mais caminháveis são as quadras mistas, que permitem a convivência comercial e residenciais nos mesmos edifícios.  

Além disso, outra parte que pode surpreender quem chega com a imagem de Brasília percorrida de carro, são as quadras comerciais. Essas contam com conexão entre os prédios através de galeria extensa e contínua para fruição de pedestres, com faixas de pedestre em nível.

Além de haver a possibilidade de percorrer a pé contornando os prédios nas áreas externas. Ambas possibilidades reina a fachada ativa, o térreo dos prédios é composto pelos mais diversos comércios e serviços. A caminhada nesse espaços é “útil”, segura  – do ponto de vista de segurança viária e pública – e atraente. 

 

Informação de localização para quem está a pé

Se por um lado os nomes de Brasília são técnicos e de mapas sem fazer homenagem a nada e nem a ninguém por outro tem uma identidade própria de sinalização que indica a configuração dos prédios nas quadras e em que local no plano geral da cidade aquele local está. Além de outras que contam sobre a história dos locais e as indicativas que apontam para onde estão equipamentos e as entrequadras. 

Surpresas no meio do caminho que só quem caminha vê

Outro resultado da configuração da cidade é a presença de natureza nos caminhos, seja através das árvores como das diversas aves que vivem por lá, e que como o Chris Bradshaw ressalta, a presença de elementos naturais colaboram com a caminhabilidade no ambiente urbano. 

É preciso ver as belezas de Brasília para poder modificar a cidade com identidade, Brasília precisa ser caminhada e reinventada com as pessoas. Que seus próximos 60 anos seja um caminho ao caminhar!

 

 Le Corbusier (Charles-Edouard Jeanneret-GrisUrbanista) foi um urbanista franco-suíço que apresentou e escreveu a concepção de cidade que se chamava “Cidade Radiante” (original Ville Radieuse). Essa ideia pautou o urbanismo modernista das cidades-máquina e a Carta de Atenas de 1933 do urbanismo racionalista. Foi a base conceitual para o planejamento de Brasília.

 

Referências:
BRADSHAW, Chris. Creating – And Using – A Rating System For Neighborhood Walkability Towards An Agenda For “Local Heroes”. <https://www.cooperative-individualism.org/bradshaw-chris_creating-and-using-a-rating-system-for-neighborhood-walkability-1993.htm>
IPHAN DF. Superquadra de Brasília – preservando um lugar de viver.  < http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/cartilha_unidade_vizinhanc%CC%A7a_iphan_df.pdf>
LISPECTOR, CLARICE. Nos primeiros começos de Brasília, Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 20jun1970.
SABINO, Leticia. Melhorar a caminhabilidade garante oportunidades e acesso a serviços <https://www.cartacapital.com.br/blogs/sampape/melhorar-a-caminhabilidade-garante-oportunidades-e-acesso-a-servicos/>


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Leticia Leticia Sabino, caminhante, 30 anos, fundadora e diretora do SampaPé! - organização que atua desde 2012 por cidades mais caminháveis construídas junto com as pessoas - urbanista e administradora. Mestre em Planejamento de Cidades e Design Urbano pela UCL em Londres e Administradora de empresas pela FGV - EAESP - com pós graduação em Economia Criativa e Cidades Criativas - depois de uma temporada na Cidade do México e em Londres descobriu que para construir cidades justas e boas de se viver elas devem ser caminháveis! Idealizou e mobilizou a Paulista Aberta e tem também o projeto artístico sobre caminhar no Instagram @porondeandeisp .
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