Caminhar em Toronto: 6 soluções para cidades mais caminháveis que merecem ser destacadas – SampaPé
SampaPé

16
abril
Publicado por leticia no dia 16 de abril de 2020

Estive em Toronto em setembro de 2019 para participar da conferência “Design das Cidades 2019” (Designing Cities 2019) anualmente organizada pela NACTO (National Association of City Transportation Officials) –  a associação de funcionários de departamento de transporte das cidades da América do Norte. Além da própria programação, que incluiu walkshops – oficinas a pé -, percorri muitas partes da cidade caminhando e pedalando atenta às  soluções para tornar as cidades mais caminháveis. 

Muitas pessoas a pé no centro da cidade, mas ainda o maior espaço da via para circulação de veículos

Antes de apresentá-las é importante comentar sobre algumas pessoas e iniciativas que moldaram Toronto urbana. Entre 2010 e 2014 a cidade teve Rob Ford como prefeito, que tinha discurso principal “acabar com a guerra contra os carros”. Tal discurso culminou em ações como apagar ciclovias e não construir mais linhas de bonde “no meio das ruas”, ou seja, a cidade viveu um período de retrocesso agressivo e abrupto na mobilidade e desenvolvimento urbano.  

 

Na contramão do pensamento e do desenvolvimento global contemporâneo das cidades, ele defendeu e perpetuou a ideia ultrapassada do carro como prioridade – modelo já saturado especialmente pela poluição, pelos engarrafamentos e pelo impacto na saúde das pessoas. Essa política resultou em uma média de seis (6) pessoas atropeladas por dia na cidade, entre 2008 e 2012. Para efeito de comparação, em 2018, São Paulo teve uma média de oito (8) pessoas atropeladas por dia, porém com quatro vezes mais habitantes e mais viagens a pé que a cidade canadense. 

 

Por outro lado, é importante destacar que Toronto  também foi a cidade onde Jane Jacobs, ativista urbana e jornalista conhecida e reconhecida por liderar lutas por cidades construídas com e para as pessoas e defensora das dinâmicas de bairro nos centros urbanos, viveu 35 anos – de 1971 até 2006 quando faleceu. A sua atuação mais marcante na cidade, pela qual é celebrada, foi de ter um papel determinante para frear a transformação da Spadine Avenue,  uma das avenida estruturais da cidade, em uma via expressa que segregaria bairros e pessoas na zona central da cidade. 

 

Proposta para Spadina Avenue que a Jane Jacobs ajudou a conter e a avenida atual de fundo

 

Atualmente Toronto vive um momento de retomada do espaço viário com foco no coletivo e em formas mais sustentáveis de se deslocar e viver. Está implementando políticas públicas de transporte como foco nas pessoas, tendo como destaque o plano da Visão Zero*  iniciado em 2016 e redesenho e redistribuição viária da Kings Street. A transformação da Kings Street, uma das principais ruas de Toronto onde passa a linha de bonde de conecta os bairros a leste e oeste, começou de forma temporária e tática implementando parklets, e prioridade ao transporte público. 

 

Foi nesse contexto que caminhei em Toronto e registrei as iniciativas relatadas abaixo:   

1- Travessias com o mesmo material das calçadas

Uma das soluções mais interessantes são as faixas de pedestre com continuidade do material na calçada, que na maior parte da cidade é concreto. Essa solução faz com que visualmente a mensagem de continuidade do trajeto alcance tanto para quem está a pé como quem está nos outros veículos na rua, assim como, fisicamente cria um trajeto ininterrupto e acessível para as pessoas –  uma vez que a superfície é melhor do que quando há asfalto e pintura em cima. (Quando caminhamos com Secretário Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo no Sentindo nos Pés – min 4:59 -, ele mencionou sobre a pintura das faixa de pedestres como um obstáculo para quem é cadeirante pelo relevo, além de ser escorregadio principalmente em dias de chuva.). Essas soluções mudam a sensação e segurança do caminhar. 

2- Zonas seguras para idosos 

Chama atenção algumas placas na cidade anunciando “Seniors Safety Zone“. No início da estratégia de Visão Zero da cidade, algumas zonas prioritárias tiveram mudanças de velocidade e sinalização. Neste sentido, considerando a população e os dados de vítimas os locais que receberam este tratamento foram entornos escolares e zonas com muitos fluxo a pé de pessoas idosas, seja porque tem grande população idosa ou acessando porque tem algum serviço específico para essa faixa etária. Óbvio que toda a cidade deve ser amigável para crianças e idosos, mas este é um bom primeiro passo para mostrar que esses caminhantes precisam de cidades mais amigáveis para terem segurança nos seus deslocamentos e oportunidade de convivência nos espaços públicos. 

3- Mobiliário para fixar “Mensagens Públicas”

Caminhando nos bairros encontra-se um mobiliário diferente nas calçada: um painel com o título “Mensagens Públicas”. Este  mobiliário institucionaliza a importância da comunicação do bairro de forma espontânea, autônoma e aberta a todas as pessoas. As pessoas colocam anúncios de serviços, eventos, mobilizações, entre outras coisas. Em texto que fiz sobre caminhar no Equador essa mesma “facilidade” no espaço público já havia me chamado atenção. Imagine que legal ter essa plataforma de comunicação comunitária instalada pelo poder público nos nosso bairros. 

4 – Comunicação e transparência no nível da rua sobre mudanças na cidade 

Ao contrário do que estamos acostumados no Brasil, ao caminhar por Toronto é possível entender as obras que estão acontecendo, as propostas de mudança de prédios e até teste de materiais nas calçadas. Isso se dá através de algo muito simples: placas/posters na rua, na escala de quem está a pé para ter conhecimento. No caminho vi diversas placas que informam a proposta de construção para determinado terreno, nela tem o desenho do que está sendo proposto, o tamanho e quantidade de pisos, os usos e até mesmo a quantidade de vagas para carros e bicicletas e ainda as informações para acessar online, entrar em contato com o poder público, além de avisar que o anúncio de audiência pública será fixado naquele mesmo lugar. Outras eram detalhamentos de obras públicas, com fases, datas e valores, como por exemplo de uma praça. E inclusive vi uma sobre teste de materiais para piso tátil pedindo a opinião das pessoas que passavam para dar apoio à prefeitura em sua escolha. Isso muda a relação das pessoas com a cidade e a possibilidade de participação. 

5- Histórias e identidade em placas nas ruas  

Ainda sobre sinalização e placas chama a atenção o quanto se aprende da cidade a partir de textos no espaço público. Do ponto de vista de localização há uma solução bastante simples: as placas com o nome das ruas também têm identidade e nome do bairro onde está localizada. Isso, além de ajudar a localizar as pessoas, cria coesão e colabora com a identidade dos bairros. Com relação às histórias o departamento de patrimônio é bastante ativo na exposição de conhecimento da cidade, encontrei placas de diversos anos e tipos, desde as que diziam o que lá havia sido em construções anteriores, até pessoas que moraram em lugares e histórias de instituições da cidade, além de placas com mapas de caminhadas para descobrir a cidade. 

Foto: Time Out

6- Caminhos subterrâneos para caminhar no inverno 

Conheci a cidade no final do verão, o que não fez essa solução ser necessária, mas ainda assim vale ser ressaltada como adaptação a realidades e climas de cada local. Conhecido como Path, a cidade conta com rede subterrânea de acesso a pé principalmente no bairro financeiro da cidade, onde tem concentração de emprego e pessoas. As ruas e galerias subterrâneas são comerciais, com lojas, bancos e restaurantes. Quando faz -20 graus célsius é uma infraestrutura importante para dar a possibilidade circulação a pé no entorno do trabalho. Considerando as nossas cidades com climas muito quentes e úmidos deveria-se proporcionar sombra em todos os caminhos. 

Ver e vivenciar essas soluções foi muito importante para incorporar novas demandas, ideias e práticas por aqui. O que você achou dessas iniciativas e elementos de Toronto?

Claro que ainda tem muito o que resolver por lá, e preferi destacar as coisas boas. Sinalização como essa é um sintoma e um resquício de um passado recente de retrocesso que precisa ainda ser enfrentado de forma ampla e integrada. Mas o primeiro passo para mudança é implementar políticas públicas estratégicas para reverter a realidade sempre co-construídas com a cidadania. 

 

* Visão Zero (vision zero) é o nome de estratégia de segurança viária criada na Suécia que como princípio assume que nenhuma morte no trânsito é aceitável e cria estratégias de políticas, desenho viário, velocidades para se chegar nesse ideal.

Referências:

Toronto Life. The walking dead. 23/08/2019. Disponível em <https://torontolife.com/city/six-people-are-hit-by-a-car-each-day-in-toronto-we-know-how-to-fix-it-so-why-dont-we/>

CET SP. Relatório anual de acidentes de trânsito – 2018. Disponível em <http://www.cetsp.com.br/media/866316/relatorio-anual-2018-versao-28-05.pdf>

Toronto Complete Streets Guidelines. Street Design for Pedestrians: Sidewalk Design Principles.

Disponível em <https://www.toronto.ca/wp-content/uploads/2017/11/98b5-Chapter-4.pdf>



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Leticia Leticia Sabino, caminhante, 31 anos, fundadora e diretora do SampaPé! - organização que atua desde 2012 por cidades mais caminháveis construídas junto com as pessoas - urbanista e administradora. Mestre em Planejamento de Cidades e Design Urbano pela UCL em Londres e Administradora de empresas pela FGV - EAESP - com pós graduação em Economia Criativa e Cidades Criativas - depois de uma temporada na Cidade do México e em Londres descobriu que para construir cidades justas e boas de se viver elas devem ser caminháveis! Idealizou e mobilizou a Paulista Aberta e tem também o projeto artístico sobre caminhar no Instagram @porondeandeisp .
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