Pé de Igualdade

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January
Publicado por admin no dia 11 de January de 2018

No final de 2017 passamos doze dias em Nova York pegando carona na estadia da querida Mila Guedes, do blog Milalá. Ficamos no miolo da grande maçã, ou ilha de Manhattan, em pleno coração da cidade e pudemos fazer um “test-drive by foot” nas transformações dos espaços públicos na cidade sob a batuta da fabulosa Janette Sadik-Khan, secretária de transportes responsável pelo processo.

 

Acho que todos conhecem a história: esta secretária de transportes (New York City’s comimissioner) com a visão de cidade para as pessoas e com o total apoio do então prefeito Michel Bloomberg provocou uma verdadeira revolução nos espaços públicos de mobilidade entre 2007 e 2013. Pistas foram suprimidas ao tráfego motorizado para serem utilizadas por pedestres e ciclistas, por meio de intervenções urbanas implantadas a baixo custo e em pouco tempo. E muitas delas já foram consolidadas com obras definitivas.

Para quem quiser conhecer com detalhes o processo e replicá-lo em outras cidades recomendo a leitura do “Street Fight – Habdbook for a Urban Revolution” escrito por Janette e Seth Solomonow.

 

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Times Square, o coração da cidade – dos automóveis para as pessoas: símbolo da transformação Fotos: Meli Malatesta

Conferimos os tempos de travessia de pedestres (em relação aos quais a CET de São Paulo diz que se inspirou para programar os seus) e o respeito dos motoristas em relação a eles. Caminhamos por vários quilômetros de calçadas, checamos as guias rebaixadas de acesso, bancos e outros elementos de mobiliário urbano, arborização, sinalização informativa e espaços de convivência. E também, é claro, os sistemas de transporte público coletivo, no caso o ônibus, porque Mila é cadeirante e o metrô novaiorquino não tem acessibilidade.

 

Semáforos e como São Paulo copiou o modelo

Em Nova York o pedestre é rei. Avaliamos que os motoristas de Nova York devem ter recebido muitas multas e outras punições para aprender a respeitar os semáforos de pedestres, porque essa regra básica da civilização é religiosamente acatada por lá.
Quando o sinal fecha para veículos de uma via e abre para os veículos da via transversal, também abre para os pedestres (bonequinho verde). E pasmem: os pedestres começam imediatamente a atravessar porque nenhum veículo “fura” o tempo de travessia. Até os veículos que vão fazer a conversão não se movem enquanto houver pedestre atravessando, mesmo que seja um ônibus articulado, caminhão, carro de valores, polícia, e mesmo que se forme uma enorme fila de veículos esperando para virar. Só depois deste tempo de travessia tranquila e segura é que entra o vermelho piscante para indicar que não há mais tempo para iniciar a travessia. E aí vem o vermelho para o pedestre esperar. Em alguns locais, mais críticos, há temporizadores que indicam o tempo restante.

 

Meli2Ônibus aguardando o término da travessia dos pedestres para  fazer conversão. O tempo de verde da via transversal coincide com o tempo de travessia de pedestres mas os motoristas respeitam a prioridade do pedestre

 

Como vocês podem ver os semáforos dos pedestres de São Paulo que, teoricamente são inspirados nos de lá, omitem o mais importante que é a permanência do tempo verde para os pedestres com o do verde na via transversal. Na versão tupiniquim, “paulistana tropicalizada”, a programação dos semáforos concede míseros 4 segundos de verde para em seguida entrar o irritante vermelho piscante. Os pedestres que corram! Ainda temos muito a evoluir por aqui.

 

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Focos de pedestres de NYC: verde e com temporizador que informa o tempo restante de travessia

Caminhar pelas calçadas de Nova York é uma maravilha. Pode-se libertar o olhar para se embevecer com os lugares emblemáticos da cidade sem correr o risco de tropeçar em algum buraco ou irregularidade. As calçadas são generosas, bem pavimentadas na sua maioria, sem degraus de saídas de garagens. Há sim alguma imperfeiçãozinha aqui e ali, mas dá até para contar nos dedos.

 

Meli5Calçadas de Nova York: largas e regulares com raras e mínimas imperfeições como esta na junção das placas de revestimento

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Rebaixamentos de calçada para acessibilidade não estão situados na continuidade das faixas de travessia mas sim no meio delas para servir a mais de uma ao mesmo tempo. O da esquerda tem piso tátil de alerta mas sem cor contrastante

Não vi piso tátil direcional e também pouco piso tátil de alerta. Mas isto não parece fazer falta porque presenciei muito deficiente visual se deslocando com relativa facilidade sem eles. As rampas de acessibilidade são colocadas em diagonal, para atender aos dois sentidos de travessia. Parece ser uma medida de economia.

 

Mobiliário Urbano

O mobiliário urbano é bem resolvido, com soluções totalmente compatibilizadas à função e ao respeito à mobilidade a pé. Fiquei particularmente impressionada com a modulação das bancas de jornais/comércio de rua, com dimensionamento adequado à largura da faixa de serviço, o espaço da calçada destinado a abrigar sinalização e mobiliário urbano. Da mesma forma  são resolvidos os pontos de wifi/internet, que substituíram os telefones públicos. Bonitos e práticos.

 

Meli8Banca de jornal/comércio de rua : dimensões respeitam o fluxo a pé e pontos de wifi e internet que substituíram os telefones públicos

 

Arborização

O miolo de Manhattan é ocupado pelo Central Park, que proporciona uma boa qualidade e quantidade de verde ao ambiente urbano da cidade. Fora isso, algumas ruas são arborizadas com espécies que não provocam rachaduras nas calçadas por suas raízes. Por falar em raízes, as bases das árvores são bem resolvidas com protetores em metal ou então simpáticos canteiros plantados com espécies aparentemente comestíveis. Será?

  

 

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Base de árvore em metal vazado amplia a área de caminhada da calçada e espécies utilizadas para revestimento de canteiro que parecem ser comestíveis
 

Áreas de convivência ou pocket-parks

Uma das coisas que mais gosto é poder contar com um espaço para descanso em meu  caminho. Nova York tem vários espaços que dão acesso a um ou mais edifícios e que poderiam estar cercados com acesso restrito, mas são tratados como área de convivência, aberta a todos. 

 

 

Meli10Áreas públicas de convivência ou pocket-parks: acessíveis e com wifi

 

Sinalização para pedestres

Uma das coisas que ficaram mais bem resolvidas por lá é a sinalização informativa de pedestres. Ela atende aos princípios da mobilidade a pé no tipo de informação prestada e na forma como é prestada, ao contrário de muitas soluções que a gente vê por aí e que obedecem à lógica da sinalização veicular em escala reduzida, como se pedestres fossem minicarros!

É constituída por tótens com mapas da região de abrangência que pode ser percorrida a pé e a referência do local onde está sendo consultado. Além disso, tem informações sobre as redes de transporte coletivo que estão situadas por ali.  

 

 

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Sinalização informativa para pedestres em totem concentra as informações mais importantes na escala da Mobilidade a Pé

 

 

 Transporte Coletivo

Praticamente só utilizamos ônibus. São ótimos, fáceis para subir e descer porque um sistema hidráulico rebaixa seu piso. Também tem rampa para cadeirante, acionada pelo motorista bem treinado para isso.

Todos pagam tarifa, inclusive idosos e pessoas com deficiência. Aliás, os ônibus são muito utilizados pelo pessoal mais velho que se desencoraja com as escadarias das estações do metrô. Vi muitos idosos reclamando delas.

O único problema são os crônicos congestionamentos do trânsito motorizado que impactam na lentidão do deslocamento e na longa duração das viagens por ônibus. Até existem faixas exclusivas para os coletivos,  mas a fiscalização para o seu respeito não é a prioridade porque a grande maioria das viagens é feita mesmo pelo metrô. Vi até caminhão fazendo carga/descarga em fila dupla na faixa exclusiva.

Os pontos de ônibus com abrigo possuem um sistema de informação sobre o itinerário das linhas que ali passam. As paradas mais simples, que não têm abrigo, também contam com informações sobre os ônibus que passam ali e seus itinerários. Há algumas paradas onde consta até informações sobre o tempo de chegada dos ônibus que se aproximam.

Meli12Abrigo de ônibus estiloso em aço escovado e vidro. Informações sobre as linhas de ônibus e seus itinerários estão nas colunas do abrigo. A publicidade é que mantém o abrigo. Outros pontos mais simples também contam com um pequeno painel com informação

 

Doze dias de mordida é pouco…

Os doze dias que passei por lá não foram suficientes para devorar toda a maçã. É necessário retornar, decifrar e utilizar a intrincada rede de metrô. Acostumar com mais de uma linha parando na mesma plataforma, saber quais estações fecham para manutenção aos finais de semana e onde o aviso de acessibilidade universal constante do mapinha da rede não fica localizado exatamente onde se quer desembarcar.

E há também as outras formas de transporte, as barcas, afinal temos o restante da cidade, que não é o da maçã, para ser explorado.

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A gente fazendo o que mais gosta – ver mapa e tirar foto de rua 
Fotos: Mila Guedes



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Pe-de-igualdade Meli Malatesta (Maria Ermelina Brosch Malatesta), arquiteta e urbanista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e com mestrado e doutorado pela FAU USP. Com 35 anos de serviços prestados à CET – Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo, sua atividade profissional foi totalmente dedicada à mobilidade não motorizada, a pé e de bicicleta. Atualmente, ministra palestras e cursos de especialização em Mobilidade Não Motorizada além de atuar como consultora em políticas, planos e projetos voltados a pedestres e ciclistas.
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