Pé de Igualdade

19
June
Publicado por admin no dia 19 de June de 2018

Há muitos anos assisti a uma palestra de um psicólogo que apresentou o conceito de “Desculpa Perfeita” como um recurso utilizado para postergar ou deixar de fazer o que não julgamos importante. Ela é o motivo que encontramos para justificar uma escolha, uma decisão. Muitas vezes pode até ser decorrente de uma circunstância. Em outras livre. Mas sempre é um produto da nossa vontade.

 

De início resisti em aceitar. Como assim “desculpa perfeita”? Muitas vezes somos obrigados a abrir mão de uma coisa por outra, deixamos de comparecer a um compromisso porque temos outro, optamos em gastar dinheiro numa coisa e não em outra. Obviamente que somos movidos por “necessidades circunstanciais” eleitas como prioritárias. Ou seja, nossas opções são sempre baseadas no que decidimos como importante naquele momento. Tratam-se de escolhas.

 

O conceito está aí, é muito simples, trivial e praticado no nosso dia a dia. Define todas as nossas tomadas de decisão: desde as pessoais até como gestores públicos; legisladores, por exemplo, decidem como será gasto o dinheiro dos impostos. É aí onde quero chegar.

 

Temos uma desculpa perfeita para justificar calçadas de tão baixa qualidade, fora de padrão, esburacadas e invadidas por toda sorte de irregularidades. É porque são construídas e mantidas por proprietários dos lotes contíguos e fiscalizadas pelas prefeituras.  A lei assim determina na grande maioria das cidades brasileiras.

 

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Cada um faz o que quer na calçada em frente ao seu lote Foto: Associação Cidadeapé

 

 

 


E por que é assim? Lá vem a desculpa perfeita: prefeituras não tem dinheiro, gente e estrutura suficiente para se responsabilizarem pela construção e manutenção de calçadas.  Nem mesmo para fiscalizá-las como determina a legislação.

 

Entretanto quando se trata da pista veicular há dinheiro, gente e estrutura para cuidar dela inteiramente.

 

O dinheiro sai dos impostos. Qual é a desculpa perfeita para se ter dinheiro público para isso então? É porque não é admissível gerir pistas da mesma forma que calçadas. Já pensou como seria circular de carro numa pista com o mesmo modelo de gestão de calçada, onde cada proprietário de lote construiria e pavimentaria a pista na frente de seu lote sem a devida fiscalização da prefeitura?

 

meli2Como seriam as ruas se cada um fosse o responsável por pavimentar a pista na frente de seu lote? Foto: Viva São Lourenço

 

 

Acho que agora ficou bem claro para todos o que é “desculpa perfeita”. Essa tal de “desculpa perfeita” é “vontade política”, aquele critério de importância que habita mentes de nossos tomadores de decisão, legisladores, formadores de opinião, até mesmo da sociedade de forma geral.

 

E assim se escolhe privilegiar determinado tipo de mobilidade urbana e sua infraestrutura, determinado segmento social em detrimento de outro. Privilegia o que usa o veículo em detrimento do que caminha. Se ainda a escolha deste privilégio corresponder à maioria de cidadãos até se justifica democraticamente.  Mas quando é dirigida a uma minoria, só uma coisa explica: a tal “desculpa perfeita”. Neste caso, uma  “desculpa esfarrapada”…

 



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Pe-de-igualdade Meli Malatesta (Maria Ermelina Brosch Malatesta), arquiteta e urbanista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e com mestrado e doutorado pela FAU USP. Com 35 anos de serviços prestados à CET – Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo, sua atividade profissional foi totalmente dedicada à mobilidade não motorizada, a pé e de bicicleta. Atualmente, ministra palestras e cursos de especialização em Mobilidade Não Motorizada além de atuar como consultora em políticas, planos e projetos voltados a pedestres e ciclistas.
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