Pé de Igualdade

25
August
Publicado por admin no dia 25 de August de 2014

Sou totalmente a favor das mudanças pelas quais a cidade de São Paulo vem passando nestes últimos meses.

 

A começar pela priorização dada ao transporte coletivo através das polêmicas faixas exclusivas de ônibus. Elas podem até não estar nos padrões considerados ideais pelos entendidos no assunto. Mas, como usuária, garanto que a vida de quem precisa do transporte público coletivo melhorou, e muito. Enquanto se espera pela expansão dos sistemas de transporte de alta capacidade como trem, metrô, monotrilho, que estão em andamento, vamos de busão pela faixa exclusiva.

 

A segunda mudança dá uma bela mexida dos hábitos de mobilidade com a instalação, a toque de caixa, de uma considerável rede cicloviária composta por ciclovias ciclofaixas que ocupam espaço na via onde anteriormente automóveis circulavam quando o trânsito deixava, ou então permaneciam estacionados. Tudo isso para proporcionar mais uma opção de mobilidade, única ou integrada às redes de transporte coletivo.

 

Aí vale a pena dar um alô: Metrô, cadê os bicicletários? CPTM, EMTU, SPTrans, vamos fazer mais bicicletários nos terminais e estações, além de ampliar os existentes, pois muitos já lotam nas primeiras horas da manhã?

 

Agora, o que continua esquecidinho num canto qualquer, ou avaliam não haver o que mudar, são os espaços da cidade por onde as pessoas caminham. A começar pelas calçadas: abandonadas, elas são construídas e mantidas, por lei (Lei Municipal 10.508/88 e 15.442/12), do jeito que seus responsáveis legais, os proprietários dos imóveis lindeiros, bem entendem.

 

Pior, entendem que a área das calçadas lhes pertence e dela podem se utilizar como bem quiserem, até mesmo para solucionar e acomodar problemas de acesso a seus lotes que deveriam, por lei, ficar no interior dos mesmos. O pior é que esta lei os leva a deduzirem que o espaço da via na frente de suas propriedades lhes pertence, e que nele devem passar ou permanecerem somente pessoas eles autorizadas!

 

Foto 1 – Exemplo de situação de acesso aos lotes solucionada iregularmente, sobreo espaço público da calçada, gerando uma escadaria;
Foto da autora – 2014

Foto 2 – Exemplo de situação de acesso aos lotes solucionada regularmente no próprio espaço interno dos lotes respeitando a área pública da calçada – sem escadaria.
Foto da autora – 2014

 

 

Aí dá no que dá: calçada com degraus e interrupções que solucionam e acomodam o acesso veicular e mesmo a pé aos lotes, mas dificultam e até inviabilizam a caminhada; colocação de jardineiras, cancelas, abrigos, bancos e uma infinidade de outros “cacarecos” no espaço reservado à caminhada. Isso para não falar do tipo de piso, escolhido mais para “ornar” com a casa do que oferecer conforto e segurança ao pedestre, quando não se usa, como diz a Letícia Sabino do Sampapé, sobras do piso do banheiro ou da cozinha, que além de serem pouco resistentes, são escorregadios…E o que não dizer das bancas de jornais e outros tipos de mobiliário urbano que parecem sempre estar onde mais atrapalham os fluxos a pé?

 

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Foto 3 Sobrou piso da cozinha, do banheiro, do terraço? Vai para a calçada!
Foto do Google Images – Rio Grande, uma cidade plana

 

Foto 4 – Banca de jornal na Av. Domingos de Moraes perto da Estação Sta. Cruz ocupa boa parte da calçada, insuficiente para acomodar os fluxos a pé. Foto da autora - 2014

Foto 4 – Banca de jornal na Av. Domingos de Moraes perto da Estação Sta. Cruz ocupa boa parte da calçada, insuficiente para acomodar os fluxos a pé.
Foto da autora – 2014

 

E para atravessar as nossas ruas e avenidas então?! Tem muito cruzamento sem sinalização e, quando ela existe, exige paciência infinita para conseguir esperar o momento destinado à travessia nos locais onde há semáforo – e olhe que não é a maioria; e agilidade atlética suficiente para conseguir chegar ao outro lado da rua no curtíssimo espaço de tempo dedicado à travessia, quando o bonequinho fica verde, afinal a sinalização fala que é para atravessar só no verde…

 

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Fotos 5 e 6 – Esquinas paulistanas não sinalizadas com faixas de travessia de pedestres: como é que faz para atravessar e continuar a caminhada?
Fotos da autora – 2014

 

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Fotos 5 e 6 – Esquinas paulistanas não sinalizadas com faixas de travessia de pedestres: como é que faz para atravessar e continuar a caminhada?
Fotos da autora – 2014

 

 

Então, o jeito é a gente se virar como pode e quando necessário correr o risco de caminhar na pista dos veículos, que sempre é regular e espaçosa. Agora tem esta novidade de ciclovias e ciclofaixas novinhas , bem pavimentadas e caprichadas boas para caminhar também… E depois dizem que “pedestre não tem jeito, todos são indisciplinados e mal educados”.

 

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Foto 7 – Situação de invasão da pista ciclável por pedestres já acontece em Sorocaba e pode ocorrer aqui também.
Foto Google – Cruzeiro do Sul / Sorocaba

 

E aí, Prefeitura de São Paulo, que tal dar mais uma “turbinada” nesta sensacional revolução na mobilidade paulistana e começar a qualificar calçadas, travessias e demais componentes da infraestrutura da mobilidade a pé, tratando-as realmente como rede de mobilidade? Já pensou quantas viagens de até 2 km, que dá uns 20 minutos de caminhada, poderão ser realizadas a pé? Os sistemas de transporte agradecem, mas pode ser que os donos de academias de ginástica não…



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Pe-de-igualdade Meli Malatesta (Maria Ermelina Brosch Malatesta), arquiteta e urbanista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e com mestrado e doutorado pela FAU USP. Com 35 anos de serviços prestados à CET – Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo, sua atividade profissional foi totalmente dedicada à mobilidade não motorizada, a pé e de bicicleta. Atualmente, ministra palestras e cursos de especialização em Mobilidade Não Motorizada além de atuar como consultora em políticas, planos e projetos voltados a pedestres e ciclistas.
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