Palmas (TO) tem boas calçadas... mas só no Centro

Capital faz benfeitorias na área central, exceto nos vazios urbanos interpostos ao caminho do pedestre. Em bairros distantes, poder público é ausente, afirma pesquisador

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Fonte: Mobilize Brasil  |  Autor: Regina Rocha/ Mobilize  |  Postado em: 03 de abril de 2019

Escola Jorge Amado, na periferia de Palmas: sem ca

Escola Jorge Amado, em bairro distante: sem calçadas

créditos: Campanha Calçadas do Brasil 2019

Cidade planejada, concebida a partir de concurso urbanístico realizado há trinta anos, Palmas (TO) seguiu a risca o modelo de Brasília. Assim como a capital federal, a cidade tem seu "plano piloto" - no caso, a Praça dos Girassóis, na área central, com boa infraestrutura e onde se concentra a maioria dos órgãos públicos: a sede da Prefeitura, os prédios do INSS, do Ministério Público, além de escolas e hospitais. No entanto, tal como no DF, é nos bairros afastados que são mais evidentes os problemas sociais e de planejamento urbano.   

 

Foi para Palmas que se dirigiram dois engenheiros civis, pesquisadores de uma cidade vizinha, Imperatriz, no Maranhão, dispostos a organizar um grupo de estudantes e fazer as avaliações da Campanha Calçadas do Brasil 2019. "Soubemos da campanha do Mobilize e queríamos muito participar, mas as ações por ora estão dirigidas às capitais; então, como somos destemidos, assumimos o desafio de ir para a capital do Tocantins, não tão distante da nossa cidade", conta Ivo Almeida Costa, que é mestre em Transportes pela UnB e professor no campus Imperatriz da Universidade Ceuma. Ao lado de sua orientanda, a engenheira civil recém-formada Lorrana Lys Neves Forte, ele coordena a iniciativa na capital tocantinense. 

 

Ivo Costa e Lorrana Forte, coordenadores da campanha de calçadas em Palmas. Foto: Arquivo

 

Ambos receberam o apoio da instituição de ensino superior Ceuma, e em Palmas foram acolhidos pela filial, a Faculdade Cesup, onde organizaram um grupo de 18 alunos de engenharia e arquitetura que, além de apresentarem aos dois a cidade, saíram às ruas para fazer os levantamentos. 

 

Vazios urbanos

No trabalho de campo, os avaliadores logo depararam com uma característica peculiar de Palmas: a falta de conectividade de suas calçadas, mesmo na região central. Como explica Ivo Costa, o problema se deve aos "vácuos" construtivos formados entre as áreas edificadas da cidade e os lotes ainda não comercializados pelo poder público, que permanecem vazios, muitas vezes por grandes extensões de chão batido, já que não foram ocupados pela iniciativa privada, nem recebem benfeitorias da prefeitura. 

 

"Palmas não é uma cidade completa, consolidada. Um caso que ilustra bem o problema é que em nossas caminhadas não encontramos nenhum cadeirante! Só posso crer que isso é devido ao medo dessas pessoas de sair de casa e ter de passar pelo constrangimento de fazer um trajeto onde a calçada desaparece de repente e os obriga a se arriscar pela rua", analisa o pesquisador. Falta padronização, diz ele, as rampas de acessibilidade não seguem um modelo e há raras faixas de pedestre - estas, quando existem, muitas vezes são sem continuidade no outro lado da via.  

 

Discrepância centro/bairro
Apesar desses problemas - que segundo Ivo Costa podem ser explicados por um processo ainda não concluído de desenvolvimento urbano da capital tocantinense - o levantamento da Campanha revelou uma Palmas com boa caminhabilidade; ao menos se comparada a tantas outras cidades brasileiras, conclui o pesquisador. "É uma cidade muito quente, mas bem servida de vias arborizadas por exemplo", conta Lorrana. 

 

Segundo ela, as avaliações da Campanha já foram concluídas na cidade e a tabulação começou a ser feita no último final da semana. Os dados reforçam a ideia de uma boa caminhabilidade: algumas notas giraram em torno de 5,5 e 6, e a média deve se aproximar de 7. Mas, vale lembrar, como foi dito no início a maioria das calçadas avaliadas estão localizadas no centro, onde ficam os prédios da administração.             

 

"Ao fazer o planejamento da pesquisa, seguindo o critério de olhar para os prédios públicos, visitamos principalmente áreas centrais onde eles se concentram. Mas logo vimos que era uma amostra limitada da cidade, pois deixava de fora outra realidade, a dos bairros de onde vêm a maioria dos trabalhadores que se desloca de transporte público para o centro; bairros carentes de infraestrutura e sem acessibilidade", ressalta o professor Ivo. 

 

Para balizar o resultado final, e equilibrar as avaliações, a pesquisa optou por ampliar sua amostragem para um bairro distante, fora do "plano piloto". Foram visitados, entre outros pontos, uma escola e uma sede da Secretaria Municipal de Saúde. "Embora fosse uma escola nova, não uma construção que tenha se deteriorado com o tempo, o prédio não tinha acessibilidade alguma. Nas fotos, mostramos por exemplo como o contorno não tem calçada, mas um canteiro descuidado, com mato altoe trechos na terra. A nota foi bem baixa, assim como a da Secretaria, que recebeu 1,1". 

 

A incursão à periferia possibilitou aos pesquisadores não mascarar os resultados da pesquisa, ao criar um peso para baixo que aproximou a média da cidade de sua condição real, explicou o pesquisador. 

  

 Faixa de pedestres em meio a trecho sem rampa ou calçada. Foto: Divulgação  

 

"A conclusão é que não há nenhuma preocupação do poder público em Palmas de promover áreas mais afastadas do centro. O planejamento urbano foi feito assim mesmo, voltado para o centro, 'cartão postal' da cidade".

 

O coordenador da Campanha em Palmas conclui: "Quando penso na questão social envolvida na falta da acessibilidade, que afeta sobretudo os idosos - como meus pais - lembro que essas falhas provocam acidentes graves, que por sua vez geram custos irreparáveis à economia do Brasil... Entendo então melhor a importância de participar desta ação de âmbito nacional que faz a sociedade voltar um olhar mais atento às calçadas, à caminhabilidade". 

 

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