Neste artigo que abre sua colaboração ao Coletivo da Mobilidade, a combativa arquiteta e urbanista Meli Malatesta vai direto ao ponto e questiona conceitualmente o projeto da prefeitura paulistana de criar uma "Times Square" na famosa esquina da cidade, a São João com Ipiranga. A ideia seria criar ali uma ampla área para pedestres, pergunta a urbanista? Longe disso, esclarece.
"Tem muita gente que delira achando que São Paulo é Nova York. Embarcando nessa onda surge a novidade de uma "Times Square paulistana" na esquina mais icônica da cidade – o cruzamento das avenidas Ipiranga e São João - proposta já aprovada vergonhosamente pelo Conselho Municipal que cuida da paisagem, o Conpresp.

Bar Brahma, na esquina da São João com Ipiranga Foto: Danilo Rocha
Fiquei até animada com a ideia, achando que o local viraria um calçadão, que iriam aplicar primeiro um tratamento de Urbanismo Tático para testar o impacto da transformação numa área pedestrianizada. Isso mesmo, porque o Times Square legítimo atualmente é um calçadão consolidado, que antes recebeu intervenção de pintura no chão, mesinhas e cadeiras de bar e vasos de plantas para completar a delimitação da área exclusiva para pedestres.
Já pensou não precisar mais ficar olhando para o chão das calçadas esburacadas e muito menos passar pelo estresse de conseguir atravessar correndo a Ipiranga e São João no pouco tempo que os semáforos oferecem? Poder finalmente olhar para os lados e para cima, e curtir um pouco de fachada que sobrasse atrás de painéis luminosos que infestariam o local? Mas não.
O tal Times Square paulistano só teria a parte dos exagerados painéis luminosos de propaganda. Sairia fora do projeto a parte do calçadão e do desfrute do espaço público, continuando assim as péssimas calçadas e travessias corridas. E ai de quem se atrever a levantar o olhar para esses painéis. Vai correr o risco de ralar os joelhos no chão ou ser atropelado na travessia. Será que os motoristas de carro, ônibus e até moto que passam no local também não se arriscam a se distrairem e causarem acidentes? E nem precisa esperar para ver, porque a CET já alertou que isso vai comprometer a visibilidade dos semáforos e do restante da sinalização.
E assim vamos vendo no que se transforma uma cidade limpa* numa cidade brega, onde inventam moda para matar os que nela circulam.

Já pensou atravessar a via com calma, sem estresse? Foto: Danilo Rocha
E fique atento: Nesta quinta-feira (26), o projeto do boulevard paulistano será discutido em audiência pública na Câmara Municipal de São Paulo."
*Lei Cidade Limpa, que desde 2007 ordena a paisagem na capital paulista, proíbe outdoors e restringe publicidade que traga poluição visual urbana
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Maria Ermelina Brosch Malatesta é arquiteta e urbanista formada pela FAU Mackenzie. É mestra e doutora em Mobilidade Urbana Ativa pela FAU USP. Trabalha como consultora em políticas públicas, planos diretores de mobilidade e projetos de sistema viário e espaço público para a mobilidade urbana ativa, a pé e por bicicleta. É autora dos livros Pé de Igualdade e A Rede da Mobilidade a Pé. |