📝 Coletivo da Mobilidade

Rumo a 2035: avanços redesenham a mobilidade no Brasil

Cidades no Brasil já colhem resultados da Política Nacional de Mobilidade Urbana. Mais virá, com adesão ao plano da ONU Década do Transporte Sustentável, mas há desafios

Por Suzana Nogueira
Mobilidade para pedestres, o desafio maior nas cid

Mobilidade para pedestres, o desafio maior nas cidades | créditos: Daniel Hunter/WRI Brasil

Nos últimos dez anos, as cidades brasileiras deram início à transformação de seus padrões de mobilidade urbana. No centro do debate estão dois pilares que prometem redesenhar o ir e vir dos cidadãos: a colocação em prática da Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU, Lei 12.587/2012) e o lançamento oficial do Plano de Implementação da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Década do Transporte Sustentável (2026-2035).

 

Avanços da PNMU
Após mais de uma década de sua sanção, a Política Nacional de Mobilidade Urbana começa a trazer bons resultados.

 

Dos municípios com população superior a 250 mil habitantes, 70% estão com seus planos de mobilidade aprovados pelo Ministério das Cidades, e alguns são referência na elaboração do Plano e na concretização de soluções que promovam a mobilidade sustentável.

 

Desde a promulgação da Lei, nos municípios com população superior a 60 mil habitantes, foram implantados cerca de 1.200 km de infraestrutura para sistemas de transporte coletivo de média e alta capacidade (corredores de ônibus, metrôs e trens).

 

Além disso, temas como a descarbonização do transporte têm sido estratégicos frente às mudanças climáticas. A cidade do Rio de Janeiro e a região metropolitana de Belo Horizonte são referências no investimento em infraestruturas de circulação e integração modal do transporte coletivo, enquanto a cidade de São Paulo é destaque na eletrificação dos ônibus.

 

Ônibus elétrico na cidade de Mauá, Grande São Paulo Foto: Suzana Nogueira


A mobilidade por bicicleta também obteve avanços, e os mais de 4.000 km de ciclovias e ciclofaixas realizados nas cidades brasileiras se integram com infraestruturas de apoio, como bicicletários e sistemas de bicicletas compartilhadas. 

 

Além de São Paulo, que possui a maior rede cicloviária brasileira, vale destacar ainda Fortaleza (CE) e Niterói (RJ), que implementaram nos últimos anos sistemas cicloviários integrados a bicicletários, terminais e estações de transporte coletivo e sistemas de bicicletas compartilhadas, além de promover diversas ações de educação e comunicação. 


 

Ciclovia na orla de Piratininga, em Niterói Foto: Suzana Nogueira


O grande desafio, porém, ainda é a mobilidade a pé. Ações isoladas, mesmo que muito bem planejadas, foram executadas, mas estão longe de abranger parcela significativa que melhore as condições de circulação a pé nas cidades. Além disso, a maioria das cidades ainda não prioriza a circulação de pedestres em relação aos modos motorizados. 

 

 
Referência de prioridade no uso de vias urbanas Fonte: Guia Global de Desenho de Ruas (Nacto)


Década do Transporte Sustentável 
A ONU acaba de dar a largada a um plano global ambicioso: a Década das Nações Unidas do Transporte Sustentável, que se estende até 2035, e coloca a mobilidade como tema estratégico para atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e as metas do Acordo de Paris.

 

O plano da ONU foca em eixos prioritários que devem guiar os investimentos globais nos próximos dez anos, e que têm pontos de alinhamento com a Lei da PNMU. Podemos destacar as principais metas dos eixos prioritários:

 

* Priorização dos transportes sustentáveis: Planejamento viário com diretrizes que privilegiam o uso dos espaços para o transporte coletivo, transporte por bicicleta e transporte a pé;
 
* Descarbonização: Aceleração da transição para veículos de emissão zero (elétricos e a hidrogênio), especialmente dos sistemas de transporte público coletivo e veículos de carga;

* Segurança viária: Redução de mortes no trânsito, por meio da implantação de “Sistema Seguro” e orientada pela Visão Zero, pois nenhuma morte no trânsito é aceitável;

* Equidade social: Promoção de sistemas de transportes universais, acessíveis, e que cheguem às populações mais vulneráveis, um grande desafio para muitas cidades brasileiras;

* Resiliência climática: Adaptação da infraestrutura urbana para resistir a eventos climáticos extremos, integrando infraestrutura verde, como Soluções Baseadas na Natureza (SbN) e promovendo o estímulo ao uso de modos de transporte de baixa emissão;

* Inovação e tecnologia: Uso de dados, inteligência artificial (IA) e novas soluções de mobilidade para aumentar a eficiência e a sustentabilidade;

* Conectividade global: Melhoria das cadeias de suprimentos verdes para reduzir emissões de carbono nos sistemas logísticos.

 

Para alcançar essas metas, os principais desafios ainda são: limitação da infraestrutura energética para os sistemas de transporte; alto valor de tarifa para grande parcela da população; custo elevado do investimento em novas tecnologias; baixa capacidade técnica de gestores públicos; resistências à implantação de políticas de promoção ao transporte coletivo e modos ativos; baixa capacidade de ações preventivas e efetivas que impactem na redução de riscos climáticos.

 

Os avanços no Brasil da Lei da Política Nacional de Mobilidade Urbana, assim como da Década do Transporte Sustentável (2026-2035), dependem da superação de barreiras estruturais e financeiras. O país enfrenta o desafio de transformar metas globais em ações locais, exigindo vontade política e inovação para garantir uma mobilidade que seja, simultaneamente, resiliente, inclusiva e de baixa emissão.

 

 

 

*Suzana Nogueira é arquiteta urbanista e pedagoga, e atua na promoção da mobilidade justa, inclusiva e sustentável nas cidades. Possui longa experiência na gestão, planejamento, projetos e condução de processos de participação social na área da mobilidade no setor público, privado e terceiro setor.

 

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