📝 Coletivo da Mobilidade

Aqui não é Amsterdã!

Governo do DF exaltou as ciclovias da capital em post no instagram, assim: "ultrapassam referências internacionais, como Amsterdã". Uirá rebate: "Brincadeira tem limite!"

Por Uirá Lourenço
Postagem do GDF em rede social no dia 20/4/2026

Postagem do GDF em rede social no dia 20/4/2026 | Foto: GDF/Reprodução Instagram

Para quem usa a bike há tanto tempo, e diariamente (sob sol ou chuva), como meio de transporte, a postagem recente no instagram do Governo do Distrito Federal (GDF) foi uma afronta. As notícias e postagens elogiosas do governo são frequentes, com tendência de aumentarem em ano de eleição. Mas brincadeira tem limite!


Tive o prazer de estar em Amsterdã mais de uma vez, caminhei e pedalei bastante. Uma experiência única. É uma cidade viva e dinâmica, que se destaca não só pela quantidade de ciclovias, mas também pela enxurrada de ciclistas que se vê todo dia, a qualquer hora.

 

Ciclistas em cruzamento de Amsterdã Foto: Uirá Lourenço 

 

A quantidade e a qualidade das ciclovias em Amsterdã e nas outras cidades holandesas – conectadas, seguras e iluminadas – não tem qualquer comparação com as nossas ciclovias. Ruas e ciclovias abarrotadas de ciclistas – de todas as idades – contrastam com as ciclovias vazias na área central de Brasília.

 


Outra característica marcante de Amsterdã é a baixa velocidade nas ruas e avenidas. Na cidade toda (ou quase toda) o limite de velocidade é de 30 km/h. O limite pode ser até menor, por exemplo perto de escolas.

 

Limite de 15 km/h em Amsterdã Foto: Uirá Lourenço 

 

Os carros são meros coadjuvantes por lá. Em muitos locais, a circulação de automóvel é proibida e costuma ser caro estacionar, especialmente na área central. Aqui em Brasília ainda temos o carro como protagonista e uma via expressa que corta a cidade, com limite de 80 km/h (claramente excedido longe dos radares). O estacionamento é livre e gratuito, inclusive sobre calçadas e gramados.

 

Ciclovia detonada no Eixo Monumental, área central de Brasília Foto: Uirá Lourenço

 

No Eixão, limite de 80 km/h e canteiro como estacionamento Foto: Uirá Lourenço

 

Vale lembrar que lá todos pedalam, de crianças a idosos. A bicicleta é levada a sério, torna-se a opção mais ágil e prática no dia a dia. A diversidade de bicicletas é incrível, inclusive cargueiras (bakfiets) – que levam compras e famílias inteiras – e bicitáxis. As autoridades se deslocam de bicicleta, inclusive a família real.

 

A acessibilidade é impecável, com calçadas lisinhas e uma quantidade enorme de moradores e turistas caminhando, incluindo idosos com andadores e bengalas, pessoas com deficiência em triciclos. Um contraste evidente com as calçadas esburacadas e invadidas por carros em Brasília.

 

E o que dizer do principal parque de Amsterdã, o Vondelpark? Uma área muito agradável e que serve de ligação para milhares de ciclistas que a atravessam para ir a outros bairros. Bem diferente do Parque da Cidade, que tem sérias limitações de acesso para quem está sem carro e serve de atalho para os motoristas.

 

 

Ciclistas no VondelPark Foto: Uirá Lourenço

 

Amsterdã e os Países Baixos não são referência só na cultura da bike, mas em mobilidade de forma geral. Tem opção de trens, ônibus modernos, metrô e o bonde elétrico (tram). A integração da bicicleta ao transporte coletivo surpreende, com grandes bicicletários, seguros e gratuitos. O bicicletário da estação central de Amsterdã tem capacidade para 11 mil bicicletas, é belíssimo e moderno. 

 

Bicicletário na estação central de Amsterdã, tram e bici-táxi Foto: Uirá Lourenço

 

É injusto comparar com Brasília. Mas, já que o GDF assim o fez, vamos aos fatos: nosso bonde elétrico (VLT), que passaria na avenida W3, previsto desde 2008, nunca saiu do papel. O novo ‘bicicletário’ da nossa estação central (Rodoviária do Plano Piloto) tem dez suportes metálicos, sem cobertura e sem controle de acesso.

 

‘Bicicetário’ da Rodoviária do Plano Piloto Foto: Uirá Lourenço

 

Há muitos textos e vídeos publicados sobre Amsterdã e Países Baixos, um inegável caso de sucesso. Um país que também sucumbiu ao automóvel, mas virou o jogo a partir dos anos 1970, com a crise do petróleo. O documentário ‘Como os holandeses conquistaram suas ciclovias’ mostra bem as mudanças.

 

Espero que os técnicos e gestores do GDF possam se inspirar no exemplo holandês e trazer projetos inovadores que resultem não só em novas ciclovias, mas também em muitos novos ciclistas, atraídos pelo conforto e pela segurança de pedalar. Não basta só falar em quilômetros de ciclovias, é preciso avaliar a quantidade de ciclistas, a acessibilidade e a integração com o transporte coletivo. E, claro, enfrentar a carrodepedência.

 

Lá dificilmente se verá prefeito ou governador inaugurando túneis e viadutos, a não ser que sejam exclusivos para pedestres e ciclistas. Por aqui foram mais de 20 viadutos construídos entre 2019 e 2025 para reforçar a cultura automotiva, muitos inaugurados com a ilustre presença do governador. 

 

 

 

Uirá Lourenço é servidor público, ambientalista, admirador da natureza e um defensor incansável da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Morador de Brasília, optou por não ter carro, e usa a bicicleta no dia a dia para registrar com fotos e vídeos a mobilidade nas cidades por onde passa. É voluntário da rede Bike Anjo, colaborador do Mobilize e membro da Rede Urbanidade.

 

Voltar