A resiliência urbana é a capacidade das cidades de absorver, adaptar e se recuperar de choques, e tornou-se central no debate brasileiro devido ao aumento de eventos climáticos extremos, à pressão sobre a infraestrutura urbana e a políticas públicas federais e locais voltadas à adaptação e mitigação das mudanças climáticas.
O conceito refere-se à habilidade dos sistemas urbanos — incluindo infraestrutura, serviços, comunidades e governança — de absorver impactos enquanto mantém funções essenciais e aprende com as crises para reduzir vulnerabilidades futuras. Originado na engenharia e ecologia, o tema migrou para o planejamento urbano e políticas públicas, ganhando força diante da frequência crescente de inundações, secas e ondas de calor e impulsionado por relatórios científicos, pressões sociais e iniciativas governamentais que vinculam clima e planejamento.
Florianópolis(SC): alagamentos, cada vez mais frequentes nas cidades Foto: D. Hoppe
O cenário de emergência climática intensifica os riscos de desastres urbanos, pois eventos extremos sobrecarregam sistemas de drenagem, energia, saúde pública e mobilidade, tornando a resiliência uma resposta prática que organiza ações para reduzir impactos imediatos e aumentar a capacidade de resposta das cidades.
Mobilidade urbana sustentável, um dos pilares da resiliência Foto: D. Hoppe
A mobilidade urbana sustentável é um pilar importante da resiliência, já que a redução do uso do automóvel, combinada com o aumento de deslocamentos em transporte público, por bicicleta ou a pé, contribuem para diminuir emissões, reduzir congestionamentos em crises e manter o acesso a serviços essenciais durante eventos extremos. Por meio de sistemas multimodais e redundantes, que disponibilizam alternativas de deslocamento, a cidade torna-se melhor preparada para responder a interrupções.
No Brasil, os impactos das mudanças climáticas recaem de forma desigual sobre diferentes territórios e grupos sociais, e a resiliência passa necessariamente pela justiça climática. Populações periféricas, pretas, pardas e indígenas, apesar de contribuírem menos para a mudança do clima, são mais expostas a riscos e possuem menor capacidade de recuperação. Sem equidade, as medidas de resiliência podem reforçar desigualdades.

Morro da Conceição (Recife): essencial a população participar de decisões para tornar as cidades resilientes Foto: D. Hoppe

Urbanismo tático: área de pedestre ampliada em ponto de ônibus no RJ Foto: D. Hoppe
É essencial que se assegure que investimentos priorizem áreas e grupos mais vulneráveis e que eles façam parte do planejamento e da implementação das ações. Os sistemas naturais têm se comportado de forma cada vez mais imprevisível, e o olhar preciso e atualizado do território é essencial para que se identifiquem as medidas mais efetivas. A implementação de medidas adaptativas, por outro lado, cria novas possibilidades de geração de trabalho e renda e pode impulsionar um ciclo virtuoso de desenvolvimento sustentável.
A construção da resiliência urbana exige, portanto, uma abordagem integrada, que parta da identificação dos riscos aos quais as populações estão expostas para construir, em conjunto com elas, respostas de curto, médio e longo prazo. Somente com o olhar transversal e integrador da resiliência será possível fortalecer as cidades para enfrentar os desafios climáticos atuais e futuros, promovendo um desenvolvimento urbano mais justo, seguro e sustentável.
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Danielle Hoppe atua há mais de 15 anos na promoção do desenvolvimento urbano e mobilidade inclusivos, sustentáveis e resilientes ao clima. Acumula experiências no poder público, iniciativa privada e terceiro setor. É mestre em planejamento urbano pela McGill University, em Montreal (Canadá), e graduada em arquitetura e urbanismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Desde 2014, faz parte da equipe do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP Brasil)
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