Dúvidas comuns para quem já utilizou a bicicleta em alguma fase da vida, ou deseja começar a utilizá-la agora, costumam ser: Será que eu posso pedalar? Qual o tipo de bicicleta é ideal para mim? Onde é mais seguro para começar?
O primeiro passo é entender se sua condição de saúde permite a atividade, e somente um especialista médico poderá apoiar com esta informação. Mas é sempre importante reforçar que, para quem não tem restrições, a bicicleta é um meio poderoso de melhorar a saúde física e mental.
Estudos e pesquisas na área da saúde mostram que a prática fortalece o coração, reduz o colesterol ruim, trabalha o fortalecimento muscular, queima calorias, reduz o cortisol (hormônio do estresse), melhora o humor e a qualidade do sono. Além disso, dados recentes apontam que pedalar reduz em até 22% o risco de desenvolver Alzheimer e em 19% o risco geral de demência.
Bike Anjo: pedalar, não importa a idade, faz bem à saúde Foto: Upslon/ Flick
Para neurodivergentes, especialmente no Transtorno do Espectro Autista (TEA), a bicicleta se destaca como uma ferramenta terapêutica e psicomotora poderosa. Ela auxilia na melhora da coordenação motora, no ganho de tônus muscular, na autorregulação emocional e na promoção da autonomia.
Passemos ao segundo passo, que é compreender como se preparar para a atividade. Significa entender qual tipo de bicicleta é o mais adequado, quais vestimentas são apropriadas, quais acessórios podem auxiliar a ter mais conforto e segurança, e quais locais são ideais para iniciar a prática.

Bicicletas na primeira infância: benefícios ao desenvolvimento motor Foto: Otávio Rocha
Bicicleta na infância
Vamos começar do começo: na primeira infância, as crianças podem e devem pedalar. A prática pode ser favorecida desde o início do desenvolvimento motor. Triciclos e bicicletas de equilíbrio (chamadas balance bikes) são muito benéficas para essa fase de experiência inicial.
As crianças também podem ser transportadas por adultos que já pedalam. Hoje, existem modelos de cadeirinhas adaptadas para bicicletas com total segurança, reboques que se acoplam aos quadros, triciclos e quadriciclos. Em alguns países, é muito comum o uso de bicicletas cargueiras para o transporte dos pequenos. O mais importante, neste caso, é que o adulto tenha habilidade na condução, visando a sua própria segurança e a da criança.
Na segunda e na terceira infância, os mais jovens ganham mais autonomia. Bicicletas e triciclos são opções que apoiam crianças com diferentes habilidades. Há ainda dispositivos que permitem engatar a bicicleta infantil na do adulto, favorecendo a orientação em deslocamentos urbanos.
Atenção: É sempre importante lembrar que, nessa faixa etária, a criança ainda não desenvolveu plenamente o discernimento sobre distância, velocidade e posição ao percorrer as ruas. Portanto, não é recomendado que circulem no trânsito sem infraestrutura adequada e o acompanhamento de uma pessoa adulta.
Por essa razão, existem iniciativas muito interessantes como os "bondes de bicicleta" para a escola, onde adultos se organizam para acompanhar os estudantes em segurança, favorecendo a circulação saudável e a socialização.
Bike Bus, Portland/EUA: rotas animadas com alunos, pais, professores na ida à escola Foto: Bike Kids Brasil
Juventude e as modalidades esportivas
Na juventude, a bicicleta ganha um novo potencial. Nessa fase, o uso voltado para o transporte e o lazer pode estimular descobertas no âmbito esportivo. Existem diversas modalidades para diferentes perfis e habilidades. Entre as mais praticadas no Brasil, destacam-se: BMX Freestyle, MTB Downhill, Ciclismo de pista (estrada), Bike Trial.
A versatilidade na vida adulta
Na fase adulta, a bicicleta se transforma em uma oportunidade para diferentes finalidades: meio de transporte, lazer, esporte e turismo.
- Transporte urbano: Eficiente para distâncias entre cinco e sete quilômetros. Modelos elétricos ou com pedal assistido ampliam o alcance para dez quilômetros. A integração com bicicletários em terminais de metrô, trens e ônibus potencializa seu uso.
- Lazer: Combina com praças, parques e ruas. Programas como Ruas Abertas ou Ciclofaixas de Lazer são ótimos para iniciantes, promovem o convívio e estimulam o comércio local.
- Cicloturismo: Movimenta economias locais (alimentação, hospedagem e serviços). Conta com roteiros urbanos, rurais e regionais adaptáveis a vários perfis.
Bike Tour SP: iniciativa de passeios guiados pela cidade de São Paulo Foto: Divulgação
Cicloturismo nacional
Embora o cicloturismo ainda seja uma prática pouco estimulada no Brasil, é importante destacar que existem diferentes categorias neste segmento.
O cicloturismo urbano é uma forma muito interesse de pedalar e conhecer a cidade pedalando. Duas iniciativas da cidade de São Paulo são exemplos de boas práticas:
- Projeto “Bike Tour SP”: Turismo guiado na região do centro expandido de São Paulo que integra pessoas com diferentes condições físicas e inclui atividades específicas para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
- Projeto “Pedale-se”: Promove o cicloturismo periférico na zona leste da cidade de São Paulo. Rogério Rai, coordenador do projeto, acredita que a iniciativa possibilita conhecer pontos históricos da região, fomentar a economia local e estimular o desenvolvimento turístico local e cultural da bicicleta.
O cicloturismo regional tem um grande potencial no Brasil, com muitas rotas mapeadas em diferentes estados. A Rede Brasileira de Trilhas organiza o mapeamento desses trajetos para fomento do turismo e oferece uma ferramenta de uso público a serviço da conservação, que tem como objetivo conectar as Áreas Protegidas do Brasil por meio de trilhas.
Próximos Passos: Como Começar?
Por fim, é fundamental entender que cada prática requer um tipo de bicicleta adequado ao seu uso. A maioria dos modelos tradicionais é adequada ao contexto urbano como meio de transporte, mas, especialmente para os demais usos, é importante contar com o apoio de uma assessoria especializada, encontrada em algumas bicicletarias. Da mesma forma, já existem fabricantes de triciclos e bicicletas adaptadas para necessidades específicas.
Quer começar a pedalar ou iniciar uma prática diferente? A recomendação é acompanhar organizações que já atuam no segmento e participar de rodas de conversa, pois a troca de experiências é fundamental para garantir uma jornada segura e prazerosa.
Bike Sem Barreiras, Maceió: passeios em bikes adaptadas a pessoas com deficiência Foto: Alisson Frazão/Secom
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*Suzana Nogueira é arquiteta urbanista e pedagoga, e atua na promoção da mobilidade justa, inclusiva e sustentável nas cidades. Possui longa experiência na gestão, planejamento, projetos e condução de processos de participação social na área da mobilidade no setor público, privado e terceiro setor.
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