Acabei de chegar de uma viagem de 20 dias à China. Vinte dias é pouco para um país de dimensões continentais como a China, mas posso afirmar que as várias realidades urbanas que presenciei foram suficientes para me deixar fortemente impressionada sobre o que este país se tornou.
Quem conhece um pouco de história sabe que a China até pouco tempo era um país isolado, feudal, só produzindo insumos agrícolas que mal davam para dar conta de uma população gigantesca. Ao mesmo tempo, dona de uma cultura antiquíssima, onde as religiões originais, o taoismo e o confucionismo foram misturados ao budismo, ao islamismo e, mais tarde com a colonização europeia, ao cristianismo.
Por falar em colonização, ao longo de sua história, a China foi invadida e subjugada a vários povos e países; mas nada que se comparasse em crueldade à dependência do ópio imposta pelos ingleses, já que os chineses não haviam se interessado por outros produtos que a Inglaterra comercializava.
Assim o país asiático seguiu até o final dos anos 1940, quando ocorreu a Revolução Cultural, com a criação da República Popular da China, de regime político comunista. Mais recentemente, pela exigência de sua modernização e abertura ao mundo, o regime se torna social capitalista, continuando a centralização do poder no Estado.
Movimento nas ruas de Xi Cheng, distrito de Pequim Foto: Meli Malatesta
Estas modificações recentes, mais exatamente a partir dos anos 1980, levaram e ainda tem levado a China a passar por mudanças radicais, de país agrícola a industrial, de serviços, e principalmente de desenvolvimento tecnológico de alto nível, em pouquíssimo tempo.
Esse processo impactou diretamente na vida da população e na estruturação do país, causando o grande crescimento de várias cidades e o deslocamento de seus habitantes para a vida urbana. Atualmente, cerca de 80% a 90% das pessoas vivem nas cidades e a produção agrícola é altamente mecanizada.
A partir destas impressões iniciais chegamos ao ponto desejado: o relato das impressões que vivi percorrendo as cidades chinesas por um período de praticamente três semanas.
Logo de início declaro meu assombro entusiasta ao constatar que, em todas elas, a vida urbana é dinâmica, de boa qualidade, segura e vivida com maior igualdade social.
Áreas verdes, com acessibilidade para caminhar, em Pequim Foto: Meli Malatesta
Realmente testemunhei que a China vive um bom momento, fato este de plena consciência pela população, que se orgulha de fazer parte dele.
Até aqui, são considerações iniciais, um preâmbulo para que eu possa passar, nos próximos artigos, ao relato das impressões e vivências que tive sobre a mobilidade urbana, e em especial a mobilidade ativa pelas ruas de Pequim e de outras localidades do grande país. Aguardem.
 |
Maria Ermelina Brosch Malatesta é arquiteta e urbanista formada pela FAU Mackenzie. Mestra e doutora em Mobilidade Urbana Ativa pela FAU USP, atua como consultora em políticas públicas, planos diretores de mobilidade e projetos de sistema viário e espaço público para a mobilidade ativa, a pé e por bicicleta. Autora dos livros Pé de Igualdade e A Rede da Mobilidade a Pé.
|