📝 Coletivo da Mobilidade

Centro Administrativo do DF: mudança para melhor

Governo do DF vai transferir órgãos para Taguatinga, num espaço de fácil acesso a servidores por ônibus, metrô, ciclovia... Único porém é a proposta de erguer viadutos

Por Uirá Lourenço
Imagem ilustrativa da futuro Centro do GDF em Tagu

Imagem ilustrativa da futuro Centro do GDF em Taguatinga | Foto: Agência Brasília/ Divulgação

O Centro Administrativo do Distrito Federal será finalmente ocupado, anunciou no último dia 9 de junho a governadora Celina Leão (PP). O complexo administrativo foi construído em Taguatinga (região administrativa do Distrito Federal), com o objetivo de abrigar os órgãos do governo local.

Inaugurado no final de 2014, o CAD (antigo Centrad) nunca foi utilizado. Em meio a disputas judiciais, a megaestrutura ficou abandonada ao longo de diferentes governos.

 

Gostei da decisão recente de levar os órgãos do GDF para Taguatinga. Isso já poderia ter ocorrido há mais tempo e representaria uma grande economia aos cofres públicos. O montante que teria sido economizado até hoje (R$ 168 milhões por ano), com aluguel das sedes provisórias dos órgãos, serviria bem em projetos estruturantes como o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que até hoje não saiu do papel.

 

Ciclovia passa ao lado do Centro Administrativo Imagem: Uirá Lourenço 

 

Metrô, ônibus e ciclovia
Além de tirar a concentração de órgãos públicos na área central, a ocupação do espaço pode dinamizar a região de Taguatinga, levar empregos e impulsionar o comércio. A concentração de órgãos federais e distritais no centro de Brasília contribui para o movimento pendular de trabalhadores, obrigados a fazer longos deslocamentos diários.


O centro administrativo está em localização privilegiada, ao lado da estação de metrô Centro Metropolitano. A oferta de ônibus é generosa na avenida Elmo Serejo. Há ainda um terminal rodoviário ao lado e uma ciclovia margeia a área externa do CAD.   

 


 




Terminal rodoviário e estação de metrô perto do CAD

 Imagens: Uirá Lourenço

 

Mas, apesar da boa oferta de ônibus e metrô, uma contradição e tanto é o anúncio do governo de construir ali dois viadutos. Por um lado, o GDF destaca a boa localização do Centro, "próximo a uma estação do metrô e ao terminal rodoviário da região, facilitando o acesso de servidores e cidadãos". Por outro, na mesma notícia, afirma que "a Secretaria de Obras já trabalha na elaboração dos projetos necessários para a construção de dois novos viadutos de acesso ao complexo". 


 
A proposta de construir viadutos é altamente questionável, especialmente numa região bem servida por transporte coletivo, com estação de metrô e ciclovia na porta, literalmente. Além do custo elevado (cerca de R$ 300 milhões), os viadutos reforçariam ainda mais a carrodependência no DF. 

 

Vale lembrar que o atual Plano de Transporte e Mobilidade (PDTU/DF), instituído pela Lei Distrital n° 4.566/2011, e a proposta de atualização do Plano de Transporte (em elaboração, batizado de Plano Diretor de Transporte e Mobilidade Sustentável - PDTM) trazem de forma expressa o desestímulo ao transporte individual motorizado e a priorização dos modos coletivos e ativos de transporte. 

 

A ocupação do Centro Administrativo é um motivo a mais para investir no metrô, que anda esquecido e com problemas diversos. Segundo reportagem recente (Bom Dia DF, de 8 de junho), baseada em relatório da Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana (CTMU) da Câmara Legislativa, em 2025 o metrô teve 20 paralisações por falha técnica, com déficit financeiro de R$ 300 milhões. Dos 32 trens disponíveis, apenas 19 funcionavam em horário de pico (em alguns dias chegaram a rodar apenas 12). 

 

Modos ativos 
"Construa e eles vêm", esse é um mote conhecido entre estudiosos e ativistas da mobilidade. Construa ciclovias, linhas de BRT (sistema rápido por ônibus) e VLT para que ciclistas e mais usuários do transporte coletivo apareçam. No DF, infelizmente a lógica rodoviarista de incentivo ao automóvel segue firme: constroem-se túneis e viadutos grandiosos, e mais motoristas entopem as vias, estacionamentos, canteiros e calçadas (o estacionamento irregular é uma marca registrada de Brasília).

 

E aí, GDF, vamos fazer valer as leis de mobilidade e incentivar os modos ativos e coletivos de transporte entre os servidores que ocuparão o CAD? A sugestão é válida para os secretários de estado e para a própria governadora, que poderiam dar exemplo e utilizar ônibus, metrô e bicicleta no dia a dia. 


Veja a seguir o vídeo que gravei no final de janeiro, com imagens da avenida Elmo Serejo, em Taguatinga, que passa em frente ao Centro Administrativo:

 


 

 

 

Uirá Lourenço é servidor público, ambientalista, admirador da natureza e um defensor incansável da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Morador de Brasília, optou por não ter carro, e usa a bicicleta no dia a dia para registrar com fotos e vídeos a mobilidade nas cidades por onde passa. É voluntário da rede Bike Anjo, colaborador do Mobilize e membro da Rede Urbanidade.

 

Voltar