O Centro Administrativo do Distrito Federal será finalmente ocupado, anunciou no último dia 9 de junho a governadora Celina Leão (PP). O complexo administrativo foi construído em Taguatinga (região administrativa do Distrito Federal), com o objetivo de abrigar os órgãos do governo local.
Inaugurado no final de 2014, o CAD (antigo Centrad) nunca foi utilizado. Em meio a disputas judiciais, a megaestrutura ficou abandonada ao longo de diferentes governos.
Gostei da decisão recente de levar os órgãos do GDF para Taguatinga. Isso já poderia ter ocorrido há mais tempo e representaria uma grande economia aos cofres públicos. O montante que teria sido economizado até hoje (R$ 168 milhões por ano), com aluguel das sedes provisórias dos órgãos, serviria bem em projetos estruturantes como o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que até hoje não saiu do papel.
Ciclovia passa ao lado do Centro Administrativo Imagem: Uirá Lourenço
Metrô, ônibus e ciclovia
Além de tirar a concentração de órgãos públicos na área central, a ocupação do espaço pode dinamizar a região de Taguatinga, levar empregos e impulsionar o comércio. A concentração de órgãos federais e distritais no centro de Brasília contribui para o movimento pendular de trabalhadores, obrigados a fazer longos deslocamentos diários.
O centro administrativo está em localização privilegiada, ao lado da estação de metrô Centro Metropolitano. A oferta de ônibus é generosa na avenida Elmo Serejo. Há ainda um terminal rodoviário ao lado e uma ciclovia margeia a área externa do CAD.
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Terminal rodoviário e estação de metrô perto do CAD
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Imagens: Uirá Lourenço
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Mas, apesar da boa oferta de ônibus e metrô, uma contradição e tanto é o anúncio do governo de construir ali dois viadutos. Por um lado, o GDF destaca a boa localização do Centro, "próximo a uma estação do metrô e ao terminal rodoviário da região, facilitando o acesso de servidores e cidadãos". Por outro, na mesma notícia, afirma que "a Secretaria de Obras já trabalha na elaboração dos projetos necessários para a construção de dois novos viadutos de acesso ao complexo".
A proposta de construir viadutos é altamente questionável, especialmente numa região bem servida por transporte coletivo, com estação de metrô e ciclovia na porta, literalmente. Além do custo elevado (cerca de R$ 300 milhões), os viadutos reforçariam ainda mais a carrodependência no DF.
Vale lembrar que o atual Plano de Transporte e Mobilidade (PDTU/DF), instituído pela Lei Distrital n° 4.566/2011, e a proposta de atualização do Plano de Transporte (em elaboração, batizado de Plano Diretor de Transporte e Mobilidade Sustentável - PDTM) trazem de forma expressa o desestímulo ao transporte individual motorizado e a priorização dos modos coletivos e ativos de transporte.
A ocupação do Centro Administrativo é um motivo a mais para investir no metrô, que anda esquecido e com problemas diversos. Segundo reportagem recente (Bom Dia DF, de 8 de junho), baseada em relatório da Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana (CTMU) da Câmara Legislativa, em 2025 o metrô teve 20 paralisações por falha técnica, com déficit financeiro de R$ 300 milhões. Dos 32 trens disponíveis, apenas 19 funcionavam em horário de pico (em alguns dias chegaram a rodar apenas 12).
Modos ativos
"Construa e eles vêm", esse é um mote conhecido entre estudiosos e ativistas da mobilidade. Construa ciclovias, linhas de BRT (sistema rápido por ônibus) e VLT para que ciclistas e mais usuários do transporte coletivo apareçam. No DF, infelizmente a lógica rodoviarista de incentivo ao automóvel segue firme: constroem-se túneis e viadutos grandiosos, e mais motoristas entopem as vias, estacionamentos, canteiros e calçadas (o estacionamento irregular é uma marca registrada de Brasília).
E aí, GDF, vamos fazer valer as leis de mobilidade e incentivar os modos ativos e coletivos de transporte entre os servidores que ocuparão o CAD? A sugestão é válida para os secretários de estado e para a própria governadora, que poderiam dar exemplo e utilizar ônibus, metrô e bicicleta no dia a dia.
Veja a seguir o vídeo que gravei no final de janeiro, com imagens da avenida Elmo Serejo, em Taguatinga, que passa em frente ao Centro Administrativo:
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Uirá Lourenço é servidor público, ambientalista, admirador da natureza e um defensor incansável da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Morador de Brasília, optou por não ter carro, e usa a bicicleta no dia a dia para registrar com fotos e vídeos a mobilidade nas cidades por onde passa. É voluntário da rede Bike Anjo, colaborador do Mobilize e membro da Rede Urbanidade.
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