Hong Kong, ou "Porto Perfumado", é uma cidade independente que, pelo menos no momento, não pertence à República Popular da China. Sua população de 7,5 milhões de habitantes convive em somente 1,115 km² de área, o que significa dizer uma localidade altamente adensada.
Somada a essa população, Hong Kong recebe ainda, diariamente, milhares de chineses continentais para negócios e principalmente para compras, por se tratar de um porto livre, onde produtos de consumo não são taxados. Entretanto, este público flutuante não pode morar e nem trabalhar lá.
Para driblar sua altíssima densidade, poderíamos dizer que a cidade processa sua mobilidade em layers (camadas) de pistas, túneis, passagens subterrâneas e passarelas, estas últimas estruturando uma verdadeira Rede de Mobilidade a Pé.
Hong Kong, com suas redes de passarelas e viadutos Foto: Meli Malatesta (Mai/2026)
Essa rede de mobilidade apresenta dimensões amplas e com tratamento paisagístico, e podem ser acessadas por escadas e elevadores. Ao longo da caminhada, há praças com pequenas árvores, bancos e até mesmo banheiros públicos, limpos e bem conservados. Só ficam a dever no quesito fachada ativa, mas, como conectam-se com shoppings e edifícios de comércio e serviços, estes acabam suprindo esta demanda.
Há mais gente caminhando nas redes de passarelas do que propriamente nas calçadas, até porque são nas passarelas que estão as travessias de ruas, mesmo em cruzamentos com semáforos, visto que estes só estão programados para administrar os fluxos veiculares. Mas de vez em quando se é obrigado a baixar até o nível térreo para acessar as entradas dos prédios mais antigos, assim como as estações de metrô - cuja extensão atinge quase 300 km em 155 estações - e a rede de ônibus, muitos deles veículos com dois andares.

Ônibus de dois andares trafegando nas ruas de Hong Kong Foto: Meli Malatesta (Mai/2026)
Pessoas tiram fotos de dentro da passarela: bem dimensionadas e equipadas Foto: Meli Malatesta
Para acomodar toda essa gente em moradias, os edifícios todos apresentam alturas abissais. A maioria são prédios destinados à habitação popular, com média de 80 andares. Outros, de escritórios e habitação para alta renda, chegam a atingir alturas impossíveis.
E tudo isso na cidade dos dragões: pois lá, reza a lenda, os dragões residem nas montanhas lindeiras, e de vez em quando resolvem passear pelas ruas de Hong Kong. Para que estes edifícios altos não se tornem obstáculos à passagem desses animais extraordinários, é comum observar no ambiente urbano alguns prédios cujas fachadas são projetadas com aberturas para a passagem dos dragões. Assim, a cidade pode viver em paz, dizem os hong-kongueses.
Moradias nas alturas. Na foto abaixo, o "buraco do dragão" Fotos: Meli Malatesta (Mai/2026)

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Maria Ermelina Brosch Malatesta é arquiteta e urbanista formada pela FAU Mackenzie. Mestra e doutora em Mobilidade Urbana Ativa pela FAU USP, atua como consultora em políticas públicas, planos diretores de mobilidade e projetos de sistema viário e espaço público para a mobilidade ativa, a pé e por bicicleta. Autora dos livros Pé de Igualdade e A Rede da Mobilidade a Pé.
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