Beijing, cujo significado é Capital do Norte, é mais conhecida por aqui no Brasil como Pequim. Capital da República Popular da China e a maior do planeta, foi erguida em local determinado a partir dos preceitos do tradicional Feng Chui. Moderna e tecnológica, a cidade continua mantida em seus significados, atravessando séculos.
Essa monumentalidade fica evidenciada logo de cara por seus principais espaços públicos de poder - a começar pela imensa Praça da Paz Celestial, cercada por grandes edifícios administrativos, e principalmente pela Cidade Proibida, que assombra por sua extensão e onde, desde o século 13, senhores feudais, generais, imperadores e presidentes sucedem-se e se sobrepõem, sem no entanto desrespeitar os espaços encontrados. Muito pelo contrário, sempre foram incorporados em suas releituras pessoais. O grandioso retrato de Mao Tse Tung, ostentado na entrada principal da Cidade Proibida, é sua clara demonstração.
Mobilidade urbana
Para uma entusiasta da Mobilidade Ativa, ver uma metrópole do tamanho de Beijing, de largas avenidas com intenso trânsito motorizado, muitas das quais com corredores de transporte coletivo também, com todas as suas faixas de tráfego da direita, junto às calçadas, segregadas fisicamente para uso exclusivo de bicicletas mecânicas e elétricas, juntamente com scooters, motocicletas e triciclos motorizados, bem... essa disposição a princípio causou estranheza. Mas com o tempo, e observando melhor, reparei que nessa mistura, que poderia ser “indigesta”, havia uma organização que a tornava segura e ao mesmo tempo eficiente.

Ciclovia segregada: bicicletas comuns e elétricas, scooters e motos Foto: Meli Malatesta
Primeiramente porque essa pista destinada a ciclos, segregada com pintura no solo, dividia o tráfego dos veículos leves em duas partes. À direita, junto à calçada, a faixa destinada às bicicletas, motorizadas ou não. Já a faixa da esquerda ficava para scooters, motos e triciclos motorizados, podendo ser utilizada também por bicicletas, para ultrapassagem.
Se fosse em nossas cidades, certamente ocorreria uma série de sinistros e intercorrências; mas lá parecia funcionar muito bem. Além disso, motos como conhecemos, movidas a gasolina e álcool, foram totalmente proibidas na China, o que contribuiu muito para a melhoria do ar, pois são esses veículos motorizados os que mais poluem.
Beijing também conta com um serviço de bicicletas coletivas que podem ser utilizadas por qualquer pessoa, inclusive turistas, por valor irrisório, mediante o uso de um aplicativo muito popular, o Alipay. São bicicletas bem básicas, de cores claras, distribuídas estrategicamente em pontos de interesse da cidade, sendo intensamente utilizadas por toda a população. A logística diária desses veículos é feita diariamente por caminhonetes elétricas, que deixam as bicicletas antes do pico da manhã e as recolhem após o pico da tarde.

Bicicletas coletivas alugadas por aplicativo, a valor irrisório Foto: Meli Malatesta
Mas nem tudo são flores quando se trata de deslocamentos a pé... Em primeiro lugar porque veículos de duas e três rodas podem estacionar em calçadas, em ângulo de 90 graus, ocupando a faixa de serviço (onde ficam as árvores, postes de iluminação etc). Isso traz dois problemas para quem anda a pé pela calçada: a perda de uma “gordurinha” de passeio, usada principalmente quando o pedestre quer ultrapassar outro mais lento; e a facilitação do mau hábito dos condutores de duas rodas de circular também pelo passeio, sentindo-se donos do espaço e até usando a buzina para que os pedestres saiam de sua frente.

Motos, scooters e bikes na faixa de serviço tiram parte do passeio e até da rota de acessibilidade (piso tátil direcional) Foto: Meli Malatesta
Outro ponto problemático para quem caminha é a grande frequência de passarelas como equipamento de travessia. Diferente de Hong Kong, onde as passarelas acabam formando uma extensa rede para ligar pontos de interesse, as passarelas de Beijing existem para possibilitar a travessia de uma simples pista veicular. Isso serve para eliminar a presença de pedestres nos complicados cruzamentos onde a semaforização não atende, sem que haja conflito, todos os movimentos veiculares. Que dirá se houver pedestres ainda em travessia da pista, parece sugerir a medida.
A grande maioria dessas passarelas são acessadas somente por escadas que, apesar de em muitos casos serem dotadas de degraus confortáveis, ainda assim dificultam, ou pior, restrigem, seu uso por pessoas com dificuldade e impedimento de mobilidade, como idosos e cadeirantes. Por outro lado, a conexão das passarelas à rede de calçadas ocorre de forma contínua e eficiente, atendendo às linhas de desejo de travessia.
Passarelas: solução à travessia, mas pouco acessíveis por contarem só com escadas Foto: Meli Malatesta
Com tantas passarelas, isso não quer dizer que não existam semáforos de pedestres em Beijing. Semáforos até existem, sobretudo quando são para travessia de pessoas em vias com locais turísticos ou que reúnam muita gente. São equipamentos acionados por botoeiras, com tempo de travessia no foco verde e contagem regressiva que começa a piscar nos últimos dez segundos. Devo dizer que por isso atendem de forma bem melhor que os nossos.

Faixa semaforizada com temporizador: foco verde pisca faltando 10 segundos Foto: Meli Malatesta
Neste relato sobre a experiência de Beijing, não poderia deixar de mencionar algo que muito me impressionou: a qualidade de vida trazida pelas boas práticas urbanísticas dessa cidade. A começar pelo mobiliário urbano, dotado inclusive de banheiros públicos, e pela ampla presença de parques lineares com pista para a prática da atividade física ao longo de rios urbanos tratados.

Parques ao longo de rios urbanos: pontos de encontro e à prática de caminhada e corrida Foto: Meli Malatesta
Destaco também as paradas de ônibus, todas de boa qualidade, com bancos e informações aos usuários. E o que não dizer das estações de metrô? Eficientes, bem localizadas e equipadas com paraciclos e bicicletários que possibilitam a integração modal. Tudo isso contemplado pela limpeza urbana. Já no quesito qualidade do ar, especial atenção vai para os efeitos positivos proporcionados pela eletrificação quase total da frota de ônibus e a quase metade dos demais veículos da cidade.

Painéis em pontos de ônibus cobertos informam sobre linhas e a proximidade dos coletivos
Foto: Meli Malatesta
Estação de metrô com bicicletários que facilitam a conexão intermodal Foto: Meli Malatesta
Finalmente, devo dizer que Beijing é uma cidade com dimensões metropolitanas que tem desempenhado muito bem seu papel de maior capital do maior país do planeta, acertando seu acelerado crescimento a um planejamento fantástico de suas funções urbanas locais e nacionais. Por lá se exibe claramente o bem-sucedido modelo de sociedade que transitou, em pouquíssimo tempo, de uma situação de atraso e pobreza ao vencer inúmeros desafios, e cujo modelo político socialista a tem transformado em potência mundial.
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Maria Ermelina Brosch Malatesta é arquiteta e urbanista formada pela FAU Mackenzie. Mestra e doutora em Mobilidade Urbana Ativa pela FAU USP, atua como consultora em políticas públicas, planos diretores de mobilidade e projetos de sistema viário e espaço público para a mobilidade ativa, a pé e por bicicleta. Autora dos livros Pé de Igualdade e A Rede da Mobilidade a Pé.
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