📝 Coletivo da Mobilidade

Mobilidade urbana no centro do combate às emergências climáticas

Além das ações imediatas - rotas de fuga e corredores humanitários - cidades devem pensar a mobilidade, a ativa inclusive, para acessar por exemplo hospitais e abrigos

Por Danielle Hoppe
Milhares de pessoas vitimadas pelas chuvas no RS e

Milhares de pessoas vitimadas pelas chuvas no RS em 2024 | Foto: Ricardo Stuckert/ Agência Brasil

Eventos climáticos extremos, de diferentes naturezas, são cada vez mais frequentes nas cidades brasileiras. Enchentes, deslizamentos, vendavais e outros fenômenos pressionam os sistemas urbanos e exigem respostas rápidas e coordenadas. 

 

Tradicionalmente, os municípios se organizam por meio dos Planos Municipais de Contingência (Plancon), documentos estratégicos que orientam ações de prevenção, alerta, socorro e recuperação diante de emergências e desastres. Embora essenciais, esses planos tratam majoritariamente da resposta imediata, não sendo suficientes para enfrentar os desafios estruturais impostos pela nova realidade climática.

 

Para avançar, os municípios precisam incorporar estratégias de resiliência e adaptação climática de forma transversal aos instrumentos de planejamento territorial existentes, como planos diretores e planos de mobilidade urbana.

 

Exemplos do Sul
O caso de sete cidades do Vale do Rio Taquari, fortemente atingidas pela enchente de 2024 no Rio Grande do Sul, ilustra esse movimento. Após dois anos de trabalho, foram recentemente finalizadas as minutas de seus novos planos diretores, elaborados por meio de uma parceria pelos municípios, governo do estado e a Universidade do Vale do Taquari (Univates).

 

Os novos planos diretores incorporam o zoneamento de riscos climáticos como elemento estruturante do ordenamento territorial. Entre as medidas adotadas estão a redução de limites construtivos em áreas vulneráveis e a adequação do zoneamento de usos do solo, como a restrição de habitação no pavimento térreo em zonas sujeitas a alagamentos.

 

Corredor de ônibus em Porto Alegre: transporte estratégico no planejamento Foto: Alex Rocha/PMPA

 

A mobilidade urbana também desempenha função estratégica nesse contexto. Rotas de evacuação, bem como vias destinadas ao acesso de suprimentos e serviços de emergência precisam ser planejadas, protegidas e mantidas em condições de operação para garantir sua funcionalidade quando acionadas. Em Porto Alegre, por exemplo, durante a enchente de 2024, foi necessário elevar o nível de uma via de acesso e demolir uma passarela para permitir a entrada de caminhões, veículos de emergência e donativos. O chamado Corredor Humanitário tornou-se estrutura permanente em 2025.

 

No Vale do Taquari, no interior do Rio Grande do Sul, as minutas dos planos diretores também registram rotas de fuga como servidões administrativas, assegurando que não sofram alterações que comprometam sua função em situações de emergência.

 

Entretanto, os planos de mobilidade urbana precisam ir além da definição de rotas de fuga e corredores humanitários para cenários de colapso total, como ocorreu em diversas cidades gaúchas. É necessário prever o acesso contínuo a equipamentos essenciais, como hospitais, abrigos temporários, garagens de ônibus, centros de comando, órgãos públicos envolvidos na resposta, entre outros.

 

No que diz respeito à população impactada, áreas de risco devem contar com planos de evacuação que não dependam exclusivamente de automóveis particulares. O transporte coletivo precisa ter seu próprio Plano de Contingência, garantindo atendimento à população vulnerabilizada mesmo em condições adversas.

 

A mobilidade ativa também pode ser crucial em situações de emergência, garantindo acesso, rapidez e capilaridade quando a infraestrutura urbana entra em colapso. A bicicleta desempenhou um papel decisivo após o terremoto de 2017 na Cidade do México, quando o colapso da telefonia móvel, a queda de energia e o congestionamento generalizado tornaram inviável o deslocamento motorizado. Nesse cenário, a bicicleta emergiu como o meio mais ágil e eficiente para circular entre escombros e ruas bloqueadas, permitindo que voluntários chegassem rapidamente às áreas afetadas, transportassem medicamentos, alimentos e ferramentas, apoiando equipes de resgate.

 

Mais do que responder a desastres, portanto, trata-se de preparar o território e seus sistemas de circulação para funcionar sob pressão. A incorporação da adaptação climática e preparação para a resposta a eventos extremos exige ações coordenadas, permanentes e integradas entre diferentes políticas públicas.

 

 

 

Danielle Hoppe atua há mais de 15 anos na promoção do desenvolvimento urbano e mobilidade inclusivos, sustentáveis e resilientes ao clima. Acumula experiências no poder público, iniciativa privada e terceiro setor. É mestre em planejamento urbano pela McGill University, em Montreal (Canadá), e graduada em arquitetura e urbanismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Desde 2014, faz parte da equipe do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP Brasil)

 

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