📝 Coletivo da Mobilidade

"Dá match": bicicleta e transporte coletivo, a combinação perfeita

Estratégias para integrar a bicicleta com modos de transporte público são essenciais para promover a mobilidade sustentável nas cidades. Confira os exemplos pelo mundo

Por Suzana Nogueira
Dispositivos para levar bicicletas em trem na Áust

Dispositivos para levar bicicletas em trem na Áustria | Foto: Cycling Thread

Imagine um bicicletário com duas mil vagas, integrado a uma estação de trem com vestiários, suporte mecânico e um cafezinho quentinho para os frequentadores que usam no período da manhã... 

 

Para mim, essa era uma realidade somente vista em cidades europeias ou chinesas com redes de transporte público integradas e onde a bicicleta é um meio de transporte sempre presente no planejamento.

 

Mas foi na estação de trens de Mauá (linha 10-Turquesa), na região metropolitana de São Paulo, no início dos anos 2000, que conheci o bicicletário ao lado da estação, operado pela Ascobike.

 

A visita foi conduzida por Reginaldo Assis de Paiva, que naquela ocasião trabalhava na CPTM, elaborava estudos e pesquisas sobre o tema e conhecia muito bem o potencial nas linhas de trem de passageiros na Grande São Paulo. Sua experiência foi essencial para que o Grupo Executivo Intersetorial Pró-Ciclista, coordenado com maestria por Laura Vieira Ceneviva, conduzisse estudos técnicos intersetoriais para planejar a política de integração modal em estações de metrô, trem e ônibus na cidade de São Paulo. 
   


Grupo Pró-Ciclista, em 2008 Foto: Laura Ceneviva. Abaixo, o bicicletário de Mauá (2025) Foto: Suzana Nogueira

 


A integração modal possibilita que a bicicleta seja utilizada na primeira ou na última parte do deslocamento, sendo potencialmente atrativa para viagens de longa distância. Em casos assim, a integração às redes cicloviárias estimula o uso associado da bicicleta e do transporte público coletivo, o que favorece o ocupação dos espaços viários e reduz emissões de gases de efeito estufa e dos sinistros de trânsito. 

 

A intermodalidade, ou o transporte das bicicletas dentro do transporte coletivo, também é uma estratégia interessante para quem tem que percorrer médias distâncias na primeira e última parte do seu deslocamento (ou primeira e última “milha”). As referências e inspiração sobre o tema vêm de Amsterdã, Copenhague e Utrecht, mas existem também diversas experiências bem-sucedidas de integração com sistemas de metrô, trem, ônibus, barcas e teleférico na América Latina.

 

O TransMilenio de Bogotá, sistema de BRT com 114 km de extensão, é a primeira iniciativa latino-americana de planejamento integrado do transporte público coletivo com infraestruturas cicloviárias. Desde o início de sua operação, em 2000, o sistema previa bicicletários em suas estações, que foram gradativamente sendo conectados à rede cicloviária em expansão na cidade.

 

A capital colombiana também dispõe de um sistema de teleférico, o TransMiCable, integrado ao TransMilenio, e que permite o transporte de bicicletas nas cabines. Outro destaque da cidade é o sistema público de bicicletas compartilhadas de uso gratuito TransMiBici, com mais de 8.000 vagas distribuídas em 27 pontos de conexão com o transporte público, e que possui modelos adaptados para pessoas com deficiência, cargas e transporte de crianças.

 

Transporte de bicicleta no teleférico de Bogotá Foto: TransMiCable

 

Bicicletário integrado a estação do TransMilenio Foto: Danielle Hoppe

 

Sistema de bicicletas compartilhadas TransMiBici, em Bogotá Foto: Danielle Hoppe 


Outro destaque quando falamos de integração modal é o Bicicletário Arariboia, em Niterói (RJ), integrante do Programa Niterói de Bicicleta, e que dispõe de 850 vagas. É atualmente o maior bicicletário público gratuito brasileiro. O equipamento integra a bicicleta ao sistema intermunicipal de barcas, e está conectado à rede cicloviária da cidade. 

 

Bicicletário Arariboia, em Niteroi (RJ) Foto: Prefeitura de Niteroi


Fortaleza também é uma referência brasileira bem-sucedida: o sistema de transporte da capital cearense conta com bicicletários em todos os terminais, e dispõe do Bicicletar, um sistema de bicicletas compartilhadas que compreende 270 estações e mais de 1.600 bicicletas de uso público distribuídas em grande parte do território da cidade.

 

Bicicletário no Terminal Parangaba, em Fortaleza Foto: Suzana Nogueira


Sistemas de transportes coletivos metropolitanos são potenciais para combinar viagens com bicicletas. As regiões metropolitanas de São Paulo, Recife e Fortaleza oferecem iniciativas de transporte de bicicletas embarcadas em dias e horários específicos, com regras diferenciadas para bicicletas convencionais, elétricas e dobráveis. Na cidade de São Paulo, algumas linhas de ônibus articulados trazem dispositivos para o transporte interno de bicicletas, utilizados em dias e horários determinados.    

 

Bike na plataforma de embarque em trem, em São Paulo Foto: Suzana Nogueira

 

Bicicleta dentro de ônibus, na capital paulista Foto: Vá de Bike


Sistemas de intermodalidade existentes em outros países também podem inspirar avanços no Brasil. Trens e metrôs em várias cidades europeias possuem suportes internos para o transporte de bicicletas, o que dá maior comodidade aos ciclistas no transporte de seus equipamentos. Ônibus de linhas regulares trazem um rack dianteiro adaptado, iniciativa que possibilita o transporte de bicicletas na parte da frente do veículo. Em Sttutgart, na Alemanha, há sistema de engate de bicicletas no "Tram", tipo de transporte semelhante ao Veículo Leve sobre Trilhos (VLT).

 

Ônibus com rack dianteiro, em Carolina do Norte (EUA) Fonte: Ashevillenc.gov

 

 Engate para bicicletas em um Tram de Sttutgart Foto: Reprodução


A integração entre bicicleta e transporte público coletivo é uma alternativa possível para transformar nossas cidades em espaços mais humanos, fluidos e sustentáveis. Ao conectar a leveza e a flexibilidade em duas rodas à abrangência dos trens, metrôs, ônibus e barcas resolvemos o histórico desafio da "primeira e última milha", reduzimos emissões e devolvemos tempo e saúde às pessoas.

 

A mudança na mobilidade urbana não depende apenas de grandes obras, mas também da nossa atitude diária. Que tal experimentar essa combinação no seu próximo trajeto? Deixe a bicicleta ser o elo para a sua rotina no transporte coletivo e apoie iniciativas locais por mais bicicletários, ciclovias, ciclofaixas e transporte público de qualidade. 

 

 

*Suzana Nogueira é arquiteta urbanista e pedagoga, e atua na promoção da mobilidade justa, inclusiva e sustentável nas cidades. Possui longa experiência na gestão, planejamento, projetos e condução de processos de participação social na área da mobilidade no setor público, privado e terceiro setor.

 

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