Todos nós nascemos pedestres. Caminhar é o modo mais natural de deslocamento do ser humano e, durante grande parte da história, foi também a principal forma de locomoção. No entanto, a configuração das grandes cidades contemporâneas nos impõe deslocamentos cada vez mais longos e frequentes, dificultando que o andar a pé seja o único meio utilizado no dia a dia.
À medida que os assentamentos humanos cresceram e se transformaram, novas opções de transporte surgiram para atender às necessidades da população. Bicicletas, trens, automóveis, ônibus e motocicletas passaram a compor o sistema de mobilidade urbana. Mais recentemente, veículos leves e autopropelidos ampliaram ainda mais esse conjunto de alternativas.
Apesar dessa diversidade, aprendemos a nos enxergar como usuários de apenas um modo de transporte. Identificamo-nos como motoristas, ciclistas, motociclistas ou passageiros do transporte público. Essa forma de pensar limita nossa compreensão da mobilidade e da própria experiência urbana.
Na prática, sempre fomos seres multimodais. Mesmo quem realiza a maior parte de seus deslocamentos de carro continua sendo pedestre. Afinal, é preciso caminhar até a garagem, atravessar estacionamentos ou percorrer trechos a pé para chegar ao destino final. Da mesma forma, inúmeras pessoas utilizam diferentes meios de transporte em uma mesma viagem, combinando, por exemplo, bicicleta e ônibus ou bicicleta e trem.
Pedestres e ciclistas: a mobilidade ativa nas ruas da cidade do Rio Foto: Danielle Hoppe
Essa realidade é especialmente visível entre trabalhadores que, há décadas, usam a bicicleta para chegar à estação ferroviária ou ao ponto de ônibus mais próximo. Muitas vezes, fazem isso mesmo sem contar com infraestrutura adequada, enfrentando condições pouco seguras e desconfortáveis para realizar essas conexões. São exemplos de deslocamentos intermodais, isto é, viagens que combinam dois ou mais modos de transporte.
Se queremos promover formas mais sustentáveis de deslocamento nas grandes cidades, é fundamental colocar a intermodalidade no centro do planejamento. Não existe uma solução única para a mobilidade sustentável. A construção de sistemas mais eficientes e ambientalmente responsáveis depende da integração entre diferentes meios de transporte.
Isso significa tornar simples e conveniente a troca de modal ao longo da viagem, considerando as características de cada região da cidade e as necessidades específicas de cada deslocamento. Em muitos casos, caminhar é a melhor opção para percursos curtos; em outros, a combinação entre bicicleta, transporte público e caminhada oferece a solução mais eficiente.
As soluções já existem e sua implementação é perfeitamente viável. O principal desafio está em planejar a jornada do usuário de ponta a ponta. Isso envolve facilitar o acesso às informações sobre os meios de transporte disponíveis, garantir conexões confortáveis entre os diferentes modais e assegurar que essas integrações não tornem a viagem excessivamente cara.
Exemplos
Embora a intermodalidade tenha avançado em algumas cidades brasileiras, os bons exemplos ainda são exceção. Entre eles estão os bicicletários implantados em estações da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), em São Paulo, e aqueles localizados junto às estações das barcas em Niterói, que realizam a travessia para a cidade do Rio de Janeiro. A combinação entre proximidade, custo acessível e segurança para guardar bicicletas e veículos autopropelidos estimula a integração com o transporte público e amplia suas possibilidades de uso.
Estacionamento de bikes em Niterói, junto às barcas que fazem o trajeto até o centro do Rio Foto: Danielle Hoppe
Experiências semelhantes podem ser observadas em cidades europeias e norte-americanas. Em bairros periféricos e áreas de baixa densidade populacional, é comum encontrar estacionamentos para automóveis e bicicletas junto às estações ferroviárias. Em muitos casos, o custo do estacionamento já está integrado ao bilhete de transporte público. O mesmo ocorre em viagens intermunicipais, nas quais a passagem pode incluir o acesso ao transporte local no município de destino. Também é frequente a possibilidade de transportar bicicletas e bicicletas elétricas dentro de trens e ônibus.
Na estação central de Freiburg, Alemanha, elevador dá acesso para ciclistas a um grande estacionamento de bicicletas, também com vagas para carros Foto: Danielle Hoppe

Pequenas adaptações nas escadas para o transporte de bikes em estações intermodais. Estação em Singen, Alemanha Foto: Danielle Hoppe
Os sistemas de compartilhamento de veículos também desempenham um papel importante nesse cenário. Bicicletas compartilhadas, veículos autopropelidos e automóveis compartilhados ajudam a resolver os últimos quilômetros da viagem, principalmente quando suas estações ou áreas de estacionamento estão próximas a pontos de transporte público. Dessa forma, fortalecem a continuidade dos deslocamentos e reduzem a dependência do automóvel particular.
Ponto de bicicletas e autopropelidos compartilhados em frente à estação de metrô em Milão, Itália Foto: Danielle Hoppe


Transporte de bicicleta em trens e ônibus em Toronto, Canadá. Fotos: Rodrigo Bessa
Informações
Mas a integração física é apenas parte da solução. A intermodalidade também depende da integração das informações e da coordenação entre diferentes serviços e esferas de governo. Disponibilizar, em um mesmo ambiente digital, informações sobre horários, disponibilidade e alternativas de transporte é um requisito básico para incentivar padrões de deslocamento mais sustentáveis.
Sem informação acessível e confiável, dificilmente haverá mudança de comportamento. Aplicativos de mobilidade podem reunir em uma única plataforma opções como transporte público, bicicletas compartilhadas, patinetes, carros compartilhados e serviços de transporte sob demanda.
Painel no aeroporto de Frankfurt indica tempo de caminhada até conexões de trem e ônibus, horários de partidas, distância por carro a cidades próximas e número de automóveis disponíveis para compartilhamento Foto: Danielle Hoppe
Aplicativo Hvv, de Hamburg, Alemanha, indica opções de transporte nas proximidades do usuário
Por fim, existe um elemento essencial para que a intermodalidade funcione de forma efetiva: a cooperação institucional. Como os diferentes serviços de transporte costumam ser operados por municípios, estados e governo federal, a integração depende da capacidade de colocar a experiência do usuário e os objetivos de sustentabilidade acima de disputas políticas e administrativas.
Para quem se desloca pela cidade, pouco importa qual órgão opera determinado serviço. O que realmente importa é que a viagem seja simples, eficiente, confortável e integrada. É justamente essa visão centrada no usuário que transforma a intermodalidade em um dos pilares da mobilidade urbana sustentável.
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Danielle Hoppe atua há mais de 15 anos na promoção do desenvolvimento urbano e mobilidade inclusivos, sustentáveis e resilientes ao clima. Acumula experiências no poder público, iniciativa privada e terceiro setor. É mestre em planejamento urbano pela McGill University, em Montreal (Canadá), e graduada em arquitetura e urbanismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Desde 2014, faz parte da equipe do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP Brasil)
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