📝 Coletivo da Mobilidade

A saga do idoso nas ruas de nossas cidades

Neste artigo, quase depoimento pessoal, Meli Malatesta traz dados, cita leis e conta por que é tão difícil envelhecer com uma vida ativa nas cidades brasileiras

Por Meli Malatesta
Caminhar, um ato de coragem principalmente para os

Caminhar, um ato de coragem principalmente para os idosos | Foto: Cidade a Pé/ Reprodução

A vida da pessoa idosa nas cidades brasileiras não é fácil. Não é à toa que ninguém se enxerga como pessoa velha. Muito pelo contrário, chamar alguém de idoso ou velho, mesmo sendo uma constatação, é considerado antes de tudo uma ofensa.   


Os anos passam, a idade chega, com as suas inevitáveis limitações, mas aceitar essa condição é difícil para a grande maioria. Até para os que se aceitam ou se conformam, ao se autodenominarem idosos, são imediatamente advertidos pela assistência: "imagine!", "não fale assim!"...


Também pudera, encarar a idade e a finitude da condição humana vivendo em cidades como as nossas é mais um motivo para cair em negação. E por falar em cair, quem é que nunca levou um tombo nas terríveis calçadas brasileiras? Imagine a pessoa idosa então. 

 

Calçadas quebradas são verdadeiras armadilhas para se levar um tombo Foto: André Ávila/Agência RBS


O médico recomenda pelo menos meia hora de caminhada todos os dias para combater a hipertensão, diabetes, artrose. Meia hora enfrentando o desafio de torcer o tornozelo e até fraturar o fêmur em algum buraco, desnível ou raiz de árvore pelo caminho.  


Mesmo olhando para o chão se cai... Ou ao atravessar a calçada corre-se o risco de não ver um veículo saindo imprudentemente de sua garagem (como se os automóveis tivessem prioridade também nesse espaço). E ainda: não é raro o pedestre levar bronca quando não vê o carro avançando nesse seu pedaço de caminhada.


E para atravessar a via?
Como quase todo trajeto que se faz a pé envolve travessias, assim também ocorre com as mazelas da calçada que continuam nas travessias. Atravessar ruas nas nossas cidades também não é moleza. Primeiro porque nem sempre há o zebrado branco que identifica uma travessia no local onde ela realmente ocorre. E quando há, espera-se que a pessoa idosa tenha reflexos que funcionem a contento, ou que seu caminhar não seja tão lento e arrastado. Isso porque dificilmente o condutor irá parar para dar prioridade ao pedestre, como manda a lei (Art. 70  CTB).   


Quando a travessia é semaforizada com foco que avisa o tempo para cruzar a via, a situação fica ainda pior. Explico: de acordo com o Manual Brasileiro de Sinalização Semafórica, o tempo de travessia é calculado com base na distância a ser atravessada em passos de pedestre, com valor hipotético de 1,2 metro por segundo. Este valor é quase o dobro da velocidade do pedestre idoso, que é 0,7 metro por segundo (Duim, 2017) tornando impossível para estes cidadãos exercerem seu direito de usar a cidade.  

 

Idoso ou não, o tempo do semáforo aberto dura segundos Foto: Marcos Santos/USP Imagens   


Para piorar mais a situação, o pouco tempo que o pedestre tem para atravessar ainda é dividido irresponsavelmente em alguns segundos (4 a 5s) de foco verde e o restante de vermelho piscante, a partir do qual nenhum incauto se atreva a iniciar a travessia, o que contraria diretamente o § Único do Art. 70 do CTB.


Assim, neste cenário inóspito, caminhar se torna um ato de coragem ou falta total de juízo, principalmente para idosos. De acordo com dados do Infosiga, no primeiro semestre de 2026 cinco idosos em média foram atropelados por dia na Grande São Paulo. É como se perdêssemos no mesmo dia os quatro avós que todos temos e ainda, de quebra, mais um tio-avô do coração. 

 

Cinco idosos atropelados este semenstre na RMSP Foto: Rovena Rosa/ EBC

 

Que tragédia, hein? Difícil viver o cotidiano sendo parte do público-alvo de uma estatística dessas. Sair de casa sem saber se vai conseguir voltar vivo, ou de costelas ou bacia quebradas. 


E nem sempre dá para não sair, se lembrarmos que as atuais regras de aposentadoria obrigam as pessoas a trabalharem por mais tempo: 62 anos, para mulheres, e 65 anos para homens, ambos já participantes da fatia de idosos do país. Acho que deu para entender melhor porque é difícil se enxergar idoso.


Clique aqui e veja a entrevista dada pela autora ao G1, em que falou mais sobre o tema. 

 

 

Maria Ermelina Brosch Malatesta é arquiteta e urbanista formada pela FAU Mackenzie. Mestra e doutora em Mobilidade Urbana Ativa pela FAU USP, atua como consultora em políticas públicas, planos diretores de mobilidade e projetos de sistema viário e espaço público para a mobilidade ativa, a pé e por bicicleta. Autora dos livros Pé de Igualdade e A Rede da Mobilidade a Pé.

 

Voltar