📝 Coletivo da Mobilidade

Travessia segura na Ponte JK, em Brasília, é novamente adiada

Após anos de idas e vindas por órgãos do Governo do DF, decisão para instalar semáforos na perigosa via é suspensa, apesar de diversos atropelamentos e mortes registrados

Por Uirá Lourenço
Pedestres se arriscam para atravessar a via na Pon

Pedestres se arriscam para atravessar a via na Ponte JK | Foto: Uirá Lourenço

Resolvi publicar um novo texto sobre a via sangrenta que leva à Ponte JK, em Brasília. Com extensão de 4,8 km e sem qualquer local seguro de travessia, centenas de trabalhadores desembarcam ali dos ônibus e atravessam entre os carros. Só após eu insistir com base na Lei de Acesso à Informação (LAI), consegui finalmente ver os últimos documentos no processo que trata das travessias na região¹. Seguem as informações que obtive:


Em agosto, já havia escrito aqui no Mobilize e em meu blog sobre a suspensão - por ordem da governadora Celina Leão - dos semáforos que estavam prestes a ser instalados naquele local. Agora retomo o tema com novidades. A suspensão ocorre apesar de dois documentos do Departamento de Trânsito (Detran/DF), assinados em julho - o Parecer Técnico 56//2026 e o Estudo Técnico Preliminar (ETP) - fundamentarem a decisão em favor dos semáforos e da travessia segura aos pedestres nessa via. 


O parecer técnico menciona os inúmeros questionamentos do Ministério Público (MPDFT) para garantir travessia segura, os inúmeros pareceres técnicos do Detran "sem definição de solução imediata", as inúmeras visitas técnicas ao local e diversas reportagens sobre a dificuldade na travessia de pedestres. O documento faz referência à Organização Mundial da Saúde (OMS), ao comentar a redução de riscos de acidentes ao se reduzir a velocidade. Segundo a microssimulação realizada, há viabilidade técnica para implantar travessias semaforizadas, mantendo condições satisfatórias de operação na via. 


O parecer assinado pelo diretor de engenharia de trânsito do Detran, Eduardo Dutra, é favorável às seguintes medidas:

- redução da velocidade máxima de 80 para 60 km/h;
- implantação de travessias de pedestres semaforizadas;
- adequação da sinalização vertical e horizontal;
- implantação de das medidas complementares de acessibilidade, iluminação e proteção aos pedestres.
(Trecho do estudo técnico do Detran com ações propostas na via. Processo SEI-GDF)

 


Via da Ponte JK: sem locais seguros de travessia Foto: Uirá Lourenço

 

O Estudo Técnico Preliminar (ETP) detalha a proposta de travessias semaforizadas e redução do limite de velocidade para promover "maior segurança viária" e adequar "aos princípios da mobilidade urbana sustentável". O documento de 11 páginas traz dados e mapas que justificam e viabilizam a proposta. 


Sobre a microssimulação de tráfego em três trechos da via, os cenários foram considerados satisfatórios, "sem ocorrência de saturação significativa ou degradação substancial da fluidez do tráfego". Conclui-se pela viabilidade técnica de três travessias semaforizadas e pela redução da velocidade para 60 km/h.

 

O projeto de sinalização também foi anexado ao processo. As imagens mostram as placas, as faixas de travessia e outros detalhes na implantação da proposta.  

 


Imagem do projeto de sinalização do local de travessia Processo SEI-GDF


Vale lembrar que o projeto começou a ser implantado. O limite de velocidade foi reduzido para 60 km/h, com instalação de placas e totens eletrônicos do Detran. Os postes dos semáforos começaram a ser instalados, mas lamentavelmente a governadora Celina Leão (Progressistas) suspendeu a medida em 11 de agosto, "depois de ouvir inúmeras reclamações". Ela pediu que "o órgão de trânsito realize novos estudos para outras alternativas para garantir a segurança e o fluxo de veículos".

 

Trecho da via com postes de semáforos instalados Foto: Uirá Lourenço (13/8/2026)

 

Curiosamente, uma semana depois (no dia 18 de agosto) o diretor de engenharia do Detran, Eduardo Dutra, foi exonerado do cargo. Ele foi o autor da proposta de travessia segura e redução da velocidade na via.


No dia 17 de agosto foi incluído no processo o despacho do diretor-geral do Detran, Marcu Bellini, sobre a suspensão dos semáforos. No documento, o diretor afirma que "a suspensão da instalação dos equipamentos e a determinação de reavaliação dos estudos técnicos inserem-se no regular exercício da autotutela administrativa, diante da necessidade de analisar novamente a solução proposta e verificar a existência de alternativas que melhor atendam ao interesse público e à segurança viária".


Ou seja, após vários anos de idas e vindas entre órgãos do GDF (o processo é de 2022), diversos atropelamentos e mortes na via e várias reportagens sobre os riscos na via, a travessia segura é novamente adiada.

 


Visão Zero e Redução da Velocidade em outras vias
Conversei com Eduardo Dutra, autor do projeto de humanização da via que passa na Ponte JK. A arte para ilustrar o projeto (acima) destaca a Engenharia Cidadã, voltada aos mais vulneráveis e não apenas baseada no fluxo de automóveis. A Visão Zero também aparece na imagem, junto com a faixa de travessia e o semáforo. 


Além da redução de velocidade e da travessia semaforizada na avenida da ponte, ele propôs redução do limite de velocidade em outras vias administradas pelo órgão. O mapa abaixo detalha a proposta: limite de 50 km/h em boa parte das vias principais, incluindo o Eixo Monumental e os Eixinhos (cujo limite atual é de 60 km/h), e limite de 30 km/h em vias locais (por exemplo, W1 e L1) e na plataforma superior da rodoviária do plano piloto.  

 

Mapa com a proposta de redução de velocidade nas vias. Fonte: Eduardo Dutra


A redução/readequação da velocidade e as travessias seguras (acessíveis e com faixas sinalizadas, e não por passagens subterrâneas ou passarelas elevadas) são importantíssimas em qualquer programa de mobilidade e segurança no trânsito. É bom ver que o Detran propôs essas medidas. Espero que o Departamento de Estradas de Rodagem (DER/DF) também avance e se convença da necessidade de humanizar as vias, incluindo o Eixão, via expressa que corta a cidade ao meio. 


Quem sabe conseguimos as travessias com semáforos e a redução gradativa dos limites de velocidade em todo o DF. Fica o apelo à governadora para que deixe o órgão de trânsito atuar em favor da segurança no trânsito e da mobilidade sustentável (Semáforos Já!), antes que mais pessoas percam a vida ao se arriscar na travessia esbaforida no meio dos carros².


Notas
1. Fiz solicitação na ouvidoria do GDF em 27 de agosto. O prazo de resposta foi prorrogado por 10 dias e se esgotou sem resposta. Precisei entrar com recurso para, enfim, ter liberação de acesso ao processo 00002-00002610/2022-13 (SEI-GDF), no dia 5 de outubro.
 
2. Não me arrisquei a passar novamente pela via. A última vez foi no dia 13 de agosto, após a lamentável decisão de suspender os semáforos. Na ocasião fiz flagrantes e quase virei estatística ao tentar atravessar a via. Por sorte, deu tempo de recuar antes que um motorista veloz e furioso me atingisse. Para ver os vídeos, clique aqui e aqui. 

 

 

 

Uirá Lourenço é servidor público, ambientalista, admirador da natureza e um defensor incansável da mobilidade urbana, com foco nos modos saudáveis e coletivos de transporte. Morador de Brasília, optou por não ter carro, e usa a bicicleta no dia a dia para registrar com fotos e vídeos a mobilidade nas cidades por onde passa. É voluntário da rede Bike Anjo, colaborador do Mobilize e membro da Rede Urbanidade.

 

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