Mobilidade urbana sustentável exige mudança de mentalidade

Falta de mobilidade no país gera tensão diária e é desafio cotidiano da população das grandes cidades em seus deslocamentos ao trabalho, a escola, o médico e até o lazer

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Fonte: Mobilize Brasil  |  Autor: Luana Biral  |  Postado em: 09 de abril de 2018

Transporte público não é priorizado, apesar da alt

Transporte público não é priorizado, apesar da alta demanda

créditos: Mundo Livre/Reprodução

Segundo estudo realizado pela organização TomTom Traffic, o Rio de Janeiro ficou em quarto lugar no mundo entre as cidades onde se perde mais tempo no trânsito: são 43 minutos diários e 164 horas por ano. É a cidade mais congestionada da América do Sul. 

 

Além de poluição gerada pelos congestionamentos, há atrasos na entrega de mercadorias e serviços. O morador enfrenta obstáculos para caminhar em calçadas impróprias, ciclovias insuficientes, distâncias enormes, muitas horas perdidas no trânsito. 

 

Quem mora nas grandes cidades brasileiras precisa se locomover atravessando grandes distâncias, num espaço público disputado por pedestres, carros, bicicletas, ônibus, metrôs e trens. A destinação prioritária das ruas e sua ocupação, no entanto, continua a ser dos carros, em um país cuja frota desse tipo de veículo chegou a quase 36 milhões em 2016. 

 

Ao contrário do que a situação exige, a frota dos ônibus, destinada ao transporte coletivo, diminuiu 0,9% nas cidades brasileiras, segundo relatório do Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores), com base nos dados dos Detrans e Denatran, divulgado em maio de 2017.

 

Mudança de comportamento 

É ilusório imaginar que se pode atingir o objetivo de mobilidade urbana eficiente e sustentável para todos sem uma mudança de comportamento. É o que argumenta Jonna McKone em artigo publicado no TheCityFix (World Resources Institute).

 

Para que os atuais padrões de deslocamento nas cidades possam mudar, é preciso pensar em maneiras de influenciar e mudar as maneiras como a população adota seus hábitos de vida. E a mudança significa deslocar o foco principal do transporte urbano dos carros para as pessoas e o meio ambiente. 

 

As políticas públicas precisam se antecipar e planejar o melhor uso do solo e dos transportes públicos para que haja uma mudança no estilo de vida. Os espaços públicos devem encorajar o transporte a pé e as bicicletas, favorecendo a criação de locais de socialização e comunicação.

 

Na cidade de São Paulo, no entanto, a atual administração municipal vem revertendo a política de incentivo ao uso das bicicletas, deixando de criar ciclovias, que foi a marca da administração anterior, de Fernando Haddad (PT). 

 

Entre as medidas tomadas pela gestão atual da Prefeitura está o cancelamento de trechos de ciclovias, no Morumbi, zona oeste, e na Vila Maria, zona norte. As ciclovias, nesses locais, são utilizadas por trabalhadores no seu deslocamento para o trabalho, principalmente nos horários de pico, de manhã e à tarde. Foram removidas as sinalizações do solo para segurança do ciclista, como pintura vermelha, linha branca e tachas refletoras, sem nenhum aviso prévio ou justificativa. 

 

São ações que vão na contramão de todos os estudos já realizados sobre a utilidade do uso da bicicleta na cidade, um meio de transporte muito mais barato do que o carro e que pode ser  alternativa para pequenos deslocamentos também para quem tem carro. Não apenas o transporte em todo mundo por bicicleta está crescendo, como está aumentando o compartilhamento da bicicleta. 

 

Depois de medidas como redução da segurança nas ciclovias e o aumento da velocidade permitida nas vias expressas marginais, o resultado é que aumentou em 48% o número de mortes de ciclistas na cidade de São Paulo no ano de 2017. 

 

Pessoas que vivem em ruas de tráfego pesado não costumam interagir e há entendimento que o trânsito intenso acaba com o senso de comunidade. Quanto mais as pessoas caminham ou usam a bicicleta, por exemplo, mais as ruas se tornam seguras para todos, especialmente para crianças e idosos e outros usuários vulneráveis. As cidades que implementaram o compartilhamento das bicicletas também adotaram a infraestrutura necessária, o que é essencial para que as pessoas usem a rua de formas diferentes.

 

Soluções precisam vencer resistências

O carro próprio, nas cidades brasileiras, continua sendo visto como essencial e insubstituível por muitos. Isso ocorre não apenas pelo status decorrente da propriedade de um carro, mas em virtude de décadas de um transporte público ineficiente, desconfortável e insuficiente. Para mudar o comportamento do público em relação ao carro é preciso oferecer boas opções de transporte público. São necessários mais linhas de metrô, trens e ônibus, além das bicicletas e o incentivo ao transporte a pé, como praças de descanso, com bancos e facilidades para o pedestre. 

 

É preciso estabelecer uma rede de serviços de transporte, que envolva a tecnologia da mobilidade, com informações para os usuários, como horários dos ônibus e trens em tempo real e alternativas complementares de compartilhamento de carros ou bicicletas.

 

O público precisa receber um serviço de transporte público que seja limpo, seguro e confortável, que seja conveniente para todos os segmentos sociais e não apenas para pessoas de baixa renda, mudando essa concepção limitadora, o que é essencial. A opinião pública sobre o transporte público é muito importante para que possa ser aceito como substituto do carro próprio, ao lado da política de tarifas mais acessíveis e do planejamento inteligente de linhas. 

 

Cruzamento da Av. Faria Lima e Juscelino Kubitschek, em SP. Foto: Autoescola Online/Reprodução

 

Vantagens do compartilhamento

Confirma-se em todo o mundo a tendência ao transporte compartilhado, não só de bicicletas, mas também de carros. É uma forma de reduzir o trânsito intenso e diminuir as despesas com transporte. 

 

No Brasil, os sistemas de carro compartilhado ainda não operam com frota própria, mas com cadastro de proprietários de veículos, em sites destinados a esse fim. Os interessados no acesso a um carro entram em contato com os proprietários e as empresas atuam como intermediárias. 

 

O compartilhamento de carros já é sucesso em outros países do mundo, como o Canadá, onde as próprias montadoras já entraram nesse mercado, com bons resultados. A opção do tipo mão única, em que se pode devolver o carro, estacionando em um local determinado, para que possa ser utilizado por outra pessoa, é a que faz mais sucesso. Há projeções para o crescimento do mercado mundial de carros compartilhados, que preveem um crescimento de 1.1 bilhão de dólares em 2015, para 6.5 bilhão de dólares em 2024.

 

O que está em jogo, enfim, é um questionamento da necessidade de ser proprietário de um veículo e esse tipo de negócio ajuda a mudar a mentalidade a respeito da propriedade, favorecendo o bem estar coletivo dos moradores da cidade. 

 

Para um sistema de transporte urbano que seja sustentável e melhore a qualidade de vida nas cidades é preciso integrar as diversas alternativas, individuais e coletivas, com criatividade e dando prioridade para as pessoas. Precisamos ter a esperança de que as ruas voltem a ser um local de convivência e esse não é apenas um sonho. Existe entre especialistas em mobilidade a tendência de valorização da cidade, no sentido de ser mais habitável, sustentável e justa. A mobilidade nas áreas urbanas é reconhecidamente importante para facilitar o crescimento e o emprego e para o desenvolvimento sustentável.   

 

As soluções para os desafios da mobilidade urbana sustentável envolvem o uso de energias limpas, com incentivos à fabricação e comercialização de veículos elétricos, trens modernos, seguros e pontuais, ciclovias seguras, linhas de metrô bem planejadas, sistemas de compartilhamento de bicicletas públicas, compartilhamento de carros, ônibus com biocombustível, confortáveis e limpos. 

 

Teleférico (Metrocable) de Medellin, Colômbia. Foto: Torrepoblado.com/Reprodução

 

Em termos de criatividade, não podemos deixar de citar o teleférico (Metrocable) de Medellin, na Colômbia. Ele solucionou o problema do acesso dos moradores de locais íngremes e é integrado às linhas de metrô, não sendo apenas um equipamento turístico, como no Rio de Janeiro. Medellin, que era considerada uma das cidades mais perigosas do mundo, na década de 1990, passou hoje a ser uma das mais inovadoras e progressistas, graças também ao seu excelente transporte público.

 

O teleférico na cidade colombiana opera desde 2004 e transporta mais de 30 mil pessoas por dia, mas brevemente será expandido para três novas linhas. Esse é um exemplo de desenvolvimento consciente para as necessidades sociais, integrando as populações mais pobres à vida da cidade.

 

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