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 A cidade das pressas. Tempos, passos e espaços – Passos e Espaços
Passos e Espaços

29
abril
Publicado por Irene Quintáns no dia 29 de abril de 2015

Abrimos este blog para conversar sobre mobilidade urbana e espaço urbano, mas também sobre nossos tempos, momentos e encontros na cidade. Para as crianças as cidades são uma rede de oportunidades e descobertas, que nós costuramos com nossos passos.

A cidade está feita para caminhar, para nos locomover, para nos encontrar: “As ruas chegam a todos os lugares da cidade, as pessoas podem decidir onde ir”, fala um menino. A cidade das crianças está cheia de pessoas fora da sua casa, na rua, nas lojas. Tudo está relacionado… é difícil imaginar uma descrição mais linda do ecossistema urbano, onde nada é autossuficiente”(1). “Se não dá sinal os carros passam e as pessoas ficam sem passar para ir na casa de alguém” fala a menina(2).

 

Desde 2011 moro em São Paulo. Capital financeira da América Latina com o maior PIB entre as cidades do Brasil e o décimo entre as cidades do mundo. São Paulo também é uma das cidades mais multi-culturais do mundo: aqui está o maior número de pessoas de origem italiana, portuguesa, japonesa, espanhola, libanesa e síria fora de seus países. Entre eles estou eu e meus filhos. Mas sobretudo, é a cidade das pressas. Aqui, o horário de pico, quando há mais trânsito, é conhecido como “hora do rush” (termo inglês que significa pressa). A hora do rush é cedo (6-7am) e na hora de saída do trabalho (18pm), com um novo horário rush ao meio-dia (12pm), quando as crianças saem ou entram nas escolas. E nas poucas horas que há entre os “rush” oficiais, continua havendo pressa. As pessoas saem do vagão do metrô e correm para as escadas rolantes, que sobem correndo. Todos correm. Todos estão chegando tarde ou querem chegar primeiro. Ou seguem a inércia da pressa.
Ainda com as árvores floridas nos surpreendendo com suas cores, as ruas da cidade habitualmente não têm condição de lugar. São espaços entre prédios usados para transladar-se (com pressa) a algum outro ponto da cidade. Não há sombra, não há onde se sentar e onde poderia existir essa possibilidade costumam-se colocar elementos físicos assustadores.

 

Foto 1 Irene Quintans

Foto 2 Irene Quintans

 
E o tempo e o espaço? Têm lugar? Por que não há bancos? Por que não podemos parar?

 

Nos shoppings podemos, sim, encontrar bancos (poucos). Comprar cansa e há que repor forças. Em casa também podemos nos sentar, preferivelmente na frente da televisão, para ver os comerciais e depois voltar ao shopping.
E nossas crianças? Como percebem esse rush, essa pressa, o ir e vir acelerado? O não ter onde sentar?

 

As crianças são o grupo mais suscetível às mudanças de hábito e que atua como difusor dos costumes adquiridos. Seus pontos de vista são esquecidos e não valorizados na nossa vida de adultos. “Juca quase se perdeu naquela floresta de pernas que caminhavam ritmadas para dentro do edifício de escritórios. Ele falava com um, perguntava para outro, mas ninguém o ouvia” (3).
Será que eles pensam sobre o sentar na cidade?

 

“Nós, as crianças da cidade de Rosário (Argentina) estamos plantando bancos nas praças e calçadas para que os adultos lembrem, que quando eles sentam atentos ao que nos rodeia, nos sentimos mais acompanhados. Juntos podemos criar um novo conceito de segurança urbana…os convidamos a sentar”

 

Cada criança está dentro de uma bolha invisível que marca o espaço disponível e o tempo concedido para a cada coisa. É a bolha do “aqui” – do “já” – do “vem” – do “te apresses” – do “aí não pode” – do “apressa que chego tarde”. A bolha dentro da qual é transportado de um lugar a outro, de um espaço fechado a outro, em carro, com pressa. Porque chegamos tarde.

 

Bolha

Os diferentes modos de mobilidade urbanos têm um tempo associado. O carro, a pressa. A bicicleta, a liberdade, o ar fresco no rosto. E o caminhar, o próprio ritmo.

 

E o ritmo delas, das crianças?

 

“Eu começava minhas frases falando Anda logo, vamos chegar atrasados. Eu começava meu dia com elas. Anda logo e vai se vestir. Um dia meus olhos se abriram. Eu enxerguei os danos que minha existência apressada estavam causando em minhas duas filhas. Minha voz tremeu, mas eu olhei nos olhos da minha pequenininha e disse: Desculpa por estar fazendo você se apressar tanto. Eu adoro que você faz as coisas com calma e queria ser mais parecida com você” (4).

 

O numero de crianças com distúrbios não cresce. O que aumenta, na verdade, é o número de sedentários (5). Sentados, fechados, quietos. E sempre a pressa.

 

“Mamãe, quando estou na escola, ¿onde teria que estar?” A mãe não entendia o que lhe queria dizer, e o menino lhe aclarou “quando volto da escola vc me diz que teria que estar fazendo a lição de casa, quando fazendo a lição de casa vc diz que teria que estar no banho, quando estou no banho dizes que teria que estar jantando e quando estou jantando que teria que me estar escovando os dentes. De forma que quando estou na escola… ¿onde teria que estar?”. É como se as crianças sentissem que sempre estão no lugar equivocado fazendo o que não toca. E é muito triste porque os únicos que sabem viver o momento, o instante presente, são os meninos. Estamos a fazê-los à nossa medida, em vez de aprender deles” (6).

 

O tempo…tantos segundos por dia (86.400) e ao mesmo tempo tão escasso? Quantos instantes? E o espaço do sonho, o espaço percorrido, o espaço percebido, o espaço sentido?
E aí entram os caminhos escolares, iniciativas que incentivam que as crianças façam o trajeto casa-escola a pé ou de bicicleta, com amigos e/ou adultos. As referências, os mapas mentais. “Minha percepção do mundo”.

 

Caminhar com outros amigos, conversar, respirar.

 

Foi-se a bolha, é o tempo da cada um. “Sou um furacão. Falo demais, faço demais, penso demais, sinto demais. Nessa agitação toda, encontro coisas que me param” (7)

 

Anna Bolena

Foto 5 Irene Quintans

 

 

A cidade da pressa pouco a pouco vai se “humanizando”. Planos, projetos, microprojetos, ideias, novas energias. Há esperança na cidade, pouco a pouco. Enquanto são gestados caminhos escolares, outras mobilidades urbanas, outros espaços, levemos a nosso filhos a comprar o pão, sentarmos (se encontramos onde), bater um papo. Que eles possam sentir “eu sou”, “eu estou”, “reconheço-me nesta cidade”.

 

Referências:
1. TONUCCI, Francesco. Cuando los niños dicen basta! Ed. Losada. Buenos Aires (2010)
2. Oficina Ruas Completas da Red OCARA para Greenpeace, Semana da Mobilidade 2014. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=tVCMf3otDIc
3. AMOS, Eduardo. A cidade muda. Editora Moderna. São Paulo (1987)
4. “O dia em que parei de dizer Anda Logo” Texto original da Rachel Macy Stafford, disponível em português em http://revistacrescer.globo.com/Familia/Rotina/noticia/2013/12/o-dia-em-que-parei-de-dizer-anda-logo.html
5. Blog Diirce “Crianças sentadas ou hiperativas?” Disponível em http://goo.gl/WK2Bew
6. L’ECUYER, Catherine, Educating in Amazement (2015)
Imagens:
Fotos crianças 1,2 e 5: Irene Quintáns
Foto 3 – bolha: janeendittmann.blogspot
Foto 4: Desenho de Anna Bolenna – A perturbada da corte http://goo.gl/qs42Bh



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Irene Irene Quintáns é arquiteta urbanista com pós-graduação em Estudos Territoriais, Políticas Sociais, Mobilidade, Habitação e Gestão Urbanística. Trabalhou nas Prefeituras de Barcelona e São Paulo (SEHAB, Obra de Urbanização de Paraisópolis). Fundadora e diretora da Rede OCARA (www.redocara.com), rede latino-americana de experiências e projetos sobre cidade, arte, arquitetura, mobilidade urbana e espaço público nos quais participam crianças. Através da Rede amplifica experiências, articula projetos em rede e organiza oficinas e palestras para dinamizar o pensamento crítico infantil e adulto sobre temas urbanos. Afiliada a IPA Brasil, Associação Brasileira pelo Direito de Brincar e à Cultura (ipabrasil.org).
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