A arquiteta Suzana Nogueira, que dá início a esta coluna, atua com projetos de mobilidade urbana, é ciclista, caminhante, defensora da acessibilidade. Em 2015, era ela à frente da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-SP), na difícil missão de coordenar e planejar a malha cicloviária da capital paulista, obra que impulsionou inúmeras outras nas cidades brasileiras. Neste primeiro artigo, a urbanista analisa e dá dicas aos gestores sobre como pensar a infraestrutura cicloviária para uma cidade realmente pedalável.
"Pedalar na cidade é algo transformador para quem se aventura ou ao menos já experimentou a bicicleta. É encantadora a sensação de sentir vento no rosto, um cheirinho de pãozinho recém-assado ou olhar o encanto da paisagem...
Mas ninguém começa a pedalar de um dia para o outro. Há um processo de preparação prévia, que requer alguns cuidados, pois circular de bicicleta ainda é um desafio em relação à segurança viária. Além disso, é necessário que a cidade apresente condições que garantam a circulação dos ciclistas nas vias, pois os riscos do trânsito podem ser uma surpresa desagradável e desestimular quem tem o desejo de usar a bicicleta.
Por isso, ficam algumas dicas para a preparação de uma cidade pedalável:
1. Ter infraestrutura própria para a circulação de ciclistas, sejam ciclovias ou ciclofaixas, de modo a garantir uma segurança muito maior do que no convívio com outros modos motorizados;
2. Ciclovia e ciclofaixa devem ser planejadas principalmente nas vias principais, como avenidas, pontes e viadutos, pois ciclistas também querem percorrer a menor distância para chegar aos locais de interesse. Claro que ciclopassarelas, que são travessias exclusivas para ciclistas, podem ser criadas para favorecer novos acessos e facilitar o trajeto de ciclistas;
3. Cruzamentos viários são o maior ponto de conflito, e devem garantir a priorização da circulação de bicicletas e a segurança de ciclistas. São locais que merecem atenção no desenvolvimento do projeto, sendo muito adequada a adoção de medidas de moderação de tráfego, como estreitamento de vias, áreas demarcadas para espera junto aos semáforos, ajustes de raios de giro, entre outras;
4. Bicicleta é para todas as idades, e um bom planejamento avalia suas propostas pensando que crianças possam circular acompanhadas, assim como pessoas de diferentes faixas etárias e diferentes condições físicas;
5. Infraestrutura cicloviária deve servir a todos tipo de ciclista. Portanto pensar em diferentes modelos de bicicletas é o primeiro passo para criar espaços cicloinclusivos. Bicicletas cargueiras, handbikes e triciclos são exemplos de modelos que podem inspirar o entendimento e melhorar o desenho cicloviário;
6. Veículos em baixa velocidade garantem maior segurança para todas as pessoas que usam as ruas; portanto, velocidades até 30 km/h são as mais favoráveis, associadas a um desenho de via que garanta que os veículos não excedam esse limite;
7. Circular nas calçadas não é legal, ainda mais porque é fundamental garantir o espaço seguro, confortável e tranquilo para os pedestres. Claro que em alguns casos é uma situação quase sem escolha; por isso é importante pensar em infraestrutura cicloviária que ocupe espaço da pista, de modo a que o ciclista só precise utilizar a calçada para acessar as edificações;
8. Planejar a infraestrutura cicloviária criando processos de participação social com representantes de diferentes perfis e de diferentes territórios da cidade é essencial para garantir o sucesso do planejamento e ter apoio no processo de implantação;
9. Infraestrutura cicloviária combina com áreas de descanso e lazer. Assim, projetar conexões, espaços de recepção, estações de autoatendimento e bebedouros ao longo dessas áreas é algo sempre bem-vindo;
10. Toda bicicleta precisa ser estacionada. Pensar em bicicletários adequados, seguros e com monitoramento é fundamental para o sucesso de um bom planejamento.
Ciclovia da Av. Paulista, em São Paulo: atrai até fotógrafos! Foto: Suzana Nogueira
E aí vai mais uma dica extra para planejadores que não têm ainda a experiência com a bicicleta:
Ouçam os ciclistas. E pedalem... Sintam as dificuldades de circular na cidade. Pedalem nos dias da semana, à noite, mesmo que no começo tenha necessidade do apoio de outras pessoas. Entender na pele as questões que envolvem a realidade de ciclistas permite que se avalie e se planejem as melhores soluções."
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*Suzana Nogueira é arquiteta urbanista e pedagoga, e atua na promoção da mobilidade justa, inclusiva e sustentável nas cidades. Possui longa experiência na gestão, planejamento, projetos e condução de processos de participação social na área da mobilidade no setor público, privado e terceiro setor.
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