Os efeitos das mudanças climáticas deixaram de ser um debate abstrato e já moldam o cotidiano das pessoas nas cidades brasileiras.
A pesquisa Clima, Trabalho e Transição Justa, realizada por AuroraLab e More in Common em nove capitais, revelou que 85% dos entrevistados percebem interferências diretas da crise climática em suas vidas. Desses, quase metade (46%) classifica os impactos como intensos. Não se trata apenas de eventos extremos ocasionais: trata-se de um processo contínuo que afeta o custo de vida, a saúde física e mental, o acesso ao trabalho e a renda.
Entre os efeitos mais citados, destacam-se o aumento do custo de vida (53%) e problemas de saúde física (45%). No entanto, chama atenção que 40% das pessoas relatam obstáculos para chegar ao trabalho — um dado que evidencia o papel central da mobilidade urbana no contexto da crise climática. Afinal, quando o deslocamento diário se torna mais difícil, instável ou perigoso, as consequências extrapolam a esfera individual e atingem a produtividade econômica e o funcionamento das cidades.
Esse cenário exige respostas assertivas, tanto do poder público quanto do setor privado. Adaptar os sistemas urbanos às mudanças climáticas não é mais opcional — é condição para garantir o funcionamento básico das cidades e passa, necessariamente, pela mobilidade.
Temporais intensos impactam os deslocamentos à saída do trabalho no Rio Foto: Danielle Hoppe
O setor de transportes é um dos principais responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa nas cidades, especialmente devido ao uso intensivo de automóveis movidos a combustíveis fósseis. A redução dessas emissões se enquadra nas chamadas ações de mitigação de gases de efeito estufa e implica em desestimular o uso do carro. Em paralelo, é crucial que se amplie e qualifique alternativas sustentáveis, como transporte público limpo, infraestrutura cicloviária segura e condições adequadas para a caminhada. Não se trata apenas de uma agenda ambiental, mas de qualidade de vida urbana.
Mobilidade ativa: investimento para reduzir emissões e preparar a cidade para o clima adverso Foto: Danielle Hoppe
Ainda que as ações de mitigação sejam essenciais, elas não eliminam a urgência da adaptação. Eventos extremos — como ondas de calor, alagamentos, enchentes, tempestades e secas — já são mais frequentes e intensos, expondo fragilidades históricas da infraestrutura urbana. E esses impactos não são distribuídos de forma equitativa: atingem especialmente territórios periféricos, onde a infraestrutura é mais precária e os investimentos, historicamente escassos.
Nesses contextos, os efeitos da crise climática sobre a mobilidade são ainda mais severos. Aumenta o tempo de deslocamento, piora o conforto das viagens e restringe-se o acesso a oportunidades de trabalho, educação, saúde, lazer e outros serviços. Grupos já vulnerabilizados — como idosos, pessoas com deficiência, mulheres, cuidadores e a população negra — enfrentam barreiras adicionais.
Qual o caminho?
Diante disso, é fundamental que as cidades adotem medidas urgentes e estruturantes. No curto prazo, é essencial mapear riscos climáticos e identificar as populações mais vulneráveis, integrando essas informações em planos de resiliência. Protocolos de resposta precisam considerar a mobilidade como eixo estratégico: rotas alternativas para o transporte público, comunicação eficiente entre órgãos municipais e cuidados específicos para trabalhadores e usuários em situações como calor extremo.
Centro de Operações (RJ): gestão integrada e planejamento para monitorar a mobilidade Foto: D. Hoppe
Ao mesmo tempo, soluções baseadas na natureza devem ganhar escala. A drenagem urbana sustentável — que privilegia a infiltração e retenção da água no próprio território em vez do escoamento rápido para galerias e rios — é crucial para reduzir alagamentos. A ampliação de áreas permeáveis, a arborização urbana e a incorporação de infraestrutura verde em corredores de transporte, ciclovias e estações contribuem para mitigar ilhas de calor, melhorar o conforto térmico e aumentar a resiliência das cidades.
Arborização urbana: conforto térmico, infiltração de água e biodiversidade Foto: D. Hoppe
A crise climática já está em curso, e seus efeitos são concretos na mobilidade, na saúde e na economia urbana. A inação não é uma opção. É preciso pressionar gestores públicos e líderes empresariais para que implementem políticas baseadas em evidências, integrando mitigação e adaptação. O futuro das cidades — e a qualidade de vida de quem vive nelas — depende das escolhas que fazemos agora.
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Danielle Hoppe atua há mais de 15 anos na promoção do desenvolvimento urbano e mobilidade inclusivos, sustentáveis e resilientes ao clima. Acumula experiências no poder público, iniciativa privada e terceiro setor. É mestre em planejamento urbano pela McGill University, em Montreal (Canadá), e graduada em arquitetura e urbanismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Desde 2014, faz parte da equipe do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP Brasil)
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