Ciclovias em SP: licitação suspensa e faixas atuais sem manutenção

Edital para ampliar malha cicloviária na capital é cancelado de novo pelo TCM, que vê risco de sobrepreço. Enquanto isso, ciclistas convivem com faixas quase abandonadas

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Fonte: Mobilize Brasil  |  Autor: Regina Rocha/ Mobilize Brasil  |  Postado em: 16 de abril de 2026

Ciclofaixa na ZN: quase apagada, com lixo e caminh

Ciclofaixa na ZN: quase apagada, com lixo e caminhão parado

créditos: Danilo Sousa

A semana começou com despacho da Prefeitura de São Paulo autorizando a licitação que decidiria a implantação de 158.145 metros de novas estruturas cicloviárias na cidade, com pregão marcado para quinta-feira (16). 

 

Mas o processo foi cancelado. Já na terça (14), o Tribunal de Contas do Município (TCM-SP) emitiu comunicado suspendendo a concorrência, porque, segundo a auditoria do órgão, havia indícios de possíveis irregularidades nos preços, com "riscos ao erário e ao interesse público", entre outras irregularidades. 

 

Desse modo, ao que parece o plano de expansão das ciclovias da capital, lançado em 2023, emperrará novamente. Antes, houveram duas outras revogações e sucessivos imbróglios, momentos em que o órgão fiscalizador dos recursos municipais apontou inconsistências e risco de sobrepreço (de R$ 31.445.763,56) na concorrência. As obras de ciclovias são avaliadas pela gestão em R$ 357 milhões, mas o Tribunal pede revisão da planilha orçamentária e do valor de referência. No site Diário do Transporte há mais detalhes sobre a suspensão do certame. 

 

Mesmo assim, a administração municipal reafirma o Programa de Metas 2025–2028, que prevê atingir 1.000 km de estrutura cicloviária na cidade até 2028, com a implantação de 233 km no período e manutenção de outros 150 km. 

 

Hoje a capital paulista soma extensos 744,7 km de faixas cicloviárias implantadas. Mas quem pedala com regularidade, sobretudo os que se deslocam nos bairros de periferia, reclamam da falta de manutenção, e dizem que, mesmo quando executados, os serviços, em geral terceirizados, pecam pela qualidade.  

 

De norte a sul da cidade, há registros de queixas do tipo: falhas de sinalização, pintura desbotada, trincas no piso, iluminação e arborização deficientes, buracos no asfalto, tachões de segurança arrancados ou não repostos durante as reformas. Sem contar a falta de fiscalização do trânsito, para punir motoristas que praticam barberagens e põem a vida do ciclista em perigo, além de impedir o uso indiscriminado dos ciclomotores nas ciclovias. Nesse cenário nada tranquizador, motoristas se sentem à vontade para invadir áreas exclusivas para bicicleta e fechar ciclistas nas esquinas, e veículos elétricos sem pedal passam a mais de 25 km/h nas ciclovias, dando sustos em quem pedala uma bicicleta convencional.  

 

Segundo a Prefeitura, obras de requalificação e de implantação de novas estuturas para ciclistas estão sendo realizadas, como informa nota da Secretaria Executiva de Mobilidade e Trânsito (Semtra), em resposta aos questionamentos do Mobilize: 

 

"Em 2025, os programas de implantação e manutenção da malha receberam investimento de R$ 64,7 milhões. Desde o ano passado, foram implantados 25,6 km de estruturas cicloviárias* e, desde 2024, o Programa de Manutenção Permanente da Malha Cicloviária recuperou 186,3 km; mais de 120 km na atual gestão. Para 2026, estão previstos R$ 146,9 milhões para ampliação e manutenção da malha, com recursos mantidos, sem alterações para outros projetos." A gestão também afirma que, constatada alguma inconformidade nas implantações, há uma "garantia de obra" que pode ser acionada pelo usuário. E ainda que, se necessário, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) realiza vistorias emergenciais em ciclovias e ciclofaixas.

 

A visão de quem pedala 
Desde criança em Minas Gerais, o engenheiro e urbanista Mateus Humberto lembra de se deslocar por bicicleta. Hoje ele pedala 15 km diários para percorrer do centro da capital paulista, onde mora, até o departamento de Direitos de Transporte da Escola Politécnica da USP, onde leciona. Não usa carro, diz ele, por considerar o pedal "o meio mais rápido, barato, prático e saudável de se locomover". Diga-se, Mateus é um especialista em mobilidade, com doutorado em sistemas de transportes pela Universidade de Lisboa.

 

Mateus e sua companheira de andanças por SP no campus da USP Foto: Acervo pessoal  

 

Na sua opinião, a bicicleta esteve um período entre as prioridades das políticas para São Paulo, em especial a partir de 2015. Porém, passado alguns anos, o modo sustentável de mobilidade deixou de preocupar os gestores, mais voltados a abrir espaços para o trânsito de carros e motos. Vieram então os retrocessos. Mateus lembra que a infraestrutura envelheceu, mas que as falhas no desenho cicloviário estão presentes desde o início: "Vemos ciclofaixas que foram implantadas junto às sarjetas, com grelhas de drenagem dividindo o espaço da circulação das bicicletas. Quando chove, lógico, alaga...".

 

Ele brinca que são as chamadas "ciclolinhas", faixas muito estreitas, espalhadas por toda a cidade, onde o ciclista tem que se equilibrar bem, mas sempre corre o risco de cair e ser atropelado. Exemplo é a ciclofaixa da avenida Rebouças, que Mateus utiliza diariamente: descontada a sarjeta propriamente, sobra uma área útil de apenas 30, 40 cm, conta. 

 

Os problemas permanecem, mesmo contrariando as recomendações do manual da CET-SP, que prevê a medida ideal 1,5 m para a ciclovia de uma mão (unidirecional) e de 2,5 m para bidirecional (duas mãos); e a faixa mínima de 1 m para unidirecional e 1,8 m para bidirecional.

 

Trecho de ciclovia da av. Escola Politécnica, no Rio Pequeno, zona oeste de SP, foi "encaixado" no canto estreito de calçada, com poste no meio. Flagrante de Rogério Viduedo (Jornal Bicicleta)

 

Outra reclamação antiga dos ciclistas é de que parte da estrutura planejada apresenta trechos segmentados, sem conexão direta entre as diferentes regiões da cidade. Para o especialista da Poli, a Prefeitura também não avançou na redução da velocidade regulamentar nas vias, que seria essencial para tornar seguro o tráfego de ciclistas e pedestres. E estimularia o uso da bicicleta por idosos, crianças, mulheres, que veem nesse ambiente violento um impeditivo para uma experiência com a mobilidade ativa.  

 

Outro ciclista, o músico Danilo Sousa, pedala toda quarta-feira cerca de 2O km (e outros 20 km na volta), de sua casa na zona norte até uma escola no bairro do Campo Belo, na zona sul, para ensinar violão. Conta que em todo o percurso, as ciclovias revezam bons e maus caminhos. Fatores que atrapalham, na sua opinião: falta de conexão entre uma faixa de bicicleta e outra; a alta velocidade do trânsito de carros e motos; a poluição dos escapamentos; a pressão dos autopropelidos e ciclomotores nas ciclofaixas; os trechos áridos, sem arborização; e a falta de mais estrutura de segurança, como as lombofaixas que, observa, foram sendo aplainadas e hoje quase não funcionam para segurar o trânsito nos cruzamentos. Do lado bom de pedalar, Danilo destaca a própria pedalada, que é seu exercício principal e que até melhora o humor, e poder cruzar parques como o Ibirapuera e ruas sombreadas e calmas.      

 

Bicicletários

Também faltam locais para deixar a bicicleta em segurança e ter assim como combinar o uso da bicicleta com o transporte público. Dados da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transportes (SMT) e a SPTrans trazem o levantamento dos bicicletários instalados nos terminais de ônibus: na zona leste, são 879 vagas em 12 terminais; na zona sul, as vagas oferecidas aumentaram de 847 para 1.527 em 18 terminais, também graças à inclusão dos novos terminais hidroviários.

 

Mas, numa megalópole do porte de São Paulo, com demanda alta, os investimentos precisariam vir de várias frentes: governo do estado, comércios, instituições, empresas... Mateus conta que já não consegue parar sua bike no bicicletário do Largo da Batata, em Pinheiros, devido ao grande número de ciclistas de entrega que lotam o local.

 

Observa ainda que o pior são vários bicicletários que foram sendo desativados nos últimos anos em estações de metrô e trens da CPTM: na Barra Funda, Sé, Liberdade, e outros locais. 

 

Com a falta de prioridade política, embora o número de ciclistas continue aumentando, a capital paulista tem afastado muitos ciclistas potenciais, aquelas pessoas que precisam percorrer menos de cinco quilômetros, mas optam por ônibus e trens lotados. Ou, na pior hipótese, partem para a compra da moto ou do carro. Esse sentimento de insegurança nas ruas talvez seja hoje o inimigo número um da mobilidade ativa e sustentável. 

 

*Ciclovias e ciclofaixas implantadas pela Prefeitura em 2025/2026:
- Antonio Carlos da Fonseca-Bosque da Saúde/zona sul (2.924 m)
- Dom Macário/ zona sul (1.626 m)
- João Boemer/região central (1.815 m)
- Antonio Cesar Neto/zona norte (827 m)
- Asdrúbal da Cunha/zona oeste (207 m)
- Adherbal Stresser/zona oeste (113 m)
- Virgília Rodrigues/Alcindo Bueno (1.536 m)
- José Parada Gonçalves (924 m)
- Ponte do Tatuapé (1.032 m)
- Armando Arruda Pereira (1.517 m)
- Ponte Freguesia do Ó (1.022 m)
- Ciclopassarela Erika Sallum (684 m)
- Butantã (860 m)
- Lemos Monteiro (115 m)
- Morumbi-Pascoal Pais-Santo Arcádio (2.568 m)
- Viaduto Pedroso (181 m)
- Airton Pretini (666 m)
- Adhemar Pereira de Barros (947 m)
- Maria Amália Lopes Azevedo (4.597 m)
- Santa Inês (1.421 m)
Total: 25.582 m (Fonte: PMSP)

 

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