A mobilidade urbana é um espelho da sociedade. No Rio de Janeiro, esse reflexo mostra um sistema fragmentado, caro e desigual. Entre trens, metrô, barcas, BRTs, ônibus municipais e intermunicipais, milhões de fluminenses convivem com um transporte público que não tem conexão entre si, nem na tarifa, nem na operação, nem na gestão.
O resultado é um modelo ineficiente. O morador da Baixada Fluminense, que precisa combinar dois ou três modais para chegar ao trabalho, paga mais e leva o dobro do tempo de quem vive em áreas centrais. A ausência de integração tarifária e de coordenação entre os sistemas amplia desigualdades e compromete a qualidade de vida da população. A padronização tecnológica entre os sistemas de bilhetagem, com o uso de cartões e aplicativos, é necessária.
Cada modal do Rio é administrado de forma isolada, por contratos e fiscalizações diferentes. Essa fragmentação gera ineficiência e desperdício de recursos. Sem integração, os investimentos são descoordenados e o dinheiro é mal aplicado. Em muitos casos, o poder público financia subsídios e obras que se sobrepõem, enquanto a população continua sem acesso a um transporte eficiente. Há necessidade de integração dos modais com o Bilhete Único Intermunicipal, criado pelo governo do estado.
Ao contrário de outras metrópoles do mundo, o Rio ainda não possui uma autoridade metropolitana de transportes. É urgente criar um órgão único, com capacidade de planejar, integrar e regular todos os modais sob uma visão sistêmica. Apenas nos trens, barcas e metrô, meios de transportes regulados pela Agetransp, são mais de 1,1 milhão de passageiros transportados diariamente.
Os exemplos de Madri e Santiago do Chile mostram que a integração se consolida quando há comando e sustentabilidade. Em Madri, o Consórcio Regional de Transportes (CRTM) unificou tarifas e gestão de toda a região, permitindo que metrôs, trens e ônibus operassem com bilhete único e metas ambientais. Hoje, grande parte da frota é elétrica ou híbrida. No Chile, o Transantiago, atual Red Metropolitana de Movilidad, adotou uma das maiores frotas de ônibus elétricos da América Latina, reduzindo ruído, emissões e custos. Esses modelos comprovam que a integração tarifária, a sustentabilidade e a boa gestão caminham lado a lado.
A falta de integração também estimula o avanço dos aplicativos de moto, que se tornam alternativa para quem não encontra transporte coletivo acessível. Apesar de ágeis, esses serviços vêm acompanhados do aumento de acidentes e da precarização do trabalho. Sinistros envolvendo motos pressiona o sistema de saúde e revela a urgência de políticas públicas que ofereçam transporte coletivo seguro e de qualidade. Segundo o Corpo de Bombeiros, os acidentes com motos mostram crescimento: na cidade do Rio, sete em cada dez atendimentos por trauma envolvem motocicletas.
Nenhuma metrópole brasileira conseguirá avançar em integração tarifária e descarbonização do transporte sem o apoio do governo federal. É necessária uma política nacional de mobilidade sustentável, com linhas de financiamento para modais elétricos, renovação de frota, infraestrutura de recarga e expansão de sistemas sobre trilhos. O Rio tem vocação natural para ser referência em mobilidade. Criar uma Autoridade Metropolitana de Transportes, modernizar a bilhetagem, garantir uma tarifa justa e investir em modais elétricos e sobre trilhos são passos essenciais.
Em suma: A falta de integração tarifária custa caro, desperdiça recursos públicos e empurra milhões de pessoas para alternativas inseguras e poluentes.
*André Novo é chefe de gabinete da Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos de Transportes Aquaviários, Ferroviários, Metroviários e Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro (Agetransp), mestre em Bens Culturais e Projetos Sociais pela FGV e especialista em gestão pública e mobilidade.
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