A implantação de novas ciclovias, parques e outros equipamentos de uso público na cidade de São Paulo estimulou a prática de atividades físicas relacionadas ao transporte e promoveu ganhos à saúde coletiva, segundo um estudo que analisou o comportamento de 1.500 moradores da metrópole entre os anos de 2014 e 2024.
Os pesquisadores constataram que a presença de ciclovias a menos de 500 m de distância de casa, por exemplo, foi um fator determinante para manter os paulistanos em movimento, estimulando o ciclismo.
“Estamos observando um experimento natural em São Paulo: o aumento da oferta de espaços públicos evidencia como as mudanças urbanas estimulam o deslocamento ativo, a exemplo do ciclismo”, diz à Agência Fapesp Alex Florindo, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e coordenador da pesquisa. Os resultados do trabalho, apoiado pela Fapesp, foram descritos em artigo publicado em abril no Journal of Transport & Health.
O período analisado na pesquisa foi marcado por uma expansão expressiva da oferta de ciclovias na cidade. De acordo com dados da prefeitura, entre 2014 e 2024, a malha cicloviária de São Paulo saltou de 242 para 743 km e a cidade ganhou 15 novos parques municipais.
Na avaliação dos pesquisadores, a ampliação desses espaços públicos abertos na cidade não apenas estimulou o deslocamento ativo, mas gerou impactos na saúde coletiva. Para fundamentar essa inferência, eles argumentam que a atividade física é um determinante central de saúde, cuja prática regular está comprovadamente associada à redução dos riscos de doenças cardiovasculares e câncer, por exemplo.
Sob essa ótica, os autores sustentam que a integração de ciclovias, por exemplo, no planejamento urbano, não é apenas uma escolha logística, mas uma estratégia de saúde pública. Segundo o estudo, essas intervenções contribuem para o desenvolvimento de cidades mais saudáveis ao reduzir a dependência de automóveis, a poluição do ar e os sinistros de trânsito, servindo, consequentemente, como importante mecanismo de mitigação das mudanças climáticas.
Aumento das ciclovias
Entrevistas presenciais e telefônicas, durante os dez anos da pesquisa, foram usadas para monitorar os níveis de atividade física relacionada ao ciclismo (pedalar ao menos dez minutos por dia) e as condições de saúde relatadas por paulistanos residentes em todas as regiões da cidade.
Os dados foram cruzados com indicadores de acesso dos participantes a espaços públicos abertos existentes no entorno de suas residências em um raio de 500 m – distância média que um adulto pode caminhar de 10 a 15 minutos. Essas informações foram obtidas a partir de um conjunto de dados georreferenciados de ruas de São Paulo, disponibilizados pela plataforma Geosampa.
“Com base no cruzamento dessas informações, foi possível estabelecer relações para verificar se o acesso das pessoas a esses espaços públicos abertos ao longo dos anos está contribuindo ou não para mudar determinados comportamentos ou desfechos em saúde”, explica Florindo.
Alex Florindo, coordenador da pesquisa Foto: Daniel Antônio/Agência Fapesp
Os resultados das análises indicaram que as ciclovias tiveram o maior crescimento em São Paulo entre 2014 e 2024, com a proporção de domicílios acompanhados na pesquisa próximos a esses novos equipamentos saltando de 22% para 33,2%. Já os parques registraram um aumento moderado no mesmo período, de 9,4% para 12,7%, enquanto as praças apresentaram estabilidade, variando de 68,4% para 69,3%.
Embora o uso da bicicleta para o deslocamento tenha apresentado queda na população participante do estudo como um todo ao longo da década, o grupo com acesso a dois ou três espaços públicos abertos próximos de casa permaneceu estável.
“Esses espaços passaram a atuar como um fator de proteção contra a diminuição do uso da bicicleta ao longo do tempo", avalia Danilo Dias Santana, pós-doutorando no Grupo de Estudos e Pesquisas Epidemiológicas em Atividade Física e Saúde da EACH-USP e primeiro autor do artigo.
Distribuição desigual
Segundo Santana, o biênio 2014-2015 foi estabelecido como o marco inicial do estudo longitudinal porque em julho de 2014 foi aprovado o novo Plano Diretor de São Paulo.
Algumas das metas do plano foram aumentar a oferta de equipamentos urbanos em áreas com altos déficits de infraestrutura e ampliar a lista de parques públicos, beneficiando regiões menos arborizadas.
A despeito do aumento dos espaços públicos abertos promovido pelo plano, a expansão de ciclovias, por exemplo, ficou mais concentrada nas regiões mais ricas da cidade, ponderam os pesquisadores.
As ciclovias, contudo, não são a única solução para estimular o uso de bicicleta em São Paulo e em outras capitais do país. São necessárias outras intervenções, como abrir ruas de lazer, ampliar o sistema de compartilhamento de bicicletas, implantar estacionamentos de bicicletas em grandes estações de transporte, além de realizar intervenções com famílias e disponibilizar locais para banho em rotas de trabalho e de estudo. Além disso, são necessárias mudanças não relacionadas diretamente ao planejamento urbanístico, pondera o pesquisador.
“Identificamos que, mesmo com a implantação de mais ciclovias, o ciclismo na cidade de São Paulo não está aumentando muito por uma série de razões. A bicicleta ainda é cara no Brasil e o ciclismo é uma atividade física praticada principalmente por homens.”
Estudos anteriores conduzidos por Florindo indicaram que as ciclovias têm sido usadas em São Paulo não somente para o tráfego de bicicletas, mas também para práticas de exercícios físicos como caminhadas e corridas, dada a escassez de espaços públicos abertos na cidade. “As ciclovias são estratégicas para promover essas atividades”, afirma.
Para ler esta matéria da Agência Fapesp na íntegra, clique aqui
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