Pé de Igualdade

12
July
Publicado por admin no dia 12 de July de 2017

Aprendi, lendo os livros da professora Ana Fani Alessandra Carlos, que quando pensamos na fruição dos espaços públicos da cidade não devemos pensar só na dimensão “espaço” mas também na dimensão “tempo”.

Sempre me lembro disso quando vou atravessar as ruas no meu caminho a pé para qualquer lugar. Nesses momentos fica mais evidente como a cidade é desigual na distribuição do tempo para quem está dentro de um veículo, ou na rua, caminhando.

Isto não deveria ocorrer porque há farta legislação que elege o pedestre como o usuário com maior grau de prioridade na via. Tanto o Código de Trânsito Brasileiro, como a Lei Federal que institui a Política Nacional de Mobilidade Urbana – e ainda o recém-aprovado Estatuto do Pedestre, no caso do município de São Paulo – são claros ao estabelecer o pedestre no topo da cadeia da Mobilidade Urbana.

Na prática, o que se vê é exatamente o oposto: o espaço para quem caminha é reduzidíssimo e as calçadas – cada vez mais estreitas – ocupam bem menos da metade da largura das vias.Da mesma forma, o tempo de direito de uso da via, quando esse espaço é dividido com veículos nas travessias, é bem menor para o caminhante, isto é, quando existe esse tempo.

Ressalto esse “quando existe” porque nos casos onde há só sinalização horizontal, ou seja, só há pintura da faixa de pedestres no pavimento, dificilmente condutor de veículo cumpre seu dever de parar espontaneamente. Salvo exceções, é preciso muito falatório, campanhas educativas, ou mesmo multas.

Por outro lado, quando o motorista é obrigado a parar por sinalização semafórica, é absurdamente desigual a divisão do tempo de passagem organizado por este dispositivo. Em geral, quem está a pé espera mais de 100 segundos pelo sinal verde e deve atravessar em menos de 10% desse tempo.

Tempo de espera para o pedestre atravessar, em SP e BH: mais de 100 segundos (Tótem exibido 21º Congresso da ANTP | Foto: acervo pessoal  Agradecimentos aos “modelos” amigos, Élio, Carol Guido e Alexandre Pelegi)

Pior ainda quando este tempo precisa ser acionado por botoeira, ou “dispositivo de demanda”. Além de não ser considerado prioritário pelo atual plano de manutenção semafórica da Prefeitura de São Paulo, só cede tempo ao pedestre depois de ter dado esse direito a todas as direções de veículos que sinaliza.

Enfim, quando haverá o entendimento de que caminhar também é mobilidade urbana? Quando teremos o tempo de espera e de travessia dos sonhos, como na pequena Mercer Island , nos Estados Unidos?



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Pe-de-igualdade Meli Malatesta (Maria Ermelina Brosch Malatesta), arquiteta e urbanista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e com mestrado e doutorado pela FAU USP. Com 35 anos de serviços prestados à CET – Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo, sua atividade profissional foi totalmente dedicada à mobilidade não motorizada, a pé e de bicicleta. Atualmente, ministra palestras e cursos de especialização em Mobilidade Não Motorizada além de atuar como consultora em políticas, planos e projetos voltados a pedestres e ciclistas.
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