A descoberta
Conheci o ativismo de perto ainda na primeira década do século novo, durante reuniões na CET/SMT sobre os rumos da rede cicloviária do município de São Paulo, que naquele momento começava a se tornar um programa de mobilidade na prefeitura.
Em várias reuniões, testemunhei o comprometimento dos tomadores de decisão em buscar viabilizar propostas trazidas por grupos de munícipes que representavam pessoas que usavam bicicletas como modo de viagem cotidiana, os cicloativistas.
Não eram exatamente representantes da maioria destes usuários, mas sim de uma minoria que possuía condições de articulação, argumentação e principalmente sensibilização da opinião pública, em canais informativos e formativos, da mídia formal e informal.
Naquelas ocasiões, pude descobrir fascinada a força do processo de pressão que envolvia a participação social. Foi esse engajamento que possibilitou a uma parcela minoritária, pertencente à matriz modal dos deslocamentos da cidade, ser contemplada por uma rede, ainda que iniciante e tímida, formada dos espaços públicos de mobilidade “roubados” dos modos de transporte individuais, sempre priorizados. Sim, porque as viagens de bicicleta nem chegavam a pontuar na Pesquisa Origem e Destino de 2007, realizada pelo Metrô de São Paulo, banco de dados basilares das políticas de mobilidade urbana de então. Elas representavam apenas 0,7% de todas as viagens diárias no município.
Reunião entre cicloativistas e secretário de mobilidade Foto: Vá de Bike
Naquele momento a participação da sociedade civil nas decisões do poder público, no que se refere a políticas públicas urbanas, não era novidade, pois começou a ser institucionalizada com o Estatuto da Cidade (Lei Federal 10.257/2001). Mas só passou a ser colocada em prática a partir de 2012, por meio da Lei de Mobilidade Urbana (Lei Federal 12.587). Portanto, depois de ter presenciado a ação do Cicloativismo.
Antes dos marcos legais, os representantes da sociedade civil participavam de forma passiva para poderem ser comunicados das decisões tecnopolíticas que afetariam seus territórios e, consequentemente, suas vidas.
Foi assim no início, segmentos mais conscientizados e articulados exercendo mecanismos de pressão social há muito abandonados e esquecidos nos quase 30 anos de ditadura e retomando seus lugares e direitos. Só após a virada do século, apoiados por essas leis, passaram a participar ativamente das decisões. Assim aconteceu com o Cicloativismo.
A troca de lado
Encantada com essa descoberta, já tendo percorrido quase três décadas de vida profissional no trânsito de São Paulo, troquei de lado da mesa para ser ativista e militar pelos direitos e territórios da maioria das pessoas que praticam o modo de deslocamento que mais gera viagens em São Paulo: os que andam a pé, os pedestres.

Reunião da Câmara Temática de Mobilidade a Pé, da Prefeitura de São Paulo Foto: Cidadeapé
Os caminhantes, mais que usuários de bicicleta, formam a estrondosa maioria das pessoas que, diariamente, não só em São Paulo mas em outras cidades brasileiras, são os mais esquecidos e prejudicados por políticas públicas negligentes. Praticamente inexistem movimentos sociais articulados que exijam seus direitos. Falta consciência da importância que representam na rede da mobilidade cotidiana e de sua força de pressão, caso algum dia se organizem, para exigir seus direitos como cidadãos.
Mais recentemente começaram a surgir - de maneira espontânea, mas certamente com inspiração no cicloativismo - coletivos, associações e organizações pertencentes ao terceiro setor. Neles encontrei espaço para exercer meu ativismo, compartilhando junto a estes grupos a experiência tecnopolítica adquirida por muitos anos como gestora pública.
A princípio parecia ingenuidade de quem se propõe a "enxugar gelo", mas aos poucos se verifica que a agenda da mobilidade a pé já tomou forma, possui sua própria narrativa e hoje pauta a mídia, compromissos políticos e da sociedade civil e têm concretizado, aos poucos, as primeiras ambições que nada eram há alguns anos.
Para fechar
Se depois deste depoimento alguém ainda duvidar da força da participação social para exercício da pressão da sociedade reivindicando seus direitos - o que define o ATIVISMO -, basta ver o ocorrido no cenário da realidade brasileira atual. Uma força organizadora capaz mobilizou a população em geral e em especial segmentos sociais dicotômicos como jovens e idosos, e conseguiu barrar o curso de um projeto negacionista. E, de quebra, serviu de modelo para vários outros países.
Recentes manifestações populares na Av. Paulista (SP) Foto: Catarina Arimateia
Este engajamento que em pouco tempo conseguiu revirar um destino que parecia definido pela vontade popular, ou pela falta dela, mostrou mais uma vez que ninguém está só e que, mais importante do que dar as mãos, é não soltá-las. Que os territórios de manifestação são os espaços públicos das cidades e que o povo tem que estar a pé, caminhando.
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Maria Ermelina Brosch Malatesta é arquiteta e urbanista formada pela FAU Mackenzie. Mestra e doutora em Mobilidade Urbana Ativa pela FAU USP, atua como consultora em políticas públicas, planos diretores de mobilidade e projetos de sistema viário e espaço público para a mobilidade ativa, a pé e por bicicleta. Autora dos livros Pé de Igualdade e A Rede da Mobilidade a Pé.
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