De frente ou de costas para os rios?

Rios como o Tietê e Pinheiros em SP devem ser recuperados e voltar a integrar a vida da cidade, servindo à mobilidade fluvial e como espaços de convivência da população

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Fonte: Mobilize Brasil  |  Autor: Jeniffer Abegão*  |  Postado em: 03 de outubro de 2017

Rios urbanos: para os carros poluírem ou para a mo

Rios urbanos: para os carros poluírem ou para a mobilidade?

créditos: Ed (@ed_ilustrador)

Os rios sempre tiveram papel fundamental no desenvolvimento urbano na maioria das cidades. Ou seja, desde as primeiras civilizações, o homem sempre procurou morar em regiões próximas ao curso de água doce, onde havia abundância de água potável e terras férteis.

Apesar de hoje esquecida, nossa relação com os rios era muito forte, principalmente para fins de lazer e navegação. Abraçamos os rios na construção das cidades e depois viramos as costas a eles em prol do crescimento urbano desenfreado. 


São Paulo tem mais de 300 rios, quase todos drenados e canalizados para a construção de avenidas e vias expressas, priorizando-se espaços de circulação para automóveis e desprezando-se a importância das águas correntes para a cidade.

Parece lenda suburbana, mas os rios Pinheiros e Tietê, até a década de 50, serviam de palco para muitas atividades de lazer, como natação e provas de remo. Esses espaços eram muito valorizados pela população, bem diferente do que vemos hoje em dia. O rio Tietê foi amplamente utilizado para navegação, desde o início, o que possibilitou aos bandeirantes e portugueses desbravarem o interior paulista. 

A volta dos rios navegáveis
Já não é novidade que precisamos de políticas públicas de mobilidade urbana que priorizem a coletividade e o bem comum. Uma maneira de contornar nosso caos urbano é investir e promover a multimodalidade, seja no transporte público terrestre ou aquático. 

Imagine se tivéssemos a opção de utilizar os rios paulistanos também como meio de transporte? Bem, isso poderá ser viabilizado, caso o projeto do Hidroanel Metropolitano, desenvolvido por um grupo de estudo da faculdade de arquitetura e urbanismo (FAU USP) com coordenação do arquiteto Alexandre Delijaicov, saia do papel. Essa proposta grandiosa propõe uma rede de vias navegáveis composta pelos rios Tietê e Pinheiros, represas Billings e Taiaçupeba, totalizando 170 km de hidrovias urbanas. As embarcações seriam destinadas ao transporte de cargas e passageiros, como também ao lazer e passeios turísticos.

O projeto prevê a construção de 60 espaços de convivências (eco portos) pela orla fluvial, destinados à entrega voluntária de resíduos sólidos, bosque e área de piquenique, praças e mirantes, piscinas, centro de educação ambiental e horta comunitária, e um ponto de embarque de passageiros integrado com o sistema público de transporte.

Além desses eco portos, o estudo prevê também a coleta de materiais descartados na metrópole (sedimentos, entulhos, materiais de escavação e lixo), evitando que caminhões de lixo circulem pela cidade. Estima-se uma redução de 30% no tráfego de cargas em São Paulo. 

Com mais uma opção de mobilidade urbana, muitos motoristas iriam preferir usar transporte fluvial ao invés de carros, o que contribuiria para a redução da poluição do ar e também da água, chamada de poluição difusa (poluição proveniente de diversas fontes). Essa poluição vem do desgaste dos automóveis, óleos e graxas que acabam sendo acumulados nas ruas e são levados pela chuva aos corpos d’água, contaminando-os.

Enxergar todas as potencialidades
Temos que resgatar e integrar novamente os rios urbanos em nossas vidas, que foram tomadas pelo pensamento rodoviarista e mercantilista. É preciso visualizar as potencialidades dos rios Pinheiros e Tietê, que vão muito além dos seus aspectos atuais: sujos, feios e desagradáveis. Termino com uma frase que gosto muito, do Içami Tiba: “Nenhum projeto é viável se não começa a construir-se desde já: o futuro será o que começamos a fazer dele no presente”. 

 

*A engenheira ambiental Jeniffer Abegão é apaixonada pelo tema da sustentabilidade. Tanto que ela faz parte da Comissão de Desenvolvimento Sustentável de sua comunidade e também é voluntária da Fundação Alphaville. No Mobilize, Jeny vai mostrar a cidade sob a ótica da mobilidade sustentável, como você nunca viu. Para conhecer mais do seu trabalho, visite o seu blog, o GerminAÇÃO.  

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