A morte de uma mãe e seu filho* na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, não pode ser tratada como mais um acidente. Não é apenas uma tragédia isolada. É um retrato doloroso de uma escolha urbana: quem pode se mover com segurança e quem precisa conviver com o medo.
Não é fatalidade aquilo que, tantas vezes, é resultado de imprudência — excesso de velocidade, avanço de sinal, desrespeito às regras básicas de convivência no trânsito. E menos ainda quando esses comportamentos encontram cidades que permitem e, em muitos casos, incentivam esse tipo de dinâmica.
A bicicleta, que deveria ser símbolo de liberdade, saúde e sustentabilidade, ainda é, para muitos brasileiros, um ato de coragem. E coragem não deveria ser pré-requisito para se deslocar na cidade.
Falo também a partir de uma experiência pessoal. Quando morava em Laranjeiras, Zona Sul da cidade, pedalar fazia parte da minha rotina de forma mais esporádica, especialmente aos finais de semana. Ir à praia, por exemplo, era possível quando dava. Não porque eu fosse mais corajosa, mas porque a infraestrutura ajudava a tornar esse deslocamento viável. Havia ciclovias, havia alguma previsibilidade, havia — ainda que limitada — uma sensação de pertencimento.
Isso não significa que o medo não existia. Ele estava presente, como está para a maioria das pessoas que pedalam. Mas era um medo mais controlado, mediado pela existência de algum espaço dedicado, de alguma lógica que organizava a convivência com o trânsito.
Mas ao me mudar para a Tijuca, algo mudou. E não foi apenas o endereço. Foi a relação com a cidade. A bicicleta deixou de ser passou a representar um risco constante. O medo do trânsito, da velocidade dos carros, da ausência de espaço seguro tudo isso se impôs. A tristeza veio junto: a sensação de perder um direito que, na prática, nunca foi garantido para todos.
Esse contraste não é individual. Ele revela uma desigualdade estrutural na forma como pensamos e construímos nossas cidades.
Contrastes sociais
A Zona Sul do Rio de Janeiro concentra boa parte da malha cicloviária da cidade. Não por acaso, é também onde estão alguns dos bairros com maior renda e visibilidade. Já a Norte mais populosa, mais diversa e historicamente negligenciada enfrenta um cenário completamente diferente: ciclovias fragmentadas, inexistentes ou inseguras.
Mas essa comparação, por si só, ainda é insuficiente. Quando ampliamos o olhar para a Zona Oeste, por exemplo, o cenário se torna ainda mais crítico. Em muitos territórios, a infraestrutura cicloviária simplesmente não existe. E, quando existe, não conecta, não protege e não atende às necessidades reais de quem depende da bicicleta no dia a dia.
Estamos, portanto, diante de ausências. Quanto mais distante dos centros, menor é o acesso a condições seguras de mobilidade. Essa distribuição não é neutra. Ela comunica, de forma explícita, quem tem direito à cidade e quem precisa disputá-la todos os dias.
E, ainda assim, diante de tragédias como a da Conde de Bonfim, o que vemos com frequência é a tentativa de culpabilizar a vítima. O ser humano e muitas vezes também a grande mídia tende a buscar explicações que responsabilizem quem estava mais vulnerável.
Mas será mesmo que estamos olhando para o problema certo? Será que temos fiscalizado de forma efetiva o excesso de velocidade nas cidades? Será que o avanço de sinal e outras infrações são tratados com a seriedade que deveriam?
Será que oferecemos condições reais para que diferentes modos de transporte convivam com segurança? Será que o poder público tem, de fato, garantido a infraestrutura necessária para que pessoas possam se deslocar livremente?
A resposta, na maioria das vezes, é não.
Quando uma mãe e um filho morrem ao compartilhar a via com carros, não estamos diante de uma fatalidade inevitável. Estamos diante de uma combinação de fatores evitáveis: comportamentos de risco somados à ausência de estrutura, fiscalização e prioridade política. Estamos diante de um modelo de cidade que escolheu, por décadas, priorizar o fluxo de veículos motorizados em detrimento da vida.
Falar de ciclovias não é falar apenas de mobilidade. É falar de equidade, de saúde pública, de meio ambiente e de direito à cidade. Infraestrutura cicloviária não é luxo, não é pauta secundária. É elemento básico de uma cidade que se pretende mais humana.
É preciso romper com a lógica de que a bicicleta pertence apenas a determinados territórios ou perfis sociais. Pedalar não pode ser privilégio de quem mora perto da orla ou em bairros mais estruturados. Precisa ser uma possibilidade real e segura para todos. Inclusive e sobretudo, nos territórios historicamente negligenciados.
Não podemos seguir naturalizando mortes evitáveis enquanto insistimos em culpabilizar vítimas e adiar decisões que já deveriam ter sido tomadas.
Nenhuma pessoa deveria sentir medo de pedalar na cidade onde vive. E nenhuma família deveria pagar com a vida pelo simples ato de se deslocar.
Transformar essa realidade não é apenas possível. É urgente.
*Emanoelle Farias, 40 anos, e seu filho Francisco, de apenas 9, foram fechados por um carro, caíram na via e morreram atropelados por um ônibus.
Camila Dias é jornalista e assessora de imprensa, colaboradora do Instituto Aromeiazero
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