Greve incentivou bicicletas em Belo Horizonte

Enquanto todo mundo reclama do presidente do Brasil e do ex-presidente da Petrobrás, prefiro saudá-los pela contribuição ao uso da bicicleta, diz Guilherme Tampieri

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Fonte: Mobilize Brasil  |  Autor: Guilherme Tampieri*  |  Postado em: 04 de junho de 2018

Contador de bicicletas de Belo Horizonte (MG)

Contador de bicicletas de Belo Horizonte (MG)

créditos: Reprodução

Primeiramente, um vivinha a isso! Enquanto todo mundo reclamava do inominável presidente do Brasil e também do agora ex-presidente da Petrobrás, prefiro saudá-los pela inestimável contribuição ao uso da bicicleta em todo o país, em especial aqui em Belo Horizonte. Em uma semana, ambos conseguiram colocar mais ciclistas nas ruas da cidade do que qualquer prefeito que já passara pela capital mineira.

 

Sabemos – e cremos – que as reclamações são legítimas. Afinal, vincular o preço dos combustíveis à cotação internacional do petróleo e ao dólar não é lá uma ideia muito apreciável, nem inteligente, a não ser, é claro, para os acionistas da petroleira e para os exportadores de derivados do petróleo dos EUA.

Mas, sejamos otimistas! Somos da opinião que essas notáveis figuras não pretendiam produzir o segundo apagão do país (o da energia elétrica foi gestado pelo mesmo Pedro Parente em 2001), mas sim dar um novo empurrão ao uso da bicicleta no Brasil – é claro. Ambos sabiam que o país precisava refletir sobre a mobilidade urbana, o modelo de rodovias, trazer à tona a discussão sobre ferrovias etc.

 

Enquanto no âmbito municipal temos sofrido pela falta de ações efetivas e pela hesitação da prefeitura em dar início ao PlanBici (saiba mais), o executivo federal nos deu uma mãozinha.

Explicamos: vejam os números empolgantes que retiramos da base de dados do contador de ciclistas da avenida Bernardo Monteiro – atualmente o único da cidade – produzidos desde o início do colapso do abastecimento, no dia 24 de maio.

1. Tomamos os 699 dias de funcionamento do contador, desde sua instalação,  e elaboramos um ranking entre todos esses dias, do maior para o menor fluxo de ciclistas. Nessa classificação, em quase dois anos de contagem, os setes dias dessa super-semana ficam com os seguintes lugares do pódio:

Dia 24 de maio: 98º Lugar – 310 ciclistas

Dia 25 de maio: 26º Lugar – 363 ciclistas

Dia 26 de maio: 42º Lugar – 348 ciclistas

Dia 27 de maio: 1º Lugar – 615 ciclistas

Dia 28 de maio: 5º Lugar – 535 ciclistas

Dia 29 de maio: 3º Lugar – 587 ciclistas

Dia 30 de maio: 8º Lugar – 480 ciclistas

 



Ou seja, a semana do colapso já tem um ouro, um bronze, um quinto e um oitavo lugar. Nada mal, não é?

2. A semana que se iniciou no dia 21 de maio já é a segunda melhor de todos os tempos, com 2.427 ciclistas. E a semana que começou no dia 28 de maio tem tudo para ficar em primeiro lugar no hall da fama cicloativa. Viva!

 

3. Também já é possível projetar que o mês de maio vai terminar batendo o recorde mensal, chegando muito próximo de 10 mil ciclistas.

E todos esses números começaram a explodir exatamente quando as filas quilométricas se avolumaram nos postos de gasolina. Para melhor mensurar essa mudança, fizemos uma comparação desde a última quinta-feira (dia 23/05) até esta quarta-feira (dia 30/05) com os mesmos dias da semana anteriores do mês de maio. Ou seja, comparamos a última quinta-feira com a média do fluxo das últimas três quinta-feiras e assim por diante.

 

Com isso, ao final desses sete dias tivemos um aumento total de 77% em comparação com a média dos períodos anteriores, dentro do mês de maio. Se pegarmos os dados apenas a partir de sexta-feira, quando os combustíveis realmente começaram a escassear, o fluxo de ciclistas deu novo salto e chegou a mais do que dobrar em dois dias (domingo e terça-feira). E muito perto disto na segunda-feira e quarta-feira. Portanto, vamos celebrar essa conquista, para ganhar fôlego  e continuar em nossa luta pela mobilidade ativa!


A continuar nesse ritmo, novos recordes serão batidos e quem sabe mais pessoas começaram a usar esse eficiente, rápido, saudável, econômico e sexy meio de transporte. No somatório da força de quem pedala, todo mundo ganha: reduz-se a emissão de gases de efeito estufa, a poluição sonora, o visual apocalíptico de milhões de carros circulando e, em especial, os índices de poluição do ar na nossa querida capital.

Por último, ironias à parte, em vez de os governantes submeterem toda a população a um fardo inestimável, melhor seria começar a investir em modais mais sustentáveis, especialmente um transporte coletivo de qualidade, de preferência conectado a uma grande rede cicloviária. “Carro-dependência” e “combustível-dependência” têm cura, sem a necessidade de impor um preço de combustível estratosférico, bem acima do seu custo. Basta oferecer melhores condições nos outros modos e alternativas de transporte.

 

Em BH, o PlanBici já está aí com esse objetivo. Basta que o prefeito Alexandre Kalil, que já o aprovou, queira dar o pontapé inicial.

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Post script 1: se o PlanBici fosse executado, a cidade já teria contadores em outras regiões, com dados de toda a cidade. 
Post script 2: as contagens de ciclistas da BH em Ciclo indicam que as zonas periféricas da cidade têm mais ciclistas do que a Centro-sul, onde está localizado o contador. Ou seja, é provável que durante a crise dos combustíveis o número de ciclistas tenha aumentado por toda a cidade.

 

*Guilherme Tampieri é gestor ambiental, membro do Movimento Nossa BH. Bike Anjo BH e BH em Ciclo. É colaborador do Mobilize Brasil

 

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