Alunos de escola pública em SP refletem sobre seus caminhos a pé

Projeto une Corrida Amiga, universidade e sociedade civil em ações como Bonde a Pé e oficinas de IA para levar a crianças e adolescentes novo olhar sobre o seu território

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Fonte: Mobilize Brasil  |  Autor: Mobilize Brasil  |  Postado em: 30 de julho de 2026

Estudantes avaliam seu território, na zona leste d

Estudantes avaliam seu território, na zona leste de SP

créditos: Divulgação/ Corrida Amiga

Uma experiência inspiradora e inclusiva reuniu neste mês crianças e adolescentes de uma escola pública na zona leste de São Paulo, a Emef Rosângela Rodrigues Vieira, em torno de um projeto que propõe combinar mobilidade a pé, educação, participação estudantil, direito à cidade e uso de inteligência artificial. A escola municipal está sediada no CEU Quinta do Sol, no bairro da Vila Císper.

 

O Projeto Escola Ativa: Práticas Lúdicas em Urbanismo é uma iniciativa conjunta entre Instituto Corrida Amiga, CAU-Educa, vinculado ao Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU-SP), e das turmas de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Judas Tadeu (USJT). Para alcançar seus objetivos, os organizadores também fizeram uma articulação com a Subprefeitura da Penha, para onde já encaminharam os diagnósticos e propostas que permitirão tornar o entorno escolar mais seguro, acessível e acolhedor. 

Um dos pilares conceituais do projeto é que a caminhabilidade deve ser trabalhada a partir do olhar dos jovens, justamente por serem eles os que diariamente enfrentam ruas, calçadas e desafios do trânsito, até chegar aos seus locais de ensino.

 

Ações como o "Bonde a Pé" e as oficinas de IA são instrumentos que possibilitam aos jovens observar o entorno, analisar os desafios do trajeto, refletir sobre mobilidade a pé, acessibilidade, segurança e, com o auxílio da tecnologia, construir novos olhares para o território onde vivem e estudam. Os promotores das atividades destacam que caminhar, ocupar a cidade com cuidado, escuta e participação, também é aprender.

 

Bonde a pé com alunos da escola pública Foto: Corrida Amiga

 

Para falar mais sobre esta ação, conversamos com a arquiteta Ana Paula Borba, ou Paulinha Borba, como é mais chamada, parceira do Mobilize Brasil e coordenadora de projetos do Instituto Corrida Amiga. 

 

Paulinha, conte como surgiu o projeto Escola Ativa. 
Ao longo de mais de dez anos, o Instituto Corrida Amiga desenvolve ações voltadas à mobilidade ativa, à segurança viária e à cidadania, com foco na infância. Desde o ano passado, fizemos parcerias com 15 instituições de ensino básico, e realizamos cerca de 700 atividades que beneficiaram mais de 12 mil pessoas. O projeto surgiu de um edital do CAU Educa (CAU-SP), e nas três edições o Corrida Amiga foi selecionado para receber apoio do conselho. Em 2025, até agora, a Emef Profa. Rosângela Rodrigues Vieira foi a grande parceira do projeto, que teve colaboração do CEU Quinta do Sol e da Universidade São Judas Tadeu (USJT). As atividades lúdico-pedagógicas foram aplicadas aos estudantes do ensino fundamental I e II, especificamente sobre mobilidade urbana, com temas como segurança viária, saúde e bem-estar, meio ambiente e cidadania. Os graduandos de arquitetura da USJT realizaram seus projetos de curso avaliando o entorno da escola e apresentaram propostas como: melhoria do pavimento e alargamento de calçadas, redução de faixa de rolamento de veículos, criação de lombofaixas, inserção de iluminação na escala do pedestre, implantação de infraestrutura cicloviária, bicicletários e mobiliário urbano.

 

E como você se envolveu nessa ação?
O meu vínculo com o projeto do Corrida Amiga se dá desde a primeira edição, em 2023. E a cada edição novas atividades são aplicadas. Nesta fase, tivemos a inserção da Inteligência Artificial (IA), sendo que em 2025 a ferramenta tinha sido utilizada apenas nas análises das fotos feitas pelos estudantes. Nesta edição (2026), foi iniciada a aplicação da IA diretamente na oficina com os estudantes.

 

O entorno de escolas costuma ser pouco atrativo, sem acessibilidade, e para piorar muitas se isolam por trás de muros. O projeto observou essa situação? 
O Bonde a Pé é a última atividade das três aplicadas para as turmas, e a única em que extrapolamos os muros da escola e caminhamos com as crianças pelos arredores. Mas, antes do bonde, é feito, e assim ocorreu na Emef Profa. Rosangela Rodrigues Vieira, um levantamento prévio no entorno escolar. O que se vê, e é assim em qualquer área na capital paulista, é que o entorno requer ajustes em termos de mobilidade urbana, como: melhoria do pavimento e alargamento de calçadas, melhoria da sinalização vertical e horizontal, implementação de estratégias de moderação de tráfego, inserção de mobiliário urbano adequado às crianças... No início de junho, a equipe do Corrida Amiga se reuniu com a subprefeita da Penha, Katia Falcão, que se mostrou aberta a uma parceria com a escola, mas ponderou as limitações da subprefeitura, cuja autonomia afirmou se restringir às questões de zeladoria e coleta de resíduos.

 

Muitos alunos vão a pé para a escola? A bicicleta chega a ser opção?
Com base no questionário aplicado aos responsáveis dos estudantes, chegamos aos seguintes números: o transporte público e o carro são os meios de transporte menos utilizados pelos estudantes: 16,42% e 19,40%, respectivamente; 29,85% se deslocam por transporte escolar; a maioria, 34,33%, vai e volta a pé. A bicicleta não é uma opção aos estudantes (0%), pois segundo eles não há local para guardar a bicicleta, bem como não há a infraestrutura adequada para a realização do deslocamento de casa até a escola. Cabe a ressalva de que estes percentuais são de apenas 8,3% do total de alunos da escola, o que pode não caracterizar fielmente o perfil da mobilidade dos estudantes, mas se consegue ter um panorama geral.


 
Por que é importante partir da percepção dos próprios jovens para obter melhoria na mobilidade? 
O papel das crianças e jovens é de extrema relevância para a sociedade, uma vez que eles são agentes multiplicadores e de transformação da sociedade. Além disso, quando unimos distintas frentes, como: comunidade escolar, universidade e organização da sociedade civil, o poder da solicitação é muito mais robusto e o potencial de reverberação é ainda mais eloquente.

 

Oficina de IA, na Emef Profa. Rosangela Rodrigues Vieira Foto: Corrida Amiga

 

Fale sobre as oficinas: materiais usados, metodologia, participação etc.   
As oficinas são direcionadas aos estudantes, mas professores e professoras podem acompanhar e participar. A escolha das turmas é uma decisão conjunta entre Corrida Amiga e a gestão da escola.  
- Oficina de IA (8º e 9º anos): após o Bonde a Pé, no qual os estudantes utilizam fichas impressas, caneta, trena, radar de velocidade, câmera fotográfica etc. para fazer apontamentos das características do entorno da escola, um monitor envia as fotos tiradas pelos jovens ao ChatGPT, para uma avaliação com base nas categorias levantadas (segurança viária; segurança pública; acesso à cidade; calçada e mobilidade; ambiente e atratividade). No final, os grupos apresentam o “antes” e “depois” das fotos, incluindo suas observações e percepções do espaço.  
- Oficina de Maquete (6º e 7º anos): Corrida Amiga e estudantes da USJT deixam preparada a base da maquete com as vias, calçadas, entrada da escola e elementos urbanos (postes, lixeiras, placas de sinalização, semáforos, árvores etc.). No dia da oficina os alunos organizam esses itens com materiais simples encontrados no dia a dia. No final, escolhem onde serão inseridos na maquete, o que estimula o contato deles com escalas, proporções e a visão em três dimensões da miniatura desse espaço muito familiar, a entrada da escola. 
- Oficina de Ofício (9º ano): Em uma apresentação, o Corrida Amiga explica aos estudantes o que é um documento oficial, como redigi-lo e as formas de submetê-lo ao poder público. Separados em grupos, eles redigem parte do documento. Ao final, com auxílio da IA, juntam-se os documentos elaborados pelos estudantes para finalizar o ofício. Esta atividade fomenta a análise crítica, e estimula a nova geração a ser propositiva e proativa.
- Oficina do Caderno Cidade Ideal (4º e 5º anos): divididos em grupos, os estudantes recebem folha de papel, canetinhas, lápis de cor, giz de cera, adesivos e recortes de revistas, e tendo em vista a caminhada do Bonde a Pé, são orientados a elaborar desenhos retratando como gostariam que fossem os arredores da escola. Assim, de forma lúdica, a oficina estimula a memória por meio de elementos, referências (já conhecidas ou vistas pela primeira vez na caminhada) e/ou mapas mentais. 
- Intervenção (todos alunos interessados): atividade de pintura na praça Deputado José Bustamante. No espaço aberto, e munidos de sprays, tintas e stencils, crianças e jovens criam desenhos, jogos de amarelinha, e dão cor e mais vitalidade ao espaço público.

 

Quais são os próximos passos? 
Em agosto, teremos na escola as três últimas oficinas e a mostra cultural com todas as turmas, para apresentar os resultados das atividades. Além disso, na Semana da Mobilidade, em setembro, queremos organizar uma intervenção lúdica, a última atividade com os estudantes. Pretendemos integrar a essa intervenção a implantação de uma "vaga verde" em frente à escola. Para isso, já encaminhamos um pedido ao gabinete da vereadora Renata Falzoni, autora do projeto que cria esse tipo de área nas ruas. Em relação ao poder público, enviamos um primeiro ofício à Subprefeitura da Penha e à CET com as solicitações dos estudantes, resultado do questionário aplicado por eles na escola, juntamente com as sugestões de melhoria do entorno da escola feito pelos estudantes do curso de arquitetura da São Judas Tadeu. O segundo ofício será encaminhado mais adiante, com base nos dados levantados pelos alunos nas atividades dos Bondes a Pé.

 

Pretendem levar essa atividade a outras escolas? 
Sim, como esta metodologia faz parte das atividades aplicadas no Ensino Fundamental I e II, as escolas que fizerem parte dos projetos da Corrida Amiga, que estiverem inseridas sob este viés de atuação, serão contempladas com estas atividades.

 


Equipe do projeto Escola Ativa Imagem: Corrida Amiga/Instagram

 

Este projeto do Corrida Amiga foi destaque no programa Boas Práticas Escolares, da TV Cultura, exibido em 15/7. Assista ao vídeo no canal de YouTube da emissora.

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