Pesquisa da USP desmistifica ganho de tempo com excesso de velocidade

Pesquisadores da Poli e parceiros realizaram um levantamento que monitorou condutores e revelou sua conduta ao volante diante de pedestres, sinalização e desenho viário

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Fonte: Jornal da USP/ Mobilize (edit.)  |  Autor: Michel Sitnik/ Jornal da USP  |  Postado em: 15 de setembro de 2026

Acelerar: tempo quase o mesmo, e mais riscos de si

Acelerar: tempo quase o mesmo, e mais riscos de sinistros

créditos: Marcos Santos/USP Imagens

O ritmo acelerado do dia a dia e a sensação de intimidação no trânsito frequentemente levam motoristas a desrespeitar os limites de velocidade, sob a falsa premissa de ganho de tempo. No entanto, trafegar acima da velocidade regulamentada economiza apenas alguns segundos por viagem, enquanto eleva drasticamente o risco de sinistros graves e mortes. 


Essa conclusão está na pesquisa "Velocidade em áreas urbanas e segurança viária: evidências sobre comportamentos, percepções e atitudes", lançada nesta segunda-feira (14) em São Paulo e realizada em cooperação técnica entre Escola Politécnica (Poli) da USP, Fundação Mapfre, Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran). 


O estudo analisou como os condutores percebem os limites de velocidade e quais variáveis afetam suas atitudes nas vias. O objetivo central é oferecer diagnósticos e evidências técnicas para aprimorar políticas públicas locais, campanhas educativas e intervenções de engenharia de tráfego, reforçando a contribuição da ciência produzida na Universidade para o planejamento governamental.


Segundo o professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Poli Cassiano Isler, que coordenou o levantamento, “a motivação para o estudo decorre de um problema crônico de saúde pública: só em 2025 o estado de São Paulo perdeu 6.134 vidas em acidentes de trânsito". Ele destaca ainda a questão econômica: "A velocidade excessiva é o fator que mais determina a gravidade e a recorrência dos sinistros de trânsito e, de acordo com dados do Banco Mundial citados no relatório, esses sinistros fazem com que o Brasil perca cerca de US$ 61 bilhões por ano, o que equivale a 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional”, explica o docente.


Na opinião de Isler, "a pesquisa revela um paradoxo: mais de 90% dos entrevistados associam o cumprimento das normas a valores como cidadania e preservação da vida. No entanto, para um terço deles, essa disposição cede diante de atrasos, urgências cotidianas e da pressão exercida pelo fluxo dos demais veículos”, pontuou.

 

Cassiano Isler apresentou as motivações e conclusões do estudo Foto: Letícia Longo/Comunicação Poli-USP

 

O mito do ganho de tempo
Como amostragem, a pesquisa reuniu 1.540 participantes de diferentes regiões do país. No mapeamento das atitudes dos condutores, os pesquisadores combinaram levantamento bibliográfico, modelos da psicologia comportamental e simulações urbanas com apoio de inteligência artificial. 


Entre os apontamentos, está a desconstrução da ideia de que acelerar mais representa redução significativa no tempo total dos trajetos. A revisão de dados de tráfego de Curitiba e Fortaleza atesta que a economia obtida é inexpressiva. Na capital paranaense, trafegar acima do limite gerou uma redução média de somente 7,81 segundos por quilômetro, ou algo entre 46 e 55 segundos no percurso completo. Em Fortaleza, a redução do limite máximo de 60 km/h para 50 km/h acrescentou apenas 6,08 segundos por quilômetro rodado.


Qualquer ganho marginal de tempo costuma ser anulado pela sincronização semafórica e pelo fluxo geral das vias. Na prática, o veículo que corre chega ao semáforo fechado ou ao cruzamento seguinte com maior velocidade residual, o que eleva exponencialmente o impacto e a letalidade em caso de colisão, além de antecipar o desgaste do sistema de freios e elevar o consumo de combustível. Por outro lado, a desaceleração de 48 km/h para 32 km/h reduz a probabilidade de morte em atropelamentos de 50% para 10%.

 

Simulações com IA apresentaram vários cenários aos participantes para avaliar comportamentos em situações diferentes Foto: Reprodução da pesquisa
 

O levantamento mostra ainda a influência direta do desenho urbano sobre a conduta individual. A sinalização vertical de velocidade, por exemplo, opera com eficácia distinta conforme a tipologia da pista: em vias locais e cruzamentos, associada a redutores físicos como lombadas e minirrotatórias, a presença de placas reduz em até 10 km/h a velocidade média praticada. Já em avenidas expressas e pistas largas, os motoristas tendem a desconsiderar os avisos, influenciados pelo ritmo coletivo e pela geometria espaçosa do traçado.


Pedestres
A presença de pedestres atua como um regulador natural de conduta. A simples circulação de transeuntes pelas calçadas estimula a diminuição voluntária da velocidade pelos motoristas, cenário em que as placas servem como balizadoras para padronizar o andamento do tráfego. Além disso, a disposição em cumprir a legislação é reforçada pelo risco de autuação, apontado por 90% dos entrevistados, e pela preocupação com os ocupantes do veículo, com 80% dos participantes afirmando regular a aceleração para resguardar seus familiares.


Com base nos dados coletados, o relatório sugere aos gestores públicos medidas práticas, como a adequação entre a velocidade máxima regulamentada e o perfil geométrico real da via, evitando incoerências que estimulem o descumprimento, além do emprego de intervenções físicas de tráfego que induzam à redução do ritmo em áreas com grande movimentação de pedestres.


Semana Nacional de Trânsito
A divulgação dos resultados coincide com o período que antecede a Semana Nacional de Trânsito 2026, que vai de 18 a 25 de setembro. O estudo também subsidia as metas do Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans), cuja diretriz é diminuir pela metade os óbitos viários até 2030. 


Para ler a íntegra do estudo, clique aqui e acesse o site da Fundação Mapfre.

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