A eterna dificuldade dos pedestres em atravessar as ruas do Recife

Traseunte se depara com pontos hostis à passagem. Problema pode ser amenizado com soluções simples

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Fonte: Folha de Pernambuco  |  Autor: Luiz Filipe Freire  |  Postado em: 08 de agosto de 2016

 

Há pontos do Recife em que faixas de pedestres fazem falta, levando quem se locomove a pé a se arriscar. Foto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco

 

De todos os momentos do trajeto, o da travessia é o que mais expõe quem se desloca a pé. É quando se desce da calçada para fi­­­car no mesmo nível dos veícu­­­los. A faixa de pedestre é o lo­­­­cal mais adequado. O problema é que nem sempre está on­­­de é necessária.

 

A manuten­­ção delas ou a construção de passarelas são iniciativas nem sempre levadas à frente pelo poder público. Diante de estatísticas alarmantes, como as que revelam um atropelamento a cada sete minutos no Brasil, discussões como essas voltam à tona no Dia Mundial do Pedestre, celebrado nesta segunda-feira (8). É a luta por um trânsito mais humanizado.

 

Apesar das seis mil faixas de pedestres espalhadas pelo Recife, ainda há pontos hostis à mobilidade a pé. E não é pura má vontade em seguir até o lo­­cal de travessia mais seguro. Há lugares em que essa é uma tarefa inglória.

 

O trecho inicial da avenida Domingos Ferreira, no Pina, Zona Sul do Recife, é um deles. Em 2004, quando o fluxo foi invertido na via, uma parte do canteiro central foi removida. Em 2013, o equipamento sofreu um no­­vo recuo para facilitar a saída de um shopping da região. Os pedestres, que tinham um refúgio entre uma pista e ou­­­tra, agora se arriscam para atra­­­vessar seis faixas de rolamento de uma só vez, sem semáforo ou qualquer proteção.

 

Mesmo com o perigo, é a op­­­ção escolhida por quem não quer caminhar quase meio quilômetro até as faixas de pedestres mais próximas. “Se colocassem alguma fai­­­xa ou sinal, seria melhor. É um lugar de muitos estabelecimentos, onde as pessoas precisam passar. Já teve acidente aqui”, conta o recepcio­­­nista Riteclife Costa, 31, que costuma atravessar no local.

 

Na Ponte Estaiada, num dos acessos à Via Mangue, também há risco. “A ponte tinha uma área só para pedes­­­tre. Depois, construíram tudo isso aqui e es­­queceram quem precisa atra­­­vessar”, diz o carroceiro Márcio da Silva, 35. No local, pichações numa mureta de proteção expõem o des­­­caso: “E o pedestre? Atravessa voando?” A pro­­­messa é de uma passarela, que, segundo a URB, será licitada ainda nes­­te ano.

 

Soluções

Experiências adotadas em outras cidades, inclusive brasi­­­leiras, mostram soluções sim­­ples e com baixo custo. Elas misturam contagem de tráfego, redução de velocidade, si­­­nalização e rigor na fiscalização.

 

Em março, Curitiba ganhou “calçadas verdes”, extensões dos passeios públi­­­cos demarcadas em áreas ociosas de ruas e avenidas, no mesmo nível dos veículos. São pedaços de cruzamentos e canteiros à disposição dos carros, mas pouco utilizados nas manobras. Passam, então, a ser usados por pedestres como refúgios, aproximando os dois lados de uma travessia. Para manter a segurança, são pintados de verde e recebem tachões. A iniciativa é testada em zonas de baixa velocidade.

 

Outra iniciativa, essa de São Paulo, é a implantação de faixas de pedestres diagonais. Ins­­pirados em modelos japoneses, os equipamentos simplificam o ir e vir em cruzamen­­tos com muitos semáforos. Reduzem o tempo de travessia e até inibem pessoas “apressadinhas” de se arriscarem.

 

 
Calçadas verdes em Curitiba. Lucilia Guimarães/IPPUC Curitiba

 

Inspiradas em modelos de Nova York, as “calçadas verdes” che­­ga­­ram a Curitiba (PR) em março des­­­­­­­te ano. São refúgios para pe­­­destres durante a travessia ins­­­talados em pontos antes ociosos.

 

Ficam em cruzamentos ou perto de calçadas físicas. São demarcados de verde para chamar a aten­ção, já que a cor é pouco usada em sinalizações de trânsito.

 

“Martelos” urbanos

O modelo é comum nas ruas de Lyon, na França. Nas esquinas, as calçadas são projetadas para a via - num formato parecido com o da pon­­ta de um martelo -, resguar­­dan­­­do a área de travessia. O obje­­tivo é inibir que veículos es­­tacio­­nem sobre a faixa. É associada à redução de velocidade.

 

Faixas diagonais em São Paulo. Foto: Fernando Pereira/Prefeitura de São Paulo

 

Adotadas em São Paulo, as faixas de pedestres diagonais reduzem o tempo de travessia em cruzamentos com semáforos diversos. Assim, passa a ser desnecessário seguir para um lado da via e esperar um segundo tempo semafórico para poder completar o percurso até a outra esquina, ini­bindo posturas arriscadas de pedestres mais “apressadinhos”.

 

O plano recifense para travessias

No Recife, soluções são pensadas no Plano de Mobilidade, previsto para o fim do ano. Elas passam por propostas como as de criação de ilhas de travessias e pe­­­la conversão de canteiros ociosos em pontos de refúgio. O remo­­­dela­­­men­­­to de calçadas é outra estratégia. A ideia é alargá-las nas esquinas, proje­­­tando-as pa­­­ra a via. Os “mar­­­­­­telos urbanos”, como são conhe­­ci­­­dos, asseguram que nenhum veículo estacione na área de travessia.

 

Conforme o secretário-executivo do Instituto Pelópidas Silveira (ICPS) e coordenador do plano, Sideney Schreiner, além de propostas de mudan­­­ças geométricas em vias, a redução da velocidade dos veículos também é avaliada, inclusive a possibilidade de implantação de mais Zonas 30, como no Bairro do Recife.

 

“Hoje, a concepção se baseia no limite de velocidade. Queremos ampliar, estabelecendo diretrizes para travessias, definindo onde serão implantadas plataformas elevadas e fiscalização eletrônica”, diz. A ideia é que a iniciativa se concretize no entorno de escolas e mercados. É estudada ainda a implantação de mais passarelas e semáforos de pedestres.

 

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