Uma ponte para carros ou exclusiva de pedestres e ciclistas? A polêmica em Teresina

Contra a obra, que irá derrubar árvores para abrir mais uma via ao trânsito, alunos da Universidade Federal do Piauí desenham alternativas, voltadas à mobilidade ativa

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Fonte: Mobilize Brasil  |  Autor: Regina Rocha / Mobilize Brasil  |  Postado em: 14 de maio de 2015

Cartaz da mostra com os 12 motivos para ser contra

Cartaz da mostra com os 12 motivos para ser contra a ponte

créditos: Divulgação / VemProMeio

 

A obra de uma ponte em Teresina - para ampliação da ponte Juscelino Kubitschek, principal ligação do centro com a zona leste da cidade -, vem mobilizando moradores contrários ao projeto do governo estadual. Eles alegam que se for construída, a terceira ponte, ocupando o vão central entre as duas pistas da ponte JK, trará impactos negativos à mobilidade urbana - pois prioriza o carro em detrimento de pedestres e ciclistas - e ao meio ambiente, já que prevê o corte de grandes árvores nativas nos acessos. Por ora, a obra está embargada pela Justiça, mas a intenção das autoridades é retomar os trabalhos, para melhorar o fluxo dos veículos.    

 

À frente do movimento contrário à obra atual está o coletivo VemProMeio, formado por alunos de arquitetura da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Os futuros profissionais desenvolveram projetos alternativos de ponte para uso exclusivo de pedestres e ciclistas. Veja uma delas, elaborada para a disciplina de planejamento urbano e regional da UFPI, ministrada pela professora Angela Braz. 

 

Na luta pelo uso democrático de espaços públicos como esse na capital piauiense, os jovens ganharam o apoio de instituições como OAB, Ministério Público e conselhos regionais Crea e CAU. Além disso, desenvolvem ações para conscientizar a população, como a ocupação da 'ponte do meio', como é conhecida, que no último dia 10 de abril reuniu 40 participantes. 

 

O aluno de arquitetura da UFPI, Luan Rusvell, procurou o Mobilize para divulgar esta causa. Ele conta que a ocupação da ponte teve grande repercussão na cidade: "Sem interromper nenhuma via da ponte, e debaixo de chuva, acabamos formando ali um grande congestionamento de gente que queria saber do que se tratava. Essa a ideia, conscientizar a população, já que muitos ainda acreditam que o modo de resolver o problema do trânsito é abrindo mais e mais vias para os carros", esclarece o rapaz. O grupo, formado no ano passado, organizou também a exposição "O fim justifica o meio?" debaixo da ponte JK, onde listaram 12 motivos para a não construção da ponte. Agora, eles querem ter o direito de participar como representantes fixos no comitê de desenvolvimento urbano do município, e elaboram um abaixo-assinado nesse sentido.      

 

Lugar nenhum a lugar nenhum
O que dizer de uma ponte cujo projeto não previu acessos nas extremidades? Pior, uma ponte inserida no vão de 10 metros entre as duas faixas existentes (da ponte JK), mas que, depois de executada, viu-se que ficou com o piso 18 centímetros mais alto do que o das pistas laterais? 

 

"Esta obra desde o início foi marcada por fraudes, no contrato com a construtora, foi feita às pressas com fins eleitorais. O resultado são falhas estruturais e acessos não desenhados, deixados para depois", denuncia Luan. Além disso, não foram realizados os estudos de impacto ambiental. 

 

Assim , para dar destino melhor, mais sustentável, ao tabuleiro de concreto já executado, os futuros arquitetos elaboraram estudos e outros projetos, com olhar mais humano. "Falta agora a prefeitura abrir canais de diálogo com a universidade, conhecer nossas propostas", argumenta.

 

Dos dez metros da "Ponte do Meio", sete são reservados para o corredor de ônibus e apenas três para acesso de pedestres e ciclistas em conjunto, diz Luan. Além disso, pelo projeto atual as pessoas ficarão "enclausuradas" por estruturas metálicas nas laterais e na cobertura, critica. 

 

Teresina é uma cidade quente, e deveria ter um planejamento urbano que levasse em conta a arborização, sustenta o estudante do último ano de arquitetura. No entanto, acrescenta, a proposta do governo vai no sentido contrário de ajudar a resolver a condição climática adversa, ao propor derrubar as frondosas árvores do canteiro central das avenidas Frei Serafim e Juscelino Kubitschek, o que desconsidera o uso de um local tradicionalmente frequentado pelos moradores da cidade. 

 

"O transporte público na cidade é ruim, e o reflexo disso é o aumento crescente do carros. Ainda assim, acreditamos que o melhor uso para a ponte é ser um espaço sem carros, para modos suaves. Os acessos devem ser apenas um prolongamento dos canteiros das avenidas, onde pedestres e ciclistas possam circular", ensina o futuro urbanista. 

 

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