Governos do mundo estão buscando caminhos para driblar a crise de abastecimento de petróleo causada pelo conflito no Irã. As medidas adotadas vão do racionamento ou alta no preço do combustível a soluções mais sustentáveis, como transporte gratuito e incentivo à bicicleta.
Em todos os casos, o objetivo é minimizar os efeitos da elevação nos preços globais do petróleo, que já é sentido nos diversos cantos do planeta em razão da prolongada guerra encetada pelos Estados Unidos no Oriente Médio e o fechamento, pelo Irã, do Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo e gás natural mundial.
Nenhum governo ou especialista em política sabe avaliar quanto tempo esse cenário irá durar e a extensão de seus impactos sobre a vida urbana. Por isso, governos correm para implementar medidas que, às vezes opostas, buscam proteger consumidores e as economias. É o que mostra a BBC em reportagem sobre as reações nos diversos países.
Tarifa Zero
Caso emblemático de aposta na mobilidade sustentável é a Austrália, na Oceania. Na contramão da dependência dos combustíveis fósseis, os estados de Victoria (onde fica a populosa cidade de Melbourne) e Tasmânia decidiram oferecer transporte público gratuito à população por um período determinado.
A aposta é que, ao estimular o uso dos coletivos, será possível reduzir nas ruas a quantidade de veículos particulares e assim economizar a escassa gasolina. Em Victoria, a gratuidade deve durar por volta de um mês; na Tasmânia, esse período vai até julho, e vale para ônibus e balsas do transporte coletivo.
No sul da Ásia, o Paquistão é outro país que anunciou para, a partir de 4 de abril e por um mês, a gratuidade no transporte público na capital e províncias mais populosas do país. O ministro do Interior, Mohsin Naqvi, declarou que todos os ônibus e metrôs nestas áreas integrarão essa medida.
Já no Sudeste Asiático, o Vietnã apostou em políticas para a mobilidade ativa, e adotou medidas para incentivar os cidadãos a usar bicicletas, além do transporte público e compartilhamento de carros. Também os impostos sobre a gasolina e o diesel foram suspensos temporariamente.
Ainda no continente asiático, Mianmar estabeleceu dias alternados para a circulação de veículos particulares, e o racionamento monitorado de combustível. E as Filipinas decretaram estado de emergência nacional, com redução dos serviços de balsa e subsídio do governo a motoristas de transporte, que estão sendo duramente afetados pela crise.
A crise energética se estende inclusive para o norte da África. O governo do Egito não quis adotar incentivos para tentar frear os problemas, e partiu logo para o aumento dos preços do combustível e, o que é pior, das tarifas de transporte público.
E aqui?
No Brasil, até o momento o governo vem tentando conter o aumento nas bombas com medidas como subsídios ao diesel e redução de tributos federais sobre combustíveis. Já há relatos, inclusive, de dificuldades enfrentadas por municípios gaúchos para a compra do diesel, além de problemas de abastecimento.
Por outro lado, Congresso e governo seguem devagar na adoção de medidas que permitiriam diminuir nossa dependência do combustível fóssil. A priorização do transporte público e dos modos ativos, além de incentivos à transição energética, com maior celeridade à eletrificação das frotas de ônibus, são discursos em voga, mas que na prática custam a sair do papel.
O mesmo acontece com a tarifa zero, que a exemplo da Austrália poderia ser adotada como mecanismo anticrise, reduzindo o combustível lançado pela frota de carros particulares, potencializando o uso do transporte coletivo. Só que, aqui, não há ainda previsão orçamentária para implementação imediata da proposta, que tem custo estimado entre R$ 90 bi e R$ 200 bi. E nem há sinal de urgência de parte dos parlamentares para votar um projeto como o do Sistema Único de Mobilidade, que permitiria financiar a gratuidade com fontes variadas de recursos e gestão compartilhada entre União, estados e municípios.
A falta de respostas, mesmo com a crise batendo na porta, não tem respaldo em avaliações já construídas, como um estudo da Fundação Getulio Vargas (2025) mostrando redução de 4,2% na emissão de gases poluentes nos locais onde vigora a gratuidade nos ônibus, na comparação com municípios que não adotam a política.
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