Nesta quarta-feira (9), a mídia tradicional trouxe duas notícias que juntas chamam a atenção. Tratadas como fatos positivos, sem maiores reflexões, quando vistas pelo ângulo da mobilidade urbana sustentável, da qualidade de vida nas cidades e da perspectiva de uma economia futura, deveriam trazer alguma preocupação.
A primeira delas veio da associação das montadoras, a Anfavea, que anunciou uma melhora expressiva na produção de veículos no mês de março. Foram 264,1 mil unidades, um salto de 27,6% em relação a fevereiro e de 35,6% comparado com o mesmo mês do ano passado. A entidade celebra o resultado, acima do esperado e o melhor desde 2019, dizem os dirigentes do setor, impulsionado sobretudo pelo forte crescimento nas vendas. O automóvel particular é o destaque, como o segmento de maior volume de vendas, tendo registrado em janeiro 1,4% de aumento nos emplacamentos.
Pela lente de quem observa a mobilidade urbana, a notícia poderia ser entendida como o anúncio antecipado de ainda mais congestionamentos nas ruas no próximo período. E quem vive nos grandes centros, e sofre com o trânsito, já percebe essa explosão motorizada.
Veículos aos milhões
Dados do final de 2025 da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) apontam para uma escalada nos números: só as dez maiores cidades do país concentram dezenas de milhões de veículos em circulação. O destaque são, claro, automóveis e motocicletas. São Paulo dispara, com a maior frota: são 9.655.748 veículos registrados. Em seguida, vem Rio de Janeiro (3.222.231), Belo Horizonte (2.743.849), Brasília (2.156.992), Curitiba (1.884.511), Fortaleza (1.265.407), Salvador (1.071.873), Campinas (977.271) e Manaus (961.151). Ou seja, praticamente todas com mais de um milhão de veículos. E todas mostram o automóvel como o veículo preponderante.
A segunda notícia de ontem - também "normalizada" nos meios de informação - vem da Petrobras. Segundo o boletim ClimaInfo (diga-se, exceção ao tom acrítico dos principais órgãos), a estatal tenta avançar mais rápido na Foz do Amazonas pela abertura de uma nova fronteira de exploração de petróleo e gás fóssil no norte do país. Isso, observa o ClimaInfor, "mesmo com a segurança energética dos combustíveis fósseis jogada por terra com a guerra no Oriente Médio". Nessa direção, a empresa pediu permissão ao Ibama para perfurar mais três poços no bloco FZA-M-59, logo que finalizar a perfuração do poço de Morpho. A perfuração nesse poço, vale lembrar, chegou a ser interrompida em janeiro após o vazamento de mais de 18 mil litros de fluido.
Ao que parece, a mídia seguirá noticiando retrocessos como avanços, celebrando o crescimento nas vendas de automóveis e não relacionando opostos, como as políticas em favor dos combustíveis fósseis e a sempre adiada transição energética que necessitamos em tempos de mudanças climáticas.
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