Duas comunidades localizadas em áreas não centrais da zona sul de São Paulo - o Jardim Panorama e o Jardim Ibirapuera - passaram a contar desde o final de maio com um sistema próprio e gratuito de bicicletas comunitárias. O objetivo do projeto Pedalando Juntas é ampliar o acesso à mobilidade ativa e ao lazer a esses moradores, e já teve boa acolhida por parte de ambas as comunidades.
Idealizada pelo Instituto Caminhabilidade, a proposta é se colocar em regiões onde os sistemas convencionais de bicicletas compartilhadas não chegam ou apresentam barreiras de acesso. Diferentemente dos modelos operados por empresas privadas, que exigem pagamento e têm baixa presença em bairros periféricos, as bicicletas compartilhadas comunitárias oferecem alternativa gratuita e de gestão coletiva, já que a administração é feita pelas próprias comunidades, em benefício dos moradores.
Ocupar os espaços públicos
Próximo a uma dessas comunidades está o Parque Linear Bruno Covas, que oferece diversas atrações como ciclovias, playgrounds, áreas para piqueniques e trilhas. Mas, apesar da oportunidade de lazer, muitos moradores de áreas vizinhas ao Pinheiros, o rio que margeia o parque, desconhecem ser esse espaço aberto ao público - isso, mesmo cruzando frequentemente as pontes que o atravessam. Uma das intenções do projeto é justamente estabelecer essa interação, permitindo às pessoas criar vínculos com territórios interessantes como esse na região.
“É muito importante observarmos essa relação entre o caminhar e a bicicleta. Precisamos promover a mobilidade ativa como um todo para desenvolver cidades que sejam mais acolhedoras e seguras para meninas e mulheres. A partir do Pedalando Juntas, conseguimos concretizar isso, fazendo com que mulheres que já sabem pedalar tenham acesso às bicicletas e se reapropriem do espaço público e da cidade. Queremos que outras mulheres e meninas se sintam convidadas a começar, ocupando cada vez mais as ruas e garantindo seu direito à cidade”, afirma Letícia Sabino, diretora do Instituto Caminhabilidade.
"Mais mulheres nas ruas" é o que defende Emilly Vitória, gestora do Pedalando Juntas no Jardim Ibirapuera. Segundo ela, “por vários fatores nas comunidades muitas mulheres têm que arcar com responsabilidades mais cedo do que o esperado, então o tempo para o lazer acaba sendo escasso. E este projeto permite o lazer de maneira gratuita, além de incentivar uma atividade essencial para a saúde dos moradores", explica.

Personalização de bikes, com Ju Granja (dir.) Foto: Instituto Caminhabilidade
Parceiros
Para viabilizar o Pedalando Juntas, foi realizada uma campanha de doação de bicicletas em parceria com o Instituto Aromeiazero, e arrecadadas 20 bikes, que passaram por manutenção e restauro de cor. Desse total, cinco se destinam a crianças e adolescentes, e as demais aos adultos.
Outro parceiro é o Bloco do Beco, que atua há mais de 20 anos no Jardim Ibirapuera promovendo cultura e um espaço de educação integrada para famílias e crianças da comunidade.
No trabalho de articulação territorial, o projeto contou com o apoio de duas mulheres: Alalucha, no Jardim Ibirapuera, e Carol, no Jardim Panorama; ambas atuaram para aproximar o projeto das comunidades e fortalecer o diálogo com os moradores.
Lançamento
A inauguração do Pedalando Juntas foi no último fim de semana do mês de maio, em meio a diversas atividades. No sábado (30), no Jardim Panorama, aconteceram aulas de bicicleta com a Bike Anjo, e no domingo (31), no Jardim Ibirapuera, a programação contou com um pedal coletivo em parceria com o Pedal na Quebrada. Houve ainda ações de grafitagem em ambos os bairros e a presença de um pipoqueiro, que alegrou as crianças e famílias da comunidade.

Como funciona
Como dito, as regras de uso do sistema foram definidas coletivamente pelas comunidades durante oficinas participativas. As bicicletas poderão ser reservadas aos sábados, domingos e feriados, das 9h às 12h e das 13h às 18h, com empréstimos de até três horas por pessoa. O uso é gratuito e, para retirar uma bicicleta, moradoras e moradores precisam realizar cadastro na associação local, apresentando documento de identificação.
Para gerenciar os empréstimos das bicicletas, desenvolveu-se um aplicativo que funcionará de forma intuitiva, facilitando o uso do serviço pelos moradores. Além de registrar a manutenção e reparos, a ferramenta também irá gerar dados para a análise dos primeiros meses de implementação do sistema. “Teremos acesso a informações sobre quem utiliza mais as bicicletas, se mulheres, crianças ou homens, os horários de uso e os principais destinos. Esses dados vão nos ajudar a entender estratégias de estímulo ao uso e ativação das bicicletas”, diz Letícia Sabino.
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