A maior cidade do país, São Paulo, tem quase 12 milhões de habitantes e já avançou muito quando o assunto é acessibilidade. Ainda assim, há um longo caminho a percorrer ao falarmos de acessibilidade urbana.
Na teoria, muitos espaços na cidade se apresentam como acessíveis. Mas, quanto dessa acessibilidade realmente existe na prática?
Tenho mielomeningocele (malformação congênita da coluna), uso muletas canadenses no dia a dia e cadeira de rodas em percursos mais longos. Por isso, acessibilidade não é, para mim, apenas uma informação disponível em uma placa de rua ou em um site. Ela interfere diretamente na forma como consigo circular, trabalhar, estudar e participar da cidade.
E essa não é uma questão que atinge uma pequena parcela da população. O Censo Demográfico 2022 (IBGE) registrou mais de 18 milhões de pessoas com deficiência no Brasil. São pessoas que também utilizam transporte público, frequentam espaços culturais, trabalham, estudam, vão a shows, feiras, parques e circulam pelas cidades.
Se pessoas com deficiência estão em todos esses espaços, a acessibilidade também deveria estar. No ano passado, estive em uma das maiores emissoras do país para acompanhar algumas gravações. A estrutura foi acessível e encontrei pessoas atenciosas, que me guiavam e perguntavam como poderiam me ajudar. Apesar de, aparentemente, eu ser a única com deficiência naquele espaço, me senti respeitada e tive meu direito de ir e vir garantido.
Em uma feira, porém, a experiência foi completamente diferente. Comprei um ingresso PCD para um show do Kirk Franklin, mas não havia uma área acessível adequada. Assisti à apresentação toda em cima de um banco, enquanto meus irmãos precisaram me apoiar durante o evento.
Barreiras urbanas
Quando alguém não consegue entrar em um espaço porque existe uma escada, o problema não está simplesmente em sua condição física. Existe também uma barreira construída naquele ambiente. Quando há elevador mas está quebrado, a estrutura que deveria garantir autonomia deixa de cumprir sua função.
É por isso que não basta um espaço ser considerado acessível no papel. É preciso que a acessibilidade funcione na prática, no momento em que a pessoa precisa dela. Pensar em mobilidade urbana também significa pensar em quem consegue, de fato, se deslocar e ocupar a cidade com autonomia. Uma cidade só pode ser considerada inclusiva quando pessoas com deficiência conseguem participar dela não como exceção, mas como parte da população.
A acessibilidade não deveria aparecer somente quando é preciso reivindicá-la. Deveria estar presente no planejamento das cidades, nos transportes, nas calçadas, nos eventos, nos espaços culturais e em todos os lugares onde a vida acontece.
Pessoas com deficiência estão em todos os lugares. Por isso, a acessibilidade também deveria estar. Estar presente nesses espaços é mais do que circular pela cidade, é exercer um direito. É ocupar lugares dos quais, por muito tempo, pessoas com deficiência foram afastadas. E principalmente, estar presente também é uma forma de resistir.
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*Débora Saraiva tem 25 anos, e nasceu em São Paulo. Graduada em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu, interessa-se por temas relacionados à cultura, pessoas com deficiência e acessibilidade, tendo inclusive direcionado seu trabalho de conclusão de curso a tratar da representação de pessoas com deficiência no jornalismo. |
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